20161229-20161230: O Sétimo e o Oitavo Dia (Ghent e Bruxelles) 

Fiquei sem escrever por dois dias inteiros. No dia 29/12/2016, quinta-feira, a Paloma escreveu, falando um pouquinho de nossa ida a Ghent e do episódio no trem. Ontem, sexta-feira, foi dia de faxina. Nosso quarto recebe a visita de uma distinta faxineira nas sextas-feiras, e nós, aproveitando a dica, resolvemos lavar roupa e arrumar as coisas (inclusive fazendo certas definições sobre viagens futuras, reserva de hotéis, etc. Assim ficamos no hotel até cerca de 15h, quando saímos, almoçamos, tomamos uma “sobremesa do ano”, extravagante, na Häagen-Dazs, fizemos uma compra maior num Carrefour grande (até aqui havíamos usado o “Carrefour Express” ou o “Carrefour City”, que são variantes locais do supermercado) para celebrar, no quarto, como fizemos na Véspera do Natal, a Véspera do Ano Novo (antes de sairmos para ver os fogos na praça aqui perto, que será o lugar do foguetório na cidade, segundo consta.

Hoje vamos a Aachen, cidade da Alemanha que é chamada, em Francês e Inglês, de Aix-la-Chapelle. À noite escrevo sobre a experiência. É uma das cidades sobre que tenho grande expectativa, histórica e arquitetônica.

É isso. Vou me arrumar para sair, que estamos atrasadinhos, embora tenha me levantado às 6h00. São 7h20.

Em Bruxelles, 31 de Dezembro de 2016 AM

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20161229: Meu Trem

Eis que vivemos a primeira emoção em terras belgas para eu contar aqui no Blog…

Hoje estivemos em Gent. Fiquei encantada com o Mercado de Natal daquela cidade. O melhor até agora! Mas não é sobre isso que eu vou falar neste post, algo que o Edu deve fazer em breve. Vou contar sobre a volta para casa.

Antes, porém, farei a contextualização da história…

Temos utilizado os passes Eurail em todos os passeios que temos feito. Temos três passes: um duplo, para viajantes adultos que viajam juntos (o Edu e eu), e outros dois individuais, para jovens de até 25 anos (as meninas). Ao entrar no primeiro trem registramos, no formulário que vem junto com os passes, a cidade de origem e a cidade de destino. Invariavelmente, em algum momento da viagem (normalmente no começo), o fiscal do trem nos aborda e verifica nossos passes. Às vezes ele faz uma anotação ou um furinho ao lado do trecho registrado. Entretanto hoje, excepcionalmente, não fomos abordados em nenhum dos dois trens que tomamos na ida e nem nos dois primeiros trens da volta.

O primeiro da volta, talvez por ter sido um trecho muito curto, de apenas uma estação (entre Gent Dampoort e Gent Sint Pieters), não houve sequer tempo para sermos abordados. Este foi, inclusive, o trem mais lotado que pegamos até agora. Achei até que teríamos de ir de pé, mas deu para sentarmos. No segundo trecho, o mais longo da viagem de volta para Bruxelas, nos deparamos com uma fiscal de trem brasileira, de Recife, filha de um belga com uma brasileira, e que vive na Bélgica desde os 14 anos. Com toda a simpatia típica brasileira ela nos deu tantas dicas preciosas de viagem durante o trajeto entre as estações Gent Sint Pieters e Brussel Zuid, que acho que acabou não tendo tempo de pedir nosso passe para fiscalização.

No terceiro e último trecho de trem, da estação Brussel Zuid até Brussel Luxemburg, entretanto, a história foi diferente.

Logo ao embarcar no trem, ainda na estação Brussel Zuid, notamos que o fiscal desse trem era daquele tipo bravo. Ele fechou a porta do trem na cara de uns rapazes que tentaram embarcar após ele soprar o apito avisando que as portas seriam fechadas. Ele não apenas fechou a porta na cara dos rapazes, como também fez uma expressão muito brava, para deixar claro que naquele trem ninguém desrespeita o fiscal.

A estação seguinte era Brussel Centraal. Segundo o Google Maps nosso hotel fica a 650 metros dessa estação. Já fizemos esse trajeto à pé algumas vezes. Porém, a estação Brussel Luxemburg fica a 450 metros do nosso hotel. Se permanecêssemos no mesmo trem, ele daria uma volta, mas, três estações à frente, chegaríamos a esta estação, e economizaríamos 200 metros de caminhada. A Priscilla e eu votamos por permanecer no trem, não tanto pela caminhada, mas pelo frio absurdo que está fazendo hoje, do tipo que corta até a alma. Mas o Edu e a Bianca disseram preferir descer na estação central.

Ao lado da estação Brussel Centraal tem um Carrefour Express, que temos utilizado para abastecer o frigobar do nosso quarto no hotel. Então sugeri que o Edu e a Bianca descessem na estação central e passassem no mercado para comprar água, coca zero e chocolates, que estavam faltando em nossa geladeira, e eu e a Priscilla seguiríamos até a estação mais próxima do hotel. Eles concordaram. Ficamos todos satisfeitos.

Toda essa negociação foi muito rápida! Chegamos à estação central, nos despedimos brevemente e eles desceram.

Acontece que, tão logo a porta do trem se fechou, eu percebi que o Edu tinha descido com os nossos passes do trem… Fiquei apavorada! Como eu iria explicar ao fiscal bravo do trem que estávamos viajando sem passes!

Compartilhei meu medo, então, com a Priscilla, que também ficou apavorada. Começamos a rir de nervosas… Cada vez que o fiscal passava por nós, suávamos frio. Torcemos para não ser abordadas, como não havíamos sido durante todo o dia. Faltavam apenas mais duas estações (Brussel Noord e Brussel Schuman). Desceríamos na terceira (Brussel Luxemburg).

Enquanto eu fazia aquela cara de culpada, a Priscilla até chegou a registrar no SnapChat minha expressão nesse vídeo:

Chegamos à estação Brussel Noord. O fiscal desceu, como fazia em todas as estações. Nós duas ficamos torcendo para sair logo dessa estação, passar pela outra e, finalmente, chegar à nossa. O fiscal soprou o apito, e retornou ao trem. Passou por nós (frio na barriga), abriu uma portinha no final do nosso vagão e entrou. De repente saiu de lá com a maquininha que eles utilizam quando fazem a fiscalização dos passes (novo e maior frio na barriga). Passou por nós e foi para outra parte do vagão. Em seguida ele voltou e pronunciou a tão temida frase: “Os tickets, por favor”.

Pânico total! A Priscilla e eu nos entreolhamos sem saber direito o que dizer.

Eu virei para ele e disse

– Desculpe. Nós temos um problema…

Ele, então, disse

– Vocês precisam ter tickets para andar de trem.

Eu respondi

– Eu sei, mas é que meu marido…”

Então eu pedi para a Pri explicar, com o inglês dela, que é melhor do que o meu, o que havia acontecido. Ela falou sobre o Edu, a estação central, etc. O olhar dele não era amistoso. Então ele disse:

– No MEU TREM as pessoas precisam de tickets para andar.

– Eu sei. Sinto muito por essa situação… – Respondi.

– Em que estação vocês vão descer? – Ele perguntou.

– Em Brussel Luxemburg – A Priscilla respondeu.

– Normalmente, no MEU TREM, em uma situação como essa, os passageiros pagam uma multa de nove Euros cada, totalizando dezoito Euros.

A cena dramatizada por mim na sequência, para o SnapChat da Priscilla, ficou assim:

Após pronunciar essa frase, com um olhar fuzilante, ele virou as costas e saiu caminhando em direção à outra parte do vagão.

Pense em alguém muito envergonhada… Melhor, imagine a culpa em forma de gente… Éramos mais ou menos assim… Queríamos sair desesperadamente daquele trem! Ficamos em um estado de nervos estranho. Tentávamos rir da situação (e rimos muito), mas ao mesmo tempo estávamos tão tensas e envergonhadas, que estava até doendo a musculatura da nossa face…

O trem parou na estação Brussel Schuman, seguiu em frente e finalmente anunciou a aproximação com a estação Brussel Luxemburg. Nos levantamos rapidamente e nos posicionamos à porta. Quando o trem estava se aproximando da plataforma, o fiscal apareceu e veio caminhando em nossa direção. Mal o trem parou, abrimos a porta e saltamos. Ele saiu logo atrás de nós. Certamente foi verificar se íamos, mesmo, descer na estação que havíamos dito que desceríamos.

Demos alguns passos, eu virei para trás e disse humildemente “Merci”. Ele quase esboçou um sorriso e acenou com a cabeça, como que respondendo ao meu agradecimento. Ele foi gentil, tenho que admitir. À maneira dele, mas foi.

Podíamos ter ficado sem essa… Mas, nesse caso, eu não teria essa história para contar…

Em Bruxelas, 29 de Dezembro de 2016.

20161228: O Sexto Dia (Strasbourg e Retorno)  

De manhã, acabamos desperdiçando boa parte do dia, dormindo. As femininas, pelo menos… O meu despertador (telefone Samsung Note 4) me acordou às 6h, tomei banho, e fiquei fuçando no computador até 8h30. Foi nesse tempo que escrevi o primeiro artigo do dia, já publicado (“20161228: Uma Reflexão Matinal no Sexto Dia”, em https://tripeu20162017.wordpress.com/2016/12/28/20161228-uma-reflexao-matinal-no-sexto-dia/). Em seguida, por volta das 8h30, comecei a acordar minhas companheiras de viagem, e, quando vi que estavam acordadas, mas iam levar mais de uma hora para ficar prontas, resolvi sair para dar uma volta na cidade durante uma hora e pouco. Voltei às 10h15. Ainda não estavam prontas. Quando ficaram, saímos, deixamos a bagagem (mochilas) guardada no hotel, e fomos tomar café no McCafé, que fica ao lado do hotel – onde o atendimento foi mais demorado do que devia. Por iniciativa da Bianca, testamos o sistema de fazer e pagar a encomenda em um totem e só entào ir ao balcão. O problema, depois, foi a demora de quase 20 minutos para que aprontassem os três croissants, que precisaram ser assados, aparentemente do zero… Mas, de resto a experiência foi muito bem sucedida. Parabéns à Bianca pela ousadia de inovar e empreender.

Terminado o café, fomos rodar pelas bandas da Petite France, o lugar que, na minha opinião, é o mais bonito de Strasbourg. Por volta das 13h30 almoçamos, num restaurante novo num prédio antigo, e rodamos mais um pouco. Cerca das 15h30 nos dirigimos para a estação e ficamos na Lounge da SNCF (Société Nationale des Chemins de Fer) por cerca de uma hora. Tomamos café, chocolate, e comemos uns chocolatinhos deliciosos ali. Cerca de 15 minutos antes do horário de saída do trem, rumamos para a plataforma e embarcamos. O trem de Strasbourg para Metz saiu na hora. Levaria quase duas horas, parando em oito estações: Brumath, Saverne, Lutzelbourg, Reding, Sarrebourg, Morhange, Remilly e Metz.

Mas aí começaram os problemas.

Na estação de Reding desceu quase todo o mundo e o trem ficou parado mais do que o normal, com nosso vagão virtualmente vazio. Mas o trem foi em frente e parou na estação seguinte, a de Sarrebourg. Ali ficou parado novamente mais tempo do que o normal e, quando saiu, foi na direção de onde havíamos vindo! Isso nos assustou, a mim particularmente, que, em geral, sou estressado em situações desse tipo. Nenhuma alma à vista no que dizia dispeito a chefes de trem ou outros funcionários da rede ferroviária francesa. E o trem andando devagarzinho, parando, recomeçando… Finalmente, parou na penúltima estação (Remilly) às 18h30 – hora em que deveria já estar chegando em Metz. Tínhamos 16 minutos para baldear para o trem que iria de Metz a Luxembourg. Para encurtar a história, o trem parou na estação de Metz faltando dois minutos para o outro sair, em plataforma diferente — felizmente, do lado (mas sendo necessário descer as esquedas e subi-las de novo). Corremos com toda a velocidade de que éramos capazes. Entramos no trem de Luxembourg e, em seguida, a partida foi anunciada e ele saiu. E estamos aqui, agora dentro do trem, mas meio esbaforidos. Por pouco.

De Metz a Luxembourg, nesta rota (que não é a do TGV), o trem para em nove estações: Metz Nord, Woippy (isso lá é nome de cidade?), Mazieres les Metz, Hagondange, Uckange, Thionville, Hettange Grande, Bettembourg (LX), Luxembourg (LX). As estações sem LX são FR.

Devemos chegar em Luxembourg às 19h46 e tomar o trem para Bruxelles às 20h09, chegando ao destino às 23h04. Iremos a pé até o hotel, que dista cerca de 4-5 quarteirões da estação. Espero que tudo dê certo, porque fiquei estressado em Metz.

De Luxembourg a Bruxelles as estações são as mesmas já mencionadas em outro post (de ontem), na ordem inversa: Arlon, Marbehan, Libramont, Jemelle, Marloie, Ciney, Namur, Gembloux, Ottignies, Bruxelles-Station Luxembourg.

Nessa viagem, as duas meninas (na verdade, jovens de 20 e 18 anos) têm atribuições distintas e bastante específicas. A Bianca (20) cuida de programação: ela pesquisa atrações interessantes nas cidades que vamos visitar. As cidades a serem visitadas foram escolhidas de comum acordo, cada um podendo escolher por volta de duas. A Priscilla (18) cuida do transporte: os trens que devemos tomar, onde devemos baldear, que hora devemos sair, etc. A Paloma cuida das duas e da boa ordem da família, tentando fazer com que o excesso de convivência (simplesmente 24 horas por dia), num espaço restrito (uma suite simples de um hotel, quatro assentos num trem, etc.) não faça os nervos ficarem à flor da pele… Eu cuido das finanças, procurando evitar que os custos corram “over budget”… Essas tarefas todas colocam a convivência em stress ao decidir sobre onde e o que comer, sem incorrer in “budget overrun”, etc. Até aqui temos conseguido conviver bem, com uma ou outra exceção, inclusive minha, que, por vezes me irrito. Penitencio-me publicamente e peço desculpas às minhas companheiras queridas de viagem…

Feito isso, tento explicar a razão de minha eventual irritação. Talvez a principal divergência entre mim e as meninas (Paloma included) está no fato de que eu, quando viajo, coloco ênfase prioritária em conhecer a cidade, tirar fotos, etc. Tomar café da manhã, almoçar, jantar, tudo isso para mim é perda de tempo (embora saiba que preciso me alimentar). Não consigo entender como é que se pode gastar quase uma hora para tomar café da manhã num McDonald’s. Nem como é que se pode ficar dormindo até tarde quando há tanto coisa bonita para ver lá fora. É isso. É uma diferença de outlook. Assunto findo.

Na próxima perna da viagem, comeremos alguma coisa e eu tentarei terminar este artigo.

o O o

Já estamos no terceiro trem do dia… Mas ele não partiu ainda. Oops… Acabou de partir. Três horas até Bruxelles, com aquele número enorme de paradas.

Amanhã, temos plano de ir até Amsterdam, num “bate-e-volta”. Sem TGV, leva cerca de 3h e meia, sem trocar de trem. Será nossa terceira cidade de canais em seguida (depois de Bruges e Strasbourg). Acho lindas as cidades com canais, embora fique imaginando que seria perigoso viver em uma, por causa do risco de inundações. Em Veneza, quando estivemos lá, em 2013, vimos várias casas em que a água havia ocupado totalmente o andar térreo. Até mesmo a Igreja da Praça de San Marco tinha partes inundadas, em que a gente andava sobre passarelas elevadas. A inundação colocava em risco os mosaicos do piso da igreja – embora isso não fosse minha preocupação maior. Fico preocupado mesmo é com a perturbação da vida de uma família que tem a casa inundada e perde tudo, ou boa parte, daquilo que amealhou por anos, boa parte do que não pode ser simplesmente substituído como se substitui um fogão ou uma geladeira… Assim, acho bonito ver, fotografar, lembrar as cenas lindas de uma cidade com canais, mas prefiro morar num lugar bem acima do nível da água!

Amsterdam também já conheço. Estive lá em Setembro de 2003, logo após meu sexagésimo aniversário, que passei em Salzburg, na Áustria. Foi lá que fiquei sabendo que meu netinho Guilherme havia nascido, prematuro de seis meses, no dia 9. Logo depois que eu cheguei de volta em casa no Brasil, ele morreu (no dia 15), por ter nascido sem estar totalmente pronto para enfrentar a vida fora do conforto do útero. Por isso, minhas lembranças de Amsterdam não são as melhores. Ficamos, na verdade, três dias na cidade, num hotel ao lado do aeroporto, funcionários e assessores da Microsoft Corp numa reunião de planejamento do Programa Partners in Learning para a divisão EMEA (Europe, Middle East and Africa). Só fomos à cidade duas noites: uma para um jantar simples, a outra para um jantar com um show de comédia, em que os comediantes ridicularizaram os Estados Unidos (de onde era a maioria dos participantes), o Cristianismo, a Igreja Católica, o Papa. Sobrou muito pouco que não foi objeto de piadas bastante cáusticas e ofensivas, num clima que passou quilômetros de distância do politicamente correto a que o pessoal participante do jantar estava acostumado.

Voltando ao presente, amanhã ficaremos lá só cerca de seis horas, para dizer que fomos e que as mulheres ficaram conhecendo o centro da cidade.

Há uma filial da Escola Lumiar na Holanda, que a Paloma e eu gostaríamos de ter tempo de visitar, mas não vai dar, pelo menos desta vez. Também gostaríamos de poder ir até Giethoom (acho que o nome é esse), uma pequena cidade de canais que fica ao norte de Amsterdam, mas que é de difícil acesso – o trem não chega até ela, seria necessário, além do trem, pegar um ônibus ou alugar um carro, etc. Fica na lista de desejos (wishlist). Eu também gostaria de poder parar em Rotterdam, terra de Erasmo, o humanista dos séculos 15 e 16, que eu admiro muito (muito mais do que admiro Lutero, que se engajou numa polêmica pouco elegante com ele, a propósito do livre arbítrio). Erasmo havia escrito um livro chamado De Libero Arbitrio, e Lutero o criticou de forma extremamente deselegante, violenta mesmo, com seu livro De Servo Arbitrio, em que argumentava que, com a queda, e o consequente pecado original, transmitido a todos os descendentes de Adão e Eva, a vontade humana (o arbítrio humano) havia sido corrompida de tal maneira que ninguém era capaz de sequer dar um passo inicial na direção de sua salvação. Se alguém vai ser salvo, Deus tem de se encarregar de tudo, até mesmo de colocar a fé no coração da pessoa. Está aí a raiz da doutrina da predestinação, que, posteriormente, Calvino desenvolveu com lógica implacável. Erasmo negava a total corrupção da vontade humana na queda. Ele acreditava que o ser humano, apesar do pecado original, ainda seria capaz de buscar a salvação, ou, no mínimo, de tomar a iniciativa de aceita-la como presente divino. Essa controvérsia não era nova. No século 5, Pelágio e Agostinho já haviam se envolvido na mesmíssima controvérsia, Pelágio representando o papel de Erasmo e Agostinho o de Lutero. Até hoje essa controvérsia ainda é objeto de discussões até mesmo no Facebook, entre Arminianos (na posição de Pelágio e Erasmo) e Calvinistas (na posição de Agostinho e Calvino). Mas tudo isso porque não vamos poder parar em Rotterdam… 🙂

Rotterdam também foi uma das cidades em que morou o famoso filósofo Baruque Spinoza, judeu nascido em Portugal, de onde teve de fugir. Mas a cidade terá de esperar uma próxima viagem.

Vou parar por aqui.

Em Strasbourg, 28 de Dezembro de 2016

20161228: Uma Reflexão Matinal no Sexto Dia

Fiquei pensando, hoje cedinho, enquanto tomava banho, sobre a denominação da igreja Metodista que encontramos ontem: “Église Evangelique Methodiste” – Igreja Evangélica Metodista. Ela me fez lembrar das placas que meu pai, pastor desbravador de territórios e plantador de igrejas, mandava fazer (ou às vezes ele próprio fazia) para pendurar na frente dos salões que ele alugava para que operassem como templos das igrejas pioneiras que ele criava. Elas traziam sempre a designação “Igreja Cristã Presbiteriana”. Quando assinava seus artigos para o Puritano ou o Arauto Cristão, ele assinava “Oscar Chaves – Ministro do Evangelho”. Hoje em dia as designações das diversas denominações protestantes ou de suas igrejas locais raramente são suficientemente explicativas. Para termos algo próximo disso, as igrejas locais teriam de se designar mais ou menos da seguinte forma (uso a minha igreja como exemplo):

Templo da Primeira Igreja Cristã Evangélica Presbiteriana Independente de São Paulo

O termo “templo” indica que o edifício é um local de cultos religiosos, não um mero clube de serviços, ou, ainda, uma empreendimento comercial ou um salão de bailes.

O termo “primeira” indica que há mais de uma instância dentro da mesma organização.

O termo “Igreja Cristã Evangélica Presbiteriana Independente”, embora longo e meio canhestro, designaria a organização, indicando que ela é uma igreja (não uma sinagoga ou uma mesquita ou um terreiro) do gênero cristão (não judaico, ou muçulmano, ou budista, etc.), da espécie evangélica (i.e., protestante, isto é, descendente da Reforma Protestante do século 16), da sub-espécie presbiteriana (ramo das igrejas evangélicas ou protestantes iniciado por João Calvino e organizado por John Knox), da sub-sub-espécie independente (sub-ramo que indica que há outras igrejas evangélicas presbiterianas que não se qualificam como independentes, esta sendo uma categoria tipicamente brasileira criada em 1903, etc.).

Por fim, vem a indicação da cidade: de São Paulo.

Ainda restam problemas. Há quem distinga entre protestante e evangélico e se considere protestante sem se considerar evangélico (ou vice-versa), termo que aparentemente emprestaria, na mente de alguns, uma conotação meio entusiástica ou avivada à instituição em questão (como se dizer “evangélico renovado” ou “evangélico avivado” fosse um pleonasmo).

De qualquer forma, a designação da Igreja Metodista que encontramos aqui em Strasbourg não esclarece, para os que não conhecem bem o intrincado mundo das denominações cristãs evangélicas (protestantes), que se trata de uma igreja cristã e evangélica (protestante). A denominação que meu pai usava indicava que se tratava de uma igreja cristã, especificava que era presbiteriana, mas não indicava que era evangélica (protestante). Em nenhum dos dois casos se esclarece que o referido templo é da igreja de Strasbourg ou de Lucélia.

E assim vai. Parece bobagem preocupar-se com isso, mas é surpreendente quantas pessoas, até mesmo membros de uma determinada igreja, desconhecem sua “árvore genealógica”, por assim dizer, ignoram que sua igreja faz parte da  mesma espécie / sub-espécie que outra, dentro do mesmo gênero / da mesma sub-espécie, etc. Pior ainda, é o fato de que, até mesmo entre os alunos de nossos seminários, há gente que considera que a Igreja Adventista do Sétimo Dia ou a Igreja dos Santos dos Últimos Dias (Mórmons) não são evangélicas / protestantes ou nem mesmo cristãs. A ignorância geral fica maior quando se trata da Igreja Anglicana ou da Igreja Ortodoxa Oriental (Grega, Russa, etc.). Para confundir ainda mais, a igreja que se denomina “Igreja Católica Apostólica Romana” não faz nenhuma referência, em sua denominação (no sentido de nome) que se trata de uma Igreja Cristã. O qualificativo “apostólico” deixou de fazer sentido. Ninguém com bom senso acredita, hoje, que os sacerdotes dessa igreja tenham sido todos ordenados por bispos ou outros sacerdotes que foram, por sua vez, ordenados, em uma linha que leva, sem qualquer quebra, até aos apóstolos, e, através deles a Jesus. Em outro detalhinho que me implica, o importante seria Jesus, não os apóstolos, não é verdade? Estes só teriam importância porque foram escolhidos por aquele. Por que não chamar a igreja de jesuítica em vez de apostólica? E a questão da catolicidade? Quer dizer o quê, hoje? Que a igreja é universal? Mas há outras igrejas que pretendem ser universais também. Na verdade, com a divisão de 1054, a Igreja Romana deixou de ser universal (ou católica), ficando apenas Ocidental, isto é, meio universal ou meio católica.

Tenho plena clareza de que posso estar dizendo alguma asneira nessas reflexões que apenas o fato de que eu não tomei ainda um gole de café pode explicar… Se estiver, o bispo Paulo Ayres Martins, metodista, não deixará de me chamar a atenção.

De qualquer maneira, bom dia a todos: irmãos, primos, até cunhados e concunhados, nesse mundo intrincado do parentesco religioso. Mesmo eu, que mexo com isso profissionalmente (embora aposentado), fico meio perdido com Igrejas do Evangelho Quadrangular ou Pentagonal — ou, pior ainda, Igreja da Bola de Neve, que nem referência ao Evangelho faz. Esse negócio de quadrangular e bola parece mais coisa de futebol do que de religião.

Em Strasbourg, 28 de Dezembro de 2016

PS: Afterthought

No final dos anos cinquenta, William Warren Bartley III, que veio a ser meu orientador de Doutorado, escreveu um artigo chamado “I Call Myself a Protestant” (Harper’s Magazine, Dezembro de 1959). [A Harper’s oferece acesso ao artigo em .pdf por um absurdo 6,99 USD: http://harpers.org/archive/1959/05/i-call-myself-a-protestant/.%5D A maior parte das pessoas diria que ele não era mais nem protestante nem cristão.

Nos anos oitenta, o Rubem Alves publicou um artigo meio autobiográfico em que ele justifica o fato de ainda se considerar — não cristão, nem presbiteriano, mas protestante. Publiquei o texto desse artigo chamado “Confissões de um protestante obstinado”  (clique no título para ler). A essas alturas a maior parte das pessoas diria que o Rubem não era mais nem protestante nem cristão.

Acho curiosa essa fixação no termo “Protestante” mesmo por parte de pessoas que, aparentemente, não teriam mais nenhuma boa razão, além das afetivas, e estas nem sempre eram boas, para continuar aderindo ao termo.

Bartley nasceu em 1934 e Rubem em 1933 – ambos cerca de nove ou dez anos antes de mim. O primeiro morreu em 1990 (com 55 anos) e o segundo, em 2014 (com quase 80 anos). A convivência com ambos foi muito importante em meu desenvolvimento intelectual. Ambos me ajudaram a limpar a minha mente de um monte de tralha que só atrapalhava.

EC

20161227: Strasbourg, Martin Bucer e o Protestantismo

Encontramos hoje aqui em Strasbourg uma Igreja Metodista. Eis a  foto:

igreja-metodista-de-strasbourg

É um prédio discreto, quase humilde, sem adornos, torres, sinos, portas de maneira de muitos metros de altura, janelas com vitrais impressionantes, sem feição de igreja, que, pode parecer, fica até humilhada diante das enorme catedrais e matrizes góticas adornadas ao exagero que a gente encontra pela cidade — das quais a Cathedrale de Notre  Dame de Strasbourg é de longe a mais impressionante. Ou veja-se:

cathedrale-de-notre-dame-de-strasbourg

Martin Bucer (ou Butzer) foi o responsável pela introdução de ideias e ideais de reforma na cidade e na região — em toda a Alsácia. Nascido em 11 de novembro de 1491, em Sélestat, e morto em 28 de fevereiro de 1551, em Cambridge, na Inglaterra, perto de completar 60 anos, Bucer foi uma das pessoas de proa da Reforma Protestante. Ele implantou em 1523 o trabalho reformado em Strasbourg e o conduziu por vinte e seis anos, até 1549. Dos reformadores, talvez tenha sido o mais cordato, tentando facilitar o diálogo entre Martinho Lutero (que ele admirava, mas que era, de certo modo, teimoso como uma porta, e meio estourado e estovado) e Ulrico Zwinglio, de Zürich (que era pelejador e guerreiro, tanto que morreu moço, em batalha contra os católicos.

João Calvino estava indo para Strasbourg em 1536, para encontrar Bucer, quando foi literalmente intimado por Guilherme Farel (1489-1565), responsável pela “protestantização” dos cantões de língua francesa da Suíça, com sede em Genebra, a ficar nesta cidade e assumir o controle da igreja protestante ali, não totalmente implantada, e, de certo modo, da própria cidade, modificando suas ideias e crenças e colocando no eixo, ou moralizando, sua conduta. Isso em 1536, como disse. Calvino era meio medroso. Quando Farel lhe sugeriu o que é que Deus faz com aqueles que querem fugir da missão que Deus reservou para eles, Calvino decidiu ficar. Entusiasmado com a aquisição, Farel e Calvino talvez tenham ido com muita sede ao pote e acabaram expulsos da cidade em 1538, sob pressão da população, que até estava disposta a aceitar as novas doutrinas, mas não a mudar o seu comportamento na linha imposta por Calvino. Para onde foram Farel e Calvino? Para Strasbourg, onde Calvino finalmente encontrou Bucer e trabalhou com ele, ganhando uma experiência muito necessária e que lhe valeu para o resto da vida — tanto como pastor como teólogo. Calvino não era nem nunca foi ordenado pastor, e nunca estudou teologia formalmente na universidade. Ele era advogado / jurista por formação, seguindo a vontade de seu pai e, por um tempo, até que o pai morreu, deixando de lado seus verdadeiros interesses, que eram teológicos. Assim, Bucer, além do trabalho feito em Strasbourg e na região, foi também o importante mentor de Calvino, permitindo que este, ao voltar para Genebra em 1541, pudesse ocupar suas funções com convicção e firmeza e levar adiante as ideias e os ideais da fé reformada. A essas alturas, a reforma luterana já tinha cerca de vinte anos. Genebra tinha um atraso de vinte anos em relação a Lutero, mas trabalhou rápido e duro para alcançar o colega e ultrapassa-lo em termos de influência global.

E hoje eu, mais uma vez, estou aqui, onde meu amigo e irmão Aharon Sapsezian trabalhou por muito tempo, antes de, como Calvino, acabar por se firmar em Genebra. Algumas de minhas lembranças mais agradáveis das inúmeras viagens que fiz a Genebra durante os anos 1987 a 1995, têm que ver com ele, não com o trabalho que eu prestava junto à area de Information Systems Support (ISS), dirigida pelo sudanês Salah H. Mandil. Ele, o Aharon, era apaixonado por Genebra, e me deixou apaixonado também. Somente vim a conhecer Strasbourg em 2006, voltando agora em 2016, dez anos depois. Mas sinto que Genebra e Strasbourg são – como direi? – minhas cidades natais na Europa (da mesma forma que Pittsburgh (PA) e Claremont (CA) o são nos Estados Unidos – com o mesmo grau de diferença entre a primeira e a segunda, em ambos os casos.

Mas comecei falando da Igreja Metodista que encontramos aqui. O Metodismo (para aqueles que não têm muita familiaridade com a História da Igreja) só surgiu no século 18, na Inglaterra, primeiro, e nos Estados Unidos, logo em seguida, através de João Wesley. Mas conseguiu alcançar, e, em alguns casos ultrapassar, as igrejas protestantes ditas históricas: a luterana, a calvinista (também chamada de reformada ou presbiteriana), e a anglicana (também conhecida como episcopal).

É isso, por enquanto. Preciso dormir agora.

Em Strasbourg, 27 de Dezembro de 2016

20161227: O Primeiro Dia em Strasbourg

Voltamos para o quarto mais ou menos às 19h. Ficamos na rua umas cinco horas e meia. Quando saímos as mulheres estavam morrendo de fome. Custamos achar um restaurante adequado aos gostos e vontades de cada um e aos parâmetros de gastos diários com alimentação (um dia por outro) que fixamos. Em Bruxelles temos um studio, que tem fogão, geladeira, etc. Quase sempre fazemos uma refeição (além do café da manhã) no quarto. Finalmente achamos um restaurante muito movimentado de comida alsaciana. Embora o jeito do restaurante não indicasse que a comida seria boa, o número de pessoas lá almoçando parecia indicativo disso. Ao final das contas gostamos todos da comida pedida por nós. Ficamos “satischeios” como dizia alguém de meu conhecimento…

Depois rodamos um bocado pela Petite France. Infelizmente o Christmas Market terminou na Véspera de Natal. Havíamos lido que o mercado na cidade iria até a Véspera do Ano Novo. Perguntei a uma das pessoas desmanchando sua barraca (elas são de madeira, muito bem feitas), e ele me disse que este ano foi o segundo em que o mercado terminou no dia 24/12. O site em que lemos que a data de término era 31/12 deveria não ter atualizado sua informação.

O ponto alto do dia foi a visita à Cathedrale de Notre Dame de Strasbourg, um World Heritage Monument da UNESCO. Entre a fila para entrar e a visita, propriamente dita, ficamos cerca de uma hora lá. Magnífica. Mais imponente do que a de Paris, por dentro e por fora.

Eu tenho uma certa fixação pelos World Heritages Monuments / Centers da UNESCO. Eis uma lista não totalmente atualizada dos que eu já tive o privilégio de visitar:

UNESCO World Heritage Centers que eu já visitei, por país:

[x]  Argentina, Iguazu National Park
[x]  Austria, Historic Centre of Salzburg
[x]  Austria, Historic Centre of Vienna
[x]  Austria, Palace and Gardens of Schönbrunn
[x]  Austria, Wachau Cultural Landscape
[x]  Belgium, La Grand-Place of Bruxelles
[x]  Belgium, Historic Centre of Bruges
[x]  Brazil, Atlantic Forest South-East Reserves
[x]  Brazil, Brasilia
[x]  Brazil, Historic Centre of Salvador de Bahia
[x]  Brazil, Historic Centre of São Luís
[x]  Brazil, Historic Town of Ouro Preto
[x]  Brazil, Iguaçu National Park
[x]  Brazil, Pantanal Conservation Area
[x]  Brazil, Rio de Janeiro: Carioca Landscapes Between the Mountain and the Sea
[x]  Canada, Historic District of Québec
[x]  Chile, Historic Quarter of the Seaport City of Valparaíso
[x]  China, Historic Centre of Macao
[x]  China, Imperial Palaces of the Ming and Qing Dynasties in Beijing and Shenyang
[x]  China, Imperial Tombs of the Ming and Qing Dynasties
[x]  China, The Great Wall
[x]  Cuba, Old Havana and its Fortifications
[x]  Czech Republic, Historic Centre of Český Krumlov
[x]  Czech Republic, Historic Centre of Prague
[x]  Ecuador, City of Quito
[x]  Finland, Suomenlinna, Viapori-Sveaborg in Helsinki
[x]  France, Palace and Park of Versailles
[x]  France, Historic Centre of Avignon
[x]  France, Paris, Banks of the Seine
[x]  France, Strasbourg Grande île
[x]  France, Cathedrale de Notre Dame de Strasbourg
[x]  France, Amiens Cathedral
[x]  France, Amiens Cathedral of Notre Dame
[x]  Germany, Aachen Cathedral
[x]  Germany, Köln Cathedral
[x]  Guatemala, Antígua Guatemala
[x]  Greece, Acropolis
[x]  Hungary, Budapest (with Banks of the Danube & the Buda Castle Quarter)
[x]  Israel, Masada
[x]  Israel, Old City of Jerusalem and its Walls
[x]  Italy, Assisi, the Basilica of San Francesco and Other Franciscan Sites
[x]  Italy, Historic Centre of Rome
[x]  Italy, Historic Centre of Florence
[x]  Italy, Venice and its Lagoon
[x]  Portugal, Cultural Landscape of Sintra
[x]  Portugal, Historic Centre of Évora
[x]  Portugal, Historic Centre of Guimarães
[x]  Portugal, Historic Centre of Oporto
[x]  Portugal, Monastery of Alcobaça
[x]  Portugal, Monastery of Batalha
[x]  Portugal, Monastery of the Hieronymites and Tower of Belém in Lisbon
[x]  Switzerland, The Alpes – Jungfrau
[x]  Turkey, Historic Areas of Istanbul
[x]  United States, Independence Hall
[x]  United States, La Fortaleza and San Juan Historic Site in Puerto Rico
[x]  United States, Monticello and the University of Virginia in Charlottesville
[x]  United States, Statue of Liberty
[x]  United States, Redwood State Park
[x]  Uruguay, Historic Quarters of the Colonia del Sacramento
[x]  Vatican, Properties of the Holy See in the Historic Centre of Rome
[x]  Vatican, Vatican City
[x]  Vietnam, Ha Long Bay

Tirei várias fotos aqui em Strasbourg, mas creio que só conseguirei carrega-las no Facebook amanhã. Agora a Paloma está carregando as fotos da câmera dela, que foram tiradas, a maioria, pela Priscila. A Internet é melhor aqui em Strasbourg do que em Bruxelles, mas não aguentaria, sem degradação da velocidade, dois computadores fazendo upload de dezenas de foto ao mesmo tempo pelo mesmo roteador.

Amanhã, mais de Strasbourg. Voltaremos para “nossa casa” (our home away from home), na Bélgica,  à tardinha, chegando em Bruxelles lá pelas 21-22h.

Em Strasbourg, 27 de Dezembro de 2016

20161227: O Quinto Dia de Viagem (Ida para Strasbourg)

Hoje, Terça-feira, dia 27/12/2016, estamos de viagem para Strasbourg. Pegamos o trem em Bruxelles, às 7h55, para Luxembourg — um pinga-fogo que parou em nove estações (Ottignies, Gembloux, Namur, Ciney, Marloie, Jemelle, Libramont, Marbehan, Arlon – todas na Bélgica). Agora estamos esperando o TGV partir de Luxembourg para Strabourg. Vai sair às 11h24 e chegar às 12h45 (com parada em Thionville e Metz – ambas na França). É outro nível o TGV (que, para quem não sabe, é Train à Grande Vitesse – Trem de Grande Velocidade). Apesar de nosso Eurail Pass, para o TGV é preciso fazer reserva de assentos, que, neste caso, ficou em 6 EUR por pessoa. Tiramos uma foto (selfie, gentileza da Priscilla, que o tirou, e da Paloma, que emprestou o fone, que tem conexão com roaming), que vou colocar aqui oportunamente.

A viagem até Luxembourg foi tranquila. O trem estava virtualmente vazio. (O TGV também está relativamente vazio). Todos nós gostamos de trens – e de viajar em trens. Pena que no Brasil acabaram com a Companhia Paulista de Estrada de Ferro, criando as malditas FEPASA e Rede Ferroviária Nacional. Quem fez isso deveria ter sido linchado.

Hoje dormiremos em Strasbourg, voltando apenas amanhã à tardinha / noitinha. O nosso studio em Bruxelles foi mantido. Já expliquei isso. Alugando um studio para quatro pessoas por um mês saiu muito mais barato do que pagar dois quartos em cada hotel em diferentes cidades. Assim, a maior parte de nossas viagens é no estilo “bate-e-volta”, ida-e-volta no mesmo dia (como ontem, em Bruges) – exceto no caso de algumas mais distantes (como Strasbourg) e/ou no caso de cidades (também como Strasbourg) que queremos um pouco mais e melhor. Acho o Centro Histórico de Strasbourg magnífico.

Estamos chegando à primeira parada, Thionville. No monitor do trem indica-se a temperatura: 6 graus centígrados. O dia está limpo e ensolarado. Espero que em Strasbourg também esteja assim, para que possamos bater perna e ver o Christmas Market de lá. Antes de ele ser aberto, há uns 15 dias, foi anunciado pela Polícia Francesa que ela havia interrompido planos de promover um ataque terrorista no dia da abertura do mercado. Tanto em Bruxelles como em Bruges os Christmas Markets estiveram bem tranquilos. Em Bruxelles, na primeira noite que fomos, houve uma comoção, com trânsito interrompido, carros de polícia passando com sirenes no máximo e velocidade idem, etc. Mas não ouvimos ou lemos nada depois. É verdade que não temos comprado jornais nem visto televisão. Mas se tivesse havido algo sério, teríamos sido informados através da Internet. Espero que, aqui, a tranquilidade perdure.

Na primeira parte desta viagem (Bruxelles / Luxembourg) comecei a ler uma trilogia que comprei ontem em Bruges, escrita por Gérard Mordillat e Jérôme Prieur. O primeiro volume tem o título de Jésus Après Jésus: L’Origine du Christianisme (2004); o segundo, Jésus Contre Jésus (1999, 2008); e o terceiro, Jésus Sans Jésus: La Christianisation de l’Empire Romain (2008). Os dois autores aparentemente não são historiadores ou especialistas em teologia. São escritores genéricos e cineastas, que têm produzido sequências de documentários sobre Jesus e a Origem do Cristianismo. Estou lendo o primeiro volume. É muito interessante. A leitura faz lembrar a dos livros de Bart D. Ehrman. Eles não têm nenhuma consideração para com as crenças tradicionais do Cristianismo (a Ortodoxia).

Bom, vou parando por aqui. Quando chegar ao hotel em Strasbourg, procurarei postar este artigo. À noite escreverei outro, tudo dando certo.

No TGV, a caminho de Luxembourg para Strasbourg, em 27 de Dezembro de 2016

20161226: O Quarto Dia (Viagem a Bruges)

Segunda-feira, dia 26/12/2016, tiramos o dia para ir conhecer Bruges (que é como o nome da cidade se escreve em Francês: escreve-se Brugge em Flamengo). Saímos cedo para aproveitar o dia: antes das 8h. Por volta das 9h estávamos lá. Dia fechado, com ameaço de chuvisco. Mas, aos poucos, o Sol apareceu, e o dia se tornou magnífico do ponto de vista do clima. Tirei cerca de 275 fotos, que estou tentando transferir para o Facebook. Desta vez a Paloma também levou a câmera dela — e já vi que postou várias fotos no Facebook.

Bruges é uma beleza de cidade, cercada e cruzada de canais, razão pela qual é chamado de Veneza do Norte (como algumas outras cidades que têm canais também o são, como, por exemplo, Amsterdam). Mas tem muito menos canais do que Veneza e não dá aquela impressão meio bagunçada que cidades italianas normalmente dão, Veneza inclusive — e como todo respeito aos italianos. A arquitetura antiga da parte histórica da cidade é fantástica e muito bem conservada. O comércio é sofisticado, com lojas chiques e de aparência extremamente sofistcada — mas também com lojinhas mais acessíveis.

Rodamos bastante, mas eu, hoje, fiquei meio cansado. A Paloma e as meninas foram visitar o Museu da Batata Frita, e a Bianca, sozinha, o Museu do Chocolate — mas eu passei ambos para ficar na Fnac, tentando ler, mas meio cochilando ao mesmo tempo, dois livros que me pareceram interessantes na área de filosofia, ambos de Anthony Gottlieb: The Dream of Reason: A History of Western Philosophy from the Greeks to the Renaissance e The Dream of Enlightenment: The Rise of Modern Philosophy. Daquilo que li, gostei muito. Li o capítulo sobre David Hume, no segundo livro. Interpretação muito boa de David Hume (o filósofo sobre o qual escrevi minha tese de doutoramento, de 1970 a 1972), um autor sobre cuja interpretação geralmente há muita disputa. Uns o consideram o arqui-herege do século 18, pior que Voltaire e Diderot, outros o consideram um cristão reformado de convicções razoavelmente ortodoxas. Fui acordado pela Paloma numa das cochiladas que dei depois de terminar a leitura do capítulo acerca de Hume.

Mais para a tarde a cidade ficou lotada de gente, sendo difícil até andar nas ruas — até porque na maioria das ruas estreitas e calçadas com paralelepípedos continuavam a travegar automóveis e SUVs de bom tamanho.

No fim da tarde tomamos sopa com panini num restaurantinho em que uma mulher fazia tudo. Ela cuidava da cozinha (i.e., das sopas), do caixa, do atendimento dos clients, da preparação dos pedidos, da entrega dos pedidos na mesa, etc. Uma “superwoman” ou “wonderwoman“. Acho que no Brasil um restaurantinho daquele teria no mínimo uns quatro empregados: aqui (ali), só ela.

Hoje validamos nossos Eurail Passes. Isso quer dizer que, a partir de hoje, temos 22 dias para viajar no sistema ferroviário europeu.

Amanhã vamos a Strasbourg, que não é tão perto daqui como parece, por causa da disposição da malha ferroviária e dos horários dos trens. Iremos daqui até Luxembourg, com nada menos de nove paradas, e de lá para Strasbourg no TGV, em viagem de cerca de uma hora e meia.

Em Bruxelles, 25 de Dezembro de 2016

20161225: O Terceiro Dia (O Dia de Natal)

Hoje, o Dia do Natal, propriamente dito, será meio complicado achar programa que interesse a todos. Está quase tudo fechado. Levantamo-nos perto das 11h. Na verdade, houve variações. Eu acordei às 3h30, mexi no Facebook e na contabilidade por três horas, voltei a dormir, acordei de novo às 9h30 e estou acordado até agora. As femininas se levantaram às 11h — embora algumas tenham acordado antes (8h, por exemplo), mas caído no sono de novo, em seguida.

A Bianca, nossa encarregada de programas de visitas a atrações turísticas especiais, constatou que, como disse nossa amiga Daisy  Grisolia em comentário no Facebook, aqui o pessoal tem profundo respeito por horários. Hoje, além de  domingo, é feriado. Logo, tudo fecha. O comércio fecha na hora, o “Open 24 Hours” é algo praticamente inexistente, e tipo 20h é hora em que todo mundo normalmente está em casa (como constatamos ontem à noite, em que até as barraquinhas do Christmas Market, que ainda tinham um excelente número de fregueses, fecharam suas portas às 19h, no más, no menos).

Assim, estamos meio perdidos sobre o que fazer hoje. Eu gosto de andar a esmo, apenas com um mapa na mão para a eventualidade de me perder. As moças aparentemente não decidiram ainda — ou, se decidiram, não se dignaram a me informar.

A propósito, descobrimos nas lojas de lembrancinhas turísticas ontem, que um símbolo onipresente da cidade de Bruxelles é uma representação, na forma de escultura, de um bonequinho fazendo xixi. Segundo o pudico Google,  em sua chamada, citando o Ataur’s Guidebook, trata-se de “iconic 17th-century fountain with a bronze statue of small boy, dressed in costume during festivals” (https://www.airbnb.com/things-to-do/rooms/1415158). Nenhuma referência à mijação do dito cujo…

O site da “City of Brussels (BXL)” faz referência ao fato de que o menino  mal-comportado “remains the emblem of the rebellious spirit of the City of Brussels” (http://www.brussels.be/artdet.cfm/4328). Mas nada sobre como “o espírito de rebelião” se apresentava. A Wikipedia informa, de maneira mais realística, que “Manneken Pis is a landmark small bronze sculpture (61 cm) in Brussels, depicting a naked little boy urinating into a fountain’s basin” (https://en.wikipedia.org/wiki/Manneken_Pis). Esclareço que a medida fornecida é a do bonequinho inteiro.

Um vídeo gozadinho no Youtube (chamado “24 Hours in Brussels”) mostra rapidamente a escultura: https://www.youtube.com/watch?v=DGVxPAZQEBY.

Essa história me fez lembrar de um boneco que havia no Brasil, como brinquedo (da Estrela), quando minhas irmãs eram pequenas: o Manequinho. Ele tomava uma mamadeira de água e, depois, fazia xixi quando as costas dele eram apertadas. Será que foi inspirado no Manneken? Vide https://www.youtube.com/watch?v=A2oXZlZ7fkw.

É isso, por enquanto.

o O o

Bom, são 18h30, acabamos de chegar do passeio ao centro da Cidade Velha novamente. Ficamos, ao todo, umas quatro horas fora. O dia está chuvoso, mas não caiu chuva, propriamente dita, só um chuvisquinho que incomoda mas não chega realmente a molhar.

Chegando no centro, fomos ver o famoso Manneken-Pis. Havia muita gente lá, tirando fotos, inclusive selfies. Mas foi uma decepção. Depois coloco algumas fotos no Facebook para vocês constatarem por si próprios.

Passamos, em seguida, numa livraria que vendia também livros usados. Grande. Meio livraria, meio sebo. Vende cartões postais antigos, revistas de bande dessinée, etc. Comprei um livro sobre história da Bélgica, com o título Nouvelle Histoire Politique de la Belgique, de Xavier Mabille (CRiSP, Bruxelles, 2011, 457p.). Paguei 9,50 EUR. A Bianca também comprou um livrinho (romance), sobre uma moça chamada Rahia, com o título de Libérer Rahia, autoria de Yaën Hassan.

Depois rodamos bastante, tomamos chocolate quente, vinho quente, e egg nog. Mais tarde comemos numa barraca dessas típicas de algumas capitais europeias, em especial no Leste Europeu, dois sanduíches de carne de vaca ou “steak” (um para cada uma, Paloma e Bianca) e um de “saucisse piquant” ou linguiça picante (Eduardo). Estava muito bom. O meu era tão grande que não consegui comer inteiro.

Depois de comer passamos no bendito Carrefour Express pelo terceiro dia em seguida e voltamos para o hotel.

Hoje vamos dormir mais cedo. Amanhã vamos passear em Bruges, conhecida com a Veneza da Bélgica. Voltaremos à noitinha. Com baldeação e tudo, a viagem leva 1h30, por aí, de trem.

Em Bruxelles, 25 de Dezembro de 2016

20161224: A Nossa Ceia do Natal

Confesso que fico até meio constrangido para falar no assunto, porque nossa ceia, na saletinha do studio que ocupamos no hotel aqui em Bruxelles foi de uma simplicidade e pobreza franciscanas. Poderia dizer, meio demagogicamente, que foi tão simples quanto o cenário descrito pelos evangelistas (também meio demagogicamente) para o nascimento de Jesus. Estávamos todos nós já de roupas de dormir (nada de pijamas e camisolas por aqui: shorts, moletons, camisetas são o traje de rigor para dormir). A comida teve sopa, queijos, salame, presunto, pão (inigualável), suco, refrigerante, vinho, e, de sobremesa, chocolate e o resto dos docinhos gostosos (mas diferentes) que compramos numa barraca que encontramos no Christmas Market (compramos meio quilo por 10 Euros, mas valeu). Por sinal, o cara que vendia falava um pouco de Português. Parece que todo o pessoal do comércio por aqui fala um pouco de Português. O mínimo indispensável para cativar o freguês, mas fala. De qualquer modo, foi uma celebração natalina a nossa ceia — meio ao estilo de “para não dizer que não falei de ceias”, se o Geraldo Vandré me permite o jogo com o título da linda e tristemente famosa música dele, que sempre me faz lembrar de “Where Have All the Flowers Gone”…

Depois da ceia fizemos a revelação de nosso amigo secreto. Brincadeira de amigo secreto só de quatro é meio limitada, mas vamos lá. Era só pra comprar uma lembrancinha, nesses tempos de crise e com preços europeus, mas a Paloma, primeiro, mãezona, exagerou um pouco, e a Bianca, meio que seguiu no caminho… Enfim: a Paloma tirou a Bianca, e lhe deu uma blusa de moleton (muito bonita) com motivo belga; a Bianca me tirou e me deu uma caixa de chocolates (deliciosos); eu tirei a Priscilla e lhe dei um ursinho de pelúcia com camiseta (doce como ela, em seus melhores momentos); e a Priscilla tirou a Paloma e lhe deu um chaveiro em forma de P e um par de luvas que deixam as pontas dos dedos de fora para digitar no celular (ou que deixam os dedos de fora para dirigir melhor) — não sei direito qual a finalidade principal de um par de luvas no cobrir os dedos inteiros.

Enfim: c’était ça.

Antes de fechar, uma observação… Há quem não goste do “estilo revelatório” dos nossos blogs (os meus e os da Paloma). Uns afirmam que seria de mau gosto, quando não perigoso, revelar certos detalhes acerca de onde estamos, o que estamos fazendo, o que comemos, etc. Eu (falando por mim) acho que o mundo virtual é uma continuidade do mundo presencial — ambos são, hoje, parte do “mundo real”, propriamente dito. Os amigos da gente  gostam de saber (tanto quanto me é dado perceber) o que fazemos, e comemoram conosco, e deixam que comemoremos com eles, os bons momentos. Sem os blogs e o Facebook, seríamos quatro brasileiros perdidos numa noite escura (a partir de certa hora) aqui em Bruxelles ontem. Com a ajuda dessas ferramentas digitais que estendem e expandem o nosso mundinho, sentimos que os amigos estavam perto de nós e nós perto deles.

Enfim de novo: c’est ça, agora no presente, às 5h34 da manhã (estou acordado desde as 3h30).

Em Bruxelles, 25 de Dezembro de 2016 (entre 4 e 6 da manhã, mas relatando sobre o dia 24 ainda)

20161224: A Tarde, a Manhã e a Noite do Segundo Dia 

Acordei às 8h da manhã hoje, com o despertador da Bianca. Ela voltou a dormir. Eu tomei banho, fiz a barba (o que resta dela), tomei um yogurt, e saí para andar, por volta de 8h45. Estava ainda meio escuro — e não havia viva alma nas ruas exceto dentro de carros. Andei por cerca de 90 minutos e tirei várias fotos, que publiquei no Facebook. Não consegui carrega-las no blog. A Internet aqui no hotel está longe de ser das melhores. Mas quem estiver interessado em fotos pode vê-las no Facebook.

Quando voltei, por volta das 10h30, as mulheres estavam ainda todas dormindo. Foi quando desci para o lobby do hotel e carreguei as fotos relativas a esse período da manhã — mais de 200, pois ainda mantenho a mania de tirar pelo menos duas fotos de cada cena, caso uma não fique boa. Acabo, na hora de publicar, não tendo paciência para selecionar, cena por cena, qual das fotos fico melhor — assim carrego as duas.

Depois de acordadas as meninas, tomamos café da manhã e saímos para o centro velho da cidade — ao redor do chamado Grand-Platz. Ficamos lá até cerca de 19h, quando rumamos de volta para o hotel, com mais de 200 fotos tiradas, novamente. A Internet continua ruim, de modo que estou carregando as fotos mais uma vez no Facebook. O blog ficará sem elas por enquanto. Já reclamei para o hotel, mas disseram apenas que vão ver o que podem fazer amanhã. Dia de Natal?

Na cidade velha almoçamos num restaurante desses que oferecem várias modalidades de pratos (entrada, prato principal, etc.) por um preço fixo razoável. A comida estava muito boa. Depois fomos para o Grand-Platz ver o “Christmas Market” de lá. Ali comemos uns docinhos, a Paloma comprou uma bota forrada daquelas feitas no Kurdistão ou perto, e cada um comprou uma bobagenzinha para dar de presente para seu amigo secreto, que revelaremos depois de “cear” aqui no quarto… Comprei um vinho num Carrefour Express, compramos mais umas coisinhas, e celebraremos o Natal mais perto da meia-noite aqui (são 21h10 agora). Daí revelaremos nossos amigos secretos.

O Christmas Market do Grand-Platz foi muito parecido com um que vimos (já na véspera do Ano Novo) na Wenceslas Square / Old Town Square de Praga em 2012, quando passamos o réveillon lá com nossos amigos Silvia Klis e Edson Saggiorato. Aliás as duas praças se parecem muito — e o “Mercado” também. O Christmas Market que vimos ontem aqui em Bruxelles se parece bastante também (pelo que vi deste na TV) com o de Berlin, covardemente atacado por terroristas recentemente. Felizmente, ontem, o clima estava bastante tranquilo. Só uma vez vimos policiais no estilo dos melhores “carabinieri” italianos… Mas a árvore de Natal daqui foi muito mais bonita do que a que vimos em Praga, e o show de luzes, ao ritmo de música, nos edifícios da praça daqui me pareceu imbatível.

Uma coisa que vimos foi uma barraca, capitaneada por um belga que fala um português bastante decente, vestido com cocar e colar de penas de pássaros brasileiros, vendendo suco de açaí — aparentemente colhidos pelos índios do Acre. Pelo discurso me pareceu um desses ongueiros que criam uma entidade que, supostamente para ajudar os índios brasileiros a se tornarem empreendedores, criam um bom “empreendimento social” (ou supostamente social) para si próprios. Mas o papo do cara, que é bastante simpático, dá a impressão de que ali temos um exemplo da Nova Europa cuidando do mundo — diferentemente da Velha Europa que o explorava imperialisticamente. Hoje a Europa está meio falida e não faz tanta propaganda dos projetos sociais bolados pela Comissão Europeia para o Terceiro Mundo como o fazia há uns 10-12 anos, mas alguns deles, originados na iniciativa privada (mas apoiados pela Comissão Europeia, sobrevivem. Como sempre, há um sócio brasileiro na jogada, daqueles que encontram um índio articulado, disposto a aprender inglês macarrônico, que é trazido para a Europa para acalmar a consciência social de europeus ricos que não sabem o que fazer com o dinheiro que têm (ou não sabiam o que fazer com o dinheiro que tinham). O sócio brasileiro desse projeto é de Sorocaba. Estou velho demais para acreditar no blá-blá-blá dessa macacada da esquerda caviar tão bem descrita por Rodrigo Constantino…

Esqueci-me de dizer que tenho um uniforme de passeio para usar no Inverno aqui na Europa ou nos Estados Unidos. Uso uma camisa de jeans que tem dois bolsos com flap, uma calça típica do mercado americano, que tem seis bolsos (quatro com flaps), de uma tarja grossa cinza amarronzada e um agasalho do mesmo material que tem nada menos do que quatorze bolsos: quatro com flaps, dois externos (sem flaps) dois com zippers (internos), e oito sem flaps (internos). Ao todo, carrego em meu uniforme nada menos do que 22 bolsos. Uma beleza. É verdade que resolve um problema (escassez de local para guardar as coisas), mas cria outro: lembrar onde foi que pus as diversas coisas. . .

Espero que gostem das fotos publicadas no Facebook (por enquanto, só ali), em especial do festival de luzes.

E tenham uma boa noite (véspera) de Natal. Ao todo, fiquei de pé, hoje, a maior parte do tempo andando (ainda bem que devagar, no estilo de quem passei em shopping center), mais de oito horas.

Em Bruxelles, 24 de Dezembro de 2016 (entre 21 e 22h).

20161223: A Tarde e a Noite do Primeiro Dia 

A antevéspera do Natal vai chegando ao fim. Foi um dia estranho. Chegamos a Bruxelles por volta de 9h20 da manhã. Imaginava que teríamos de ficar zanzando por um tempo, com as malas guardadas no hotel, até podermos ocupar o quarto, por volta das 14 ou 15h. Mas, primeiro, o caminho que percorremos do avião até a “Baggage Claim” foi enorme. Não bastasse isso, as malas demoraram um século para chegar. Quando chegaram, indaguei no Setor de Informação, como faria para chegar até ao hotel. O rapaz, gentil e simpático, disse que deveria tomar o ômibus x, ir até  o local y, trocar de ônibus… Disse a ele que precisava de algo mais simples, porque carregávamos uma mala grande por pessoa, uma mala pequena (carry on) por pessoa (menos no caso da Bianca), e uma mochila ou bolsa por pessoa (incluindo a Bi). Perguntei se não haveria um trem que fosse direto do aeroporto ao centro da cidade. Felizmente, havia. Parece que foi instituído há pouco tempo. Indicou que deveríamos descer dois níveis em relação ao local em que estávamos. Fomos até lá. Abandonamos os carrinhos antes de entrar na área de compra de bilhetes e acesso às plataformas. Depois de algumas informações desencontradas, descobrimos que havia, sim, um trem que fazia o percurso do aeroporto direto à Luxembourg Square, da qual seria possível ir a pé até o hotel. O percurso, de trem, levaria cerca de 20 minutos. Compramos os bilhetes — 10,50 EUR por pessoa (quase quarenta reais por pessoa). O trem estava vazio, fomos, descemos no lugar certo e, em seguida, enfrentamos o maior desafio: andar com malas de rodinhas em calçadas feitas com algo parecido com paralelepípedo. A mala da Priscilla logo ficou com uma das rodinhas bastante detonada, criando grande dificuldade para a coitada.

Mas chegamos ao hotel. O quarto era o que imaginávamos, porque já havíamos visto um vídeo… Tem uma cama de casal e uma bicama que, segundo consta, se transforma em outra cama de casal. Até agora as meninas não conseguiram fazer a cama de baixo “se levantar” para ficar à altura da outra…

No quarto, depois de abrir mala, dividir armários e gavetas relativamente escassos pelos novos habitantes do quarto, decidir quem manda em quais tomadas, etc., cada um dormiu um pouco, porque todos nós dormimos muito mal no vôo turbulente de São Paulo a Zürich.

Depois das longas cochiladas, a Paloma e a Priscilla foram fazer compras num Carrefour Express e a Bianca e eu ficamos descansando. As duas trouxeram um monte de comidas sadias (pão, frios, queijos, salgadinhos, miojo, sopas em envelope, cerveja, coca, sprite, leite, etc.). Comemos bem. Depois de comer, mais uma rodada de soneca — esta sim, bastante longa. Acordamos já perto das 21h. Mais uma rodadinha de comidas sadias. Agora o pessoal despertou e está fazendo ginástica de alongamento no que resta de chão livre no quarto. Agora é a vez do “alongamento borboleta” — espero que Deus, que criou as borboletas, saiba o que é isso. Enquanto isso eu, aqui, no meu lado da cama, faço alongamentos espirituais (vale dizer, mentais, intelectuais), escrevendo estas besteiras... Alongements Spirituels on les appele. Agora, terminados os alongamentos, estamos cada um cuidando de sua vida (em termos: o grau de interferência na vida alheia que acontece numa família forçada a conviver em poucos metros quadrados é inversamente proporcional ao tamanho do espaço. Batizei esta lei de Lei de Chaves. Quem sabe um dia fica tão famosa como as de Murphy e Parkinson).

Amanhã acho que rodaremos a pé pela cidade. Gostaria de visitar, em primeiro lugar, o Erasmus: Conservatório Real de Bruxelas, cuja foto é fornecida nos próximos dias como capa de meu Facebook em https://www.facebook.com/eduardo.chaves.

Quase meia-noite. A Véspera do Natal está pertinho… Durmam bem, daqui a pouco. Nós estamos na frente três horas.

Em Bruxelles, 23 de Dezembro de 2016 (entre 22 e 23h45).

20161223: Detalhes da Segunda Perna da Viagem

Apesar do grande atraso na saída de São Paulo, nossos pilotos conseguiram chegar em Zürich com um atraso de apenas 20 minutos. E o aeroporto estava preparado para o atraso. A maior parte dos voos já aparecia nos monitores com um aviso de “Espera Técnica”: estavam prontos para partir, mas esperando passageiros de outros voos. Simplificaram os procedimentos de alfândega, tudo correu direito, e chegamos ao Portão de Embarque do voo para Bruxelles o embarque não havia ainda começado. Tivemos de despachar duas bagagens de mão (a da Paloma e a minha) porque o avião era menor e estava cheio.

Por falar em avião, trata-se, agora, de um Airbus 320-200, com alcance de apenas 3.650 km e peso máximo ao decolar de 73.500 kg. Sua velocidade máxima é de 850 km/h. Depois da queda do avião da Lamia, resolvi ficar alerta a esses detalhes técnicos… O voo de Zürich a Bruxelles (onde a temperatura está 4 graus centígrados) é de 1h25m.

Ainda não sabemos exatamente como vamos do aeroporto de Bruxelles para o centro da cidade e, de lá, para o hotel. Temos várias opções que estudaremos depois que estivermos no chão, com todas as nossas bagagens. O checkin no hotel só começa às 14h. Provavelmente deixaremos as bagagens guardadas lá e daremos um primeiro passeio a pé nas redondezas, aproveitando para tomar uma primeira refeição em solo belga.

A propósito, o café da manhã da Swiss foi simples mas salutar — e bem servido. A tripulação era extremamente gentil, sempre sorridente. Havia um comissário de bordo que falava português (meio espanholado, mas demos a ele crédito pelo esforço: não somos nós que vamos criticar o Portunhol). Aqui neste voo aparentemente vão servir alguma besteirinha para distrair o estômago da gente.

Vou tentar dizer o que vou dizer sem ser ou mesmo parecer preconceituoso. O voo de Zürich para Bruxelles, que acomoda cerca de 160 pessoas, tem uma composição étnica e de cor mais ou menos compatível com a da Europa de hoje: cerca de metade dos passageiros é, no tocante à cor, o que, no Brasil, seria classificado como pardo ou preto. Muitas crianças nessa categoria, várias com acompanhantes brancos. Espero que a mera constatação e o simples relato do fato sejam recebidos como devem: de forma não ideológica. Se eu dissesse que fato é fato, seria isso também um fato — um metafato, ou um fatos sobre fatos?

Vou me arriscar a continuar no assunto. Lembro-me ter escrito em meu blog, em algum momento (ele teve início em Dezembro de 2004) que nos Estados Unidos as pessoas são consideradas pretas (black) se têm alguém preto entre seus antepassados ou ascendentes. Pode ser 1/32 ou 1/64 deles. No Brasil, a coisa parecia ser invertida, no momento em que escrevi. Algum antepassado ou ascendente branco, ainda que remoto, parece clarear a cor da pela por definição e tornar a pessoa branca. Lembro-me de uma entrevista do Ronaldo (não o Dinho) em que ele disse que não era preto, não, que era branco — provocando o protesto dos movimentos negros organizados. A situação parece ter se alterado significativamente. O sistema de cotas levou muita gente a se declarar (pelo menos oficialmente) de cor parda ou preta para poder fazer jus ao benefício.

O capitão já avisou que vamos aterrissar em menos de vinte minutos. Até depois, então.

No Ar, 23 de Dezembro de 2016 (entre Zürich e Bruxelles, cerca de 9h da manhã).

 

20161222: Detalhes da Primeira Perna da Viagem

No momento, são 18h25, hora do Brasil — 21h25, hora de Zürich / Bruxelles. Saímos de São Paulo com quase uma hora de atraso. Era para saírmos às 15h30, hora local, mas saímos cerca de 16h25. Aparentemente o tempo mudou em Guarulhos — a temperatura subiu três graus, os ventos ficaram mais fortes e mudaram de direção, exatamente quando estávamos na fila de take off. O piloto nos informou que, como o avião estava no limite do peso, foi determinado que ficássemos cerca de dez minutos na pista secundária, literalmente queimando querosene para o avião ficar mais leve. Depois dos 10 minutos — o take off já estava atrasado a essa altura — levantamos vôo e aqui estamos. Fiquei muito cismado com essa história de estarmos no limite do peso e fui verificar na revista de bordo as características do nosso avião, um Airbus A-340-300. O peso máximo do avião durante take off é de 275.000 kg. Com carga plena ele tem autonomia de vôo de 10.500 km, viajando, quando em cruzeiro, na velocidade máxima de 900 km/h. Espero que todo mundo, no avião e em terra, tenha feito seu serviço certinho…

Agora já tomamos drinks e jantamos. Todos os quatro optamos por carne de vaca com batata em cubos e espinafre. O tempero estava muito bom e a comida caiu muito bem no estômago.

Antes de embarcar, ficamos cerca de 90 minutos na Lounge da Star Alliance no Terminal 3 de Guarulhos. Muito boa, bebidas e comidas variadas e gostosas, ambientes de lazer e descanso confortáveis, etc.

Saímos de casa por volta de 10h40 da manhã, num pobre Uber que mal conseguiu armazenar quatro passageiros, quatro malas grandes, três malas pequenas e algumas mochilas, bolsas, etc. Levamos cerca de uma hora e meia até Guarulhos, andando devagar, porque o carro estava realmente pesado. Felizmente o trânsito estava razoável para a hora — embora o motorista tenha observado que São Paulo já (como se fosse) mudou seus relógios umas duras horas para frente. A população já está em férias. Os engarrafamentos que aconteciam às 7 agora acontecem às 9h, os das 9 acontecem às 11h, etc. Mas chegamos lá direitinho. O checkin já estava aberto, fomos atendidos muito bem pelo pessoal da Swiss, passamos pela Polícia Federal e pela Imigração (seria Emigração?) e fomos para a Lounge da Star Alliance.

A Paloma e as meninas parecem estar muito felizes. Eu sempre acabo sendo o mais chato do grupo, pelo menos até estarmos devidamente processados pela Polícia Federal e pela Imigração. Sou estressado por natureza em viagens. Tenho medo de que algum imprevisto aconteça e a gente perca o voo, coisas assim. Acabo, mineiramente, chegando ao aeroporto bem antes da hora necessária. Mas, cumpridas as exigências legais, fico mais relaxed e de bom humor, com estou agora.

O avião é decente, digamos assim. Paguei um “pedágio” por assento da ordem de 35 dólares por passageiro para termos um assento mais largo e espaçoso no início da chamada classe Econômica (aquele segmento de assentos que a United denomina de Economy Plus). Mesmo assim, os assentos são bem apertados. Imagino como estão os passageiros que não se dispuseram a desembolsar R$ 95,00 por assento por uns poucos centímetros adicionais de espaço…

Já fomos informados que o aeroporto de Zürich esta devidamente informado do atraso do nosso voo e tentando acertar as conexões dos passageiros. Tínhamos apenas cerca de 70 minutos de conexão lá, de modo que, provavelmente, já perdemos o vôo originalmente reservado para Bruxelles. Mas agora não me estresso. Viemos para Zürich pela Swiss e iremos para Bruxelles pela Swiss, de modo que a responsabilidade de nos entregarem em Bruxelles com as nossas malas é deles — e suíço não é gente de tirar o corpo fora de suas responsabilidades.

Apesar de ser quase 19h, no horário do Brasil, já são quase 22h em Zürich. Para nós não é hora de dormir (ontem, por exemplo, quer dizer, hoje, fui dormir depois das 4 da manhã em São Paulo… Fiquei mexendo neste meu blog “Diário de Bordo”, o tempo passou e o sono foi embora. Hoje cedo acordei-me por volta das 7h30 — morrendo de sono. Mas tomei um banho e o sono novamente foi embora.

Vou tentar ver pela enésima vez o filme The Way We Were, com Barbara Streisand e Robert Redford. O filme retrata os tempos em que cheguei aos Estados Unidos (1967-1968) e recebi o meu choque da América… [Na verdade, o filme retrata um segmento temporal mais longo… Mas como foi feito, e eu o vi pela primeira vez, em 1967-1968, foi esse recorte de tempo que ficou na minha memória.]

Se não escrever mais, posto este artiguinho mixuruco quando já estiver em Bruxelles, Deo volente — Deus assim querendo, como dizem os cristãos de fato e mesmo os que só absorvem uma tintura superficial da cultura cristã.

o O o

Volto para escrever mais um pouco. São 21h30, horário do Brasil, e, no horário de Zürich / Bruxelles, já é 0h30 do dia 23 de Dezembro, sexta-feira, antevéspera do Natal.

Estive pensando na questão do dia do Natal uns tempos atrás, quando escrevi o livrinho sobre a História do Cristianismo Primitivo. Não refleti sobre o Natal de uma forma inspiracional. Fiquei intrigado com uma série de coisas incômodas que os críticos históricos e literários (os representantes da chamada “Alta Crítica” – alta, porque a chamada “Baixa Crítica” é a crítica textual, a tentativa de encontrar o texto mais confiável dos diversos livros que hoje compõem a Bíblia dos cristãos.

A tradição cristã divide o tempo e a história em “Antes de Cristo” (aC) e “Depois de Cristo” (dC). Dentro dessa visão razoavelmente ingênua, estaremos comemorando, daqui a dois dias, o aniversário de número 2016 do nascimento de Jesus Cristo. Essa visão é razoavelmente ingênua por várias razões:

a) Se a tradição está correta, Jesus teria nascido no dia 1 do mês 1 do ano 0 (01/01/00) do calendário cristão. Um ano depois, em 01/01/01, teria completado um ano. O problema é que não houve um ano zero no calendário cristão. Houve o ano 1 aC e, em seguida, o ano 1 dC. Neste caso, Jesus teria completado um ano de idade no dia 01/01/02. Fica meio complicado.

b) A tradição colocou o dia do nascimento de Jesus, o Dia do Natal, no dia 25 de dezembro, que é o último mês de um ano — mas de que ano? Do ano 1 dC ou seria do ano 1 aC? Neste caso, Jesus teria nascido uma semana antes do primeiro dia a era cristã? Também é meio complicado — embora fique mais razoável dizer que no dia 25/12/01 Jesus completou um ano de idade.

c) A coisa fica mais complicada ainda quando se descobre que, segundo tudo indica, Jesus nasceu, realmente, em algum momento entre o ano 6 aC e o ano 4 aC. A Bíblia afirma que Jesus nasceu na época em que Herodes era Rei da Judeia. Acontece que há informação externa ao Novo Testamento que deixa razoavelmente comprovado que Herodes morreu no ano 4 aC, provavelmente no mês de março, provavelmente no dia 14. Ora, se Herodes morreu em 14/03/04 aC, Jesus deve ter nascido antes disso — quem sabe uns dois anos antes — para dar tempo de acontecer tudo aquilo que a Bíblia diz acerca de Jesus e sua família: a conversa dos Magos com Herodes, a fuga de José, Maria e Jesus para o Egito, etc. É por isso que se afirma — e até a insuspeita Bíblia de Estudos de Genebra o declara — que Jesus nasceu em algum momento entre o ano 6 aC e o ano 4 aC.

d) Há mais complicação… Dezembro é início do Inverno, no Hemisfério Norte, onde fica a Palestina. Se Jesus nasceu em um dia em que havia pastores no campo cuidando de suas ovelhas, aos quais apareceram anjos e um coral celestial dando as boas novas, com quase toda certeza não era no Inverno, época em que os pastores não levam suas ovelhas a pastar por não haver pasto e por ser muito frio. Logo, dificilmente Jesus nasceu em dezembro, segundo os estudiosos que adotam essa linha de investigação.

e) Por fim, mais uma complicação. Segundo outros investigadores, Jesus, além de não ter nascido no marco zero da era cristã e além de não ter nascido em dezembro, provavelmente também não nasceu em Belém da Judeia, mas, sim, me Nazaré mesmo. Há uma tradição firme dentro da igreja cristã e mesmo do Novo Testamento que identifica Jesus com Nazaré, e não com Belém. Ele é, afinal de contas, o Nazareno. A inscrição que teria sido posta em cima da cruz de Jesus afirma que seu nome era “Jesus Nazareno”. Além do mais, apenas um evangelho fala da ida a Belém para o nascimento de Jesus. E não há registro, fora de aquele lugarzinho no Novo Testamento, que comprove ter havido um censo — em especial um censo em que todo mundo tinha de ir ao lugar onde nasceu para se cadastrar.

Enfim, fazer o quê? Deixar as questões técnicas para os estudiosos e continuar desejando Feliz Natal, distribuindo presentes, comendo panetone, tomando egg nog, matando peru (especialmente no Hemisfério Norte), celebrando assim o nascimento do Nazareno?

Isso tudo para não mencionar outras tradições que foram se agregando à celebração: a árvore de Natal, o Papai Noel (São Nicolau?), a lenda de que os presentes distribuídos são entregues pelo bom velhinho, que, dia antes, arruma seu trenó, arreia suas renas, e sai da Laplândia, lá no Polo Norte (Círculo Polar Ártico) para vir voando, entrar pela chaminé da lareira, e deixar os presentes nos sapatos ou nas meias que ali estiverem aguardando… E a Missa do Galo?  E o Show do Roberto Carlos? De onde vieram todas essas tradições?

Voltando ao voo… Creio que nunca viajei dos Brasil para a Europa com tanta turbulência. O avião sacode tanto, e de forma quase ininterrupta, que eles até apagaram a luz que determina que a gente deve ficar amarrado no assento, porque tanta gente estava simplesmente se levantando para ir ao banheiro ou simplesmente se esticar um pouco, mesmo com a luz acesa, desmoralizando o pobre sinalzinho… Pela primeira vez, desde 1946, quando eu ia fazer três anos, e viajei de Londrina para São Paulo na Aerovias Natal, e vomitei as tripas, estou sentindo o estômago meio enjoado. Acho que é de escrever numa tela que não para quieta. Só porque eu escrevi, acenderam a luzinha que indica para ficarmos nos assentos com o cinto de segurança afivelado.

Até depois. Vou ver se cochilo mais um pouco. Pelo jeito o software que oferece as atrações na telinha desistiu. Pelo menos a minha tela está congeladíssima.

No Ar, 22 de Dezembro de 2016 (já tendo entrado em 23 de Dezembro de 2016 no Hemisfério Norte, onde certamente já estou…)

20161221: O Liberalismo Clássico e as Crises da Europa Atual

Foi durante os meus três anos no Seminário Presbiteriano de Campinas (1964-1966), em Campinas (onde mais?), do qual acabei sendo expulso em 1966, que descobri que eu era um liberal clássico, um liberal laissez-faire, um liberal à moda antiga. Essas três expressões querem, todas, dizer a mesma coisa. Descobri isso de uma forma pouco linear. No ano em que cheguei ao Seminário, 1964, foi deflagrado o Golpe Militar — ou foi implantada a Ditadura Militar, como se dizia então. Minha reação ao Golpe, como a da maioria dos brasileiros, foi ambivalente.

De um lado, eu tinha perfeita clareza e convicção de que eu não era favorável ao Comunismo, não tendia para o Socialismo, nem para outras tendências socializantes, como a Social Democracia. Sempre fui extremamente individualista.

De outro lado (há vários lados aqui), eu havia me convencido, ao longo dos anos 1961 a 1963, quando fiz meu Curso Clássico no Instituto José Manuel da Conceição (Instituto JMC), em Jandira, de que, se alguma coisa não fosse feita, o fraco governo de João Goulart, que tomou posse em Setembro de 1961, depois da renúncia de Jânio Quadros, se tornaria uma Ditadura Socialista, quando não Comunista, dominada por sindicatos e outras corporações (inclusive a dos militares de menor patente: tenentes, sargentos, cabos, etc. — havia muito milico de esquerda naquela época).

De um terceiro lado, eu tinha medo de que um governo militar viesse a não ser passageiro (como de fato não foi) e pudesse se transformar numa ditadura (como de fato se transformou), acabando por ser um remédio quase tão ruim quanto a doença que pretendia erradicar.

De um quarto lado, eu era, como ainda sou, um amante da liberdade, daqueles que, com Patrick Henry, dizem “Give me liberty or give me death”. Fui expulso do Seminário em 1966 por exercer minha liberdade efetivamente como redator-chefe do jornal dos estudantes do Seminário (chamado de “O CAOS em Revista” — CAOS sendo acrônimo de Centro Acadêmico Oito de Setembro).

Por tudo isso, minha reação ao Golpe foi ambivalente.

Resumindo: de um lado, eu estava, como muita gente naquela época, satisfeito com o fato de que “algo foi feito” para evitar a ameaça de uma ditadura socialista / comunista; por outro lado, eu não tinha muita certeza de que o governo militar iria preservar (como de fato não preservou) as liberdades então existentes, que, tinha eu certeza, também a ditadura comunista / socialista certamente não iria manter.

Em 1967 ganhei uma bolsa para ir estudar nos Estados Unidos e, assim, livrei-me de ter de enfrentar os Anos de Chumbo, de 1968 a 1974. Quando voltei de lá, em Junho de 1974, para trabalhar na UNICAMP, o Brasil já vivia a distensão de Ernesto Geisel: lenta, mas segura. A história ainda vai um dia reconhecer a importância do governo do luterano.

Por que digo isso tudo?

Por que de lá para cá meu Liberalismo Clássico só veio a se fortalecer — em especial pelo contato com as ideias de Ayn Rand, a partir de 1973, quando trabalhava no Pomona College, na California (um dos “colleges” que compunham os chamados “Claremont Colleges and Graduate School”, onde Peter Drucker trabalhou). Esse contato foi mediado por meu amigo e colega em Pomona, Charles J. King, que depois se tornou presidente do importante Liberty Fund. Confesso que há momentos em que me sinto tentado a ir além do Liberalismo Clássico, me declarando um anarquista libertário, ou um libertário anarco-capitalista. A diferença entre um liberal clássico e um anarquista libertário é que o primeiro reconhece a importância da lei e da ordem, e, por conseguinte, de um governo que elabore as leis (legislativo), as aplique (judiciário) e as faça cumprir (executivo, através do poder policial-militar). O anarquista libertário prefere o diabo ao governo — qualquer governo, até o mínimo. O liberal clássico, por sua vez, não acredita que o ser humano seja bom por natureza. Logo, não é otimista sobre o que irá acontecer em (ou a) uma sociedade sem governo, em que tudo se decida por arbitração voluntária ou por alguma forma de democracia direta, nas praças ou pelas redes sociais. Talvez o liberal clássico não seja um total pessimista, no sentido hobbesiano de que o homem é o lobo do homem. Ele prefere se ver como um realista — nem otimista, nem pessimista. Por isso, meio contra a vontade, porque deseja a maior liberdade possível, concede que a existência de um governo é necessária — exatamente para que possa existir a maior liberdade possível.

Assim, o liberal clássico reconhece a necessidade da existência de normas, de sua aplicação e de seu cumprimento, isto é, da lei e da ordem. Para ele, sem isso, não há liberdade. Mas a liberdade máxima só ocorrerá se essas leis se restringirem à preservação da liberdade e à garantia do respeito aos direitos humanos individuais (não os alegados direitos sociais, uma invenção socializante), que são, basicamente, os direitos negativos de expressão, de locomoção, de associação, de ação e de propriedade. Direitos negativos são direitos que impedem terceiros, (a) por um lado, de me coagir a não dizer o que penso, ou a não me locomover como eu queira, ou a não me associar com quem me interessa associar-me, ou a não buscar minha felicidade e realização como eu as entendo, ou a não manter aquilo (recursos financeiros ou bens) que recebo ou adquiro em decorrência do meu trabalho, e,  (b) por outro lado, de me obrigar a dizer o que não quero dizer, a me locomover para onde não quero ir, a me associar com quem não quero me associar, a buscar minha felicidade e realização onde não quero ou da forma que não quero, ou a ceder os meus recursos financeiros ou meus bens para finalidades, instituições ou pessoas com as quais não estou de acordo e que estou convencido de que não os merecem.

Aí está, em resumo, a essência do Liberalismo Clássico.

Por que trago isso à baila mais uma vez agora? Porque estou indo, com a família, passar um mês de férias na Europa (conforme revelado no artigo anterior) — e a Europa é contrária ao Liberalismo Clássico, defendendo uma Social Democracia, com tendências claramente socializantes, que considero detestável. E o faz com argumentos que tentam parecer liberais — ou melhor, que tentam parecer ainda mais liberais do que os argumentos do Liberalismo Clássico, passando a impressão de que são mais realistas do que o próprio rei.

Ou vejamos.

A crise econômico-financeira da União Europeia, que é mais grave nos países mais pobres da Europa, como Grécia, Portugal e Irlanda, é decorrente do modelo de sociedade orientado na direção da desejada Social Democracia. Mas a crise não atinge somente os mais pobres. A Itália e a própria França, que, neste caso caso, se acha uma das maiores lideranças da União Europeia, junto com a Alemanha, tem sofrido na carne as dificuldades de tentar implantar uma sociedade ao mesmo tempo igualitária e rica — algo que o Liberalismo Clássico considera basicamente impossível.

A crise sócio-política se revela na política de imigração, que, em muitos casos, privilegia os países que foram colônias de países europeus, como os países do Império Britânico, no caso da Inglaterra, os países francofones da África (como o Marrocos, a Algéria, a Tunísia, para citar apenas as do norte do continente, deixando de lado inúmeras outras), do Oriente Médio (como o Líbano), do Sudeste da Ásia (como o Vietnam), do Caribe (Martinique, Dominique, St Martin, etc.), e outros, no caso da França, os países colonizados pela Bélgica (Congo Belga, por exemplo). Em muitos casos as ex-colônias são hoje dominadas pela religião islâmica.

A crise sócio-política se revela ainda pelo terrorismo, que, motivado pela ideologia islâmica, ataca os antigos centros coloniais cristãos (Inglaterra, França, Bélgica, etc. — a Alemanha entrando na lista de países atacados por sua liderança na União Europeia de hoje). A dificuldade no combate ao terrorismo hoje cresce consideravelmente pela dificuldade de desentranhar o terrorismo da religião ou, pelo menos, das populações islâmica.

A crise sócio-política se agrava, por fim, com a questão dos refugiados. Para tentar assumir uma posição de vanguarda humanitária no espaço global, a União Europeia, em especial a Alemanha, a França e a Itália, têm batalhado pela aceitação dos refugiados, prejudicando seriamnente a população nativa, que cada vez mais se volta para a direita, numa tentativa de evitar a estratégia globalizante e internacionalista que a esquerda tenta vender.

O que tem o Liberalismo Clássico a dizer diante disso?

O mais importante é o seguinte. As teses do Liberalismo Clássico não devem, de modo algum, ser confundidas com as teses, rotuladas de liberais, nos Estados Unidos, propostas e defendidas pelo Partido Democrata, que é um partido de esquerda soft, bastante identificado com a Social Democracia.

Ilustro.

O Liberalismo Clássico defende, por exemplo, o direito de associação — que implica o direito de não-associação. Interpretado de forma negativa, como é preciso, esse direito nega que terceiros possam me impedir de me associar com quem quer que eu deseje me associar ou  me obrigar a me associar com quem eu não quero me associar. Assim, está perfeitamente dentro do ideário do Liberalismo Clássico que uma pessoa, ou um grupo de pessoas, possa não querer se associar com outra pessoa, ou grupo de pessoas, por qualquer razão (mesmo frívola). Assim, a existência de clubes segregados (só de homens, por exemplo, ou apenas de bilionários), ou de vizinhanças segregadas (em que se procura não vender casas ou apartamentos para pessoas com determinadas características: negros ou brancos ou asiáticos ou latinoamericanos ou muçulmanos ou pentecostais ou hinduístas; etc.), ou de qualquer organização ou associação excludente, é perfeitamente admissível para o Liberal Clássico — mas aparentemente um horror para os esquerdistas.

No nível macro (no caso, nacional), uma nação, na visão do Liberalismo Clássico, longe de ser obrigada a admitir em seu território quem quer que seja que deseja ali residir, tem toda autonomia para decidir que não deseja imigrantes, ou, mesmo, que deseja imigrantes com determinadas características, excluindo os demais. Assim, Donald Trump, ao defender a construção (na realidade, a continuação da construção, pois a coisa foi iniciada por Bill Clinton) de um muro na divisa dos Estados Unidos com o México, está se comportando, não como um fascista, mas como um liberal clássico que, no caso, representando o desejo da maioria da população americana que nele votou, deseja controlar o fluxo descontrolado da imigração — em especial da imigração ilegal, que é a que o muro procuraria conter. O Trump não propôs, que eu saiba, que se impeça o fluxo migratório de mexicanos e outros latinoamericanos para os Estados Unidos se essa imigração for feita dentro da lei.

Um outro exemplo, em um nível menos macro. Uma igreja é uma associação privada. Se ela, através do processo decisório que ela houve por bem adotar, decidir que não vai aceitar, digamos, gays em sua membresía, ela teria todo o direito de fazê-lo, segundo o Liberalismo Clássico — que defende também que as igrejas que aceitam gays como membros ou mesmo no seu clero não sejam impedidas de fazê-lo. De igual modo, o Liberalismo Clássico defende o direito de os gays criarem uma igreja que exclua os héteros, as mulheres de criarem uma igreja feminista exclusivamente feminina, etc.

Os países europeus, em sua maioria, querem que a imigração seja controlada. Enquanto as Merkels e os Hollandes da vida defenderem a aceitação generalizada de imigrantes que a maioria da população considera indesejável, vão empurrando essa maioria cada vez mais para os braços da direita, e, de repente, teremos os principais países da Europa controlados por nazistas e fascistas ou seus equivalentes atuais. Não nos esqueçamos de que o Nazional Sozialismus foi eleito por voto da maioria do eleitorado alemão. A votação a favor do Brexit na Inglaterra revela o desejo, da maioria da população, de tomar em suas mãos o controle de decisões acerca da imigração e da aceitação de refugiados. Na visão do Liberalismo Clássico, a maioria da população tem o direito de fazer isso — e as populações não europeias não podem fazer nada para impedir. Se a União Europeia um dia decidir, por maioria de seus países membro, não aceitar mais a entrada de brasileiros naquele continente, seja como imigrantes, seja até mesmo como turistas, não haverá nada que nós possamos fazer.

É isso, por enquanto.

Em Salto, 21 de Dezembro de 2016

 

20161220: Aproxima-se o Início da Viagem 

Daqui a dois dias, em 22 de Dezembro de 2016, quinta-feira, vamos sair de viagem, a Paloma, a Bianca, a Priscilla e eu. Vamos passar um pouquinho mais de um mês na Europa. Eu, sozinho, e eu acompanhado da Paloma, já estivemos lá várias vezes. A Bianca e a Priscilla já estiveram uma vez na Inglaterra, França e Itália. Mas nunca fomos os quatro juntos para o “Velho Mundo” (para os Estados Unidos já fomos duas vezes, em 2009 e 2011): será a primeira vez.

Decidimos nos dar essa viagem porque, por uma série de razões que se reforçam, esta, além da primeira, pode ser também a última oportunidade que teremos de viajar os quatros juntos pelo exterior. A Bianca já se formou num curso superior de Gestão Ambiental, e está trabalhando (embora não na área do curso). A Priscilla terminou seu primeiro ano na Universidade, cursando Biomedicina. Ambas estão namorando (a Bianca há mais tempo — algo que é de esperar, pois ela é dois anos mais velha…). Ambas têm uma vida social intensa. Pela Paloma faríamos, pelo menos ela e eu, uma viagem desse tipo todo ano — mas eu ando meio preguiçoso para enfrentar todo o trabalho e todo o stress envolvidos na organização, na preparação, e, convenhamos, na própria execução do projeto, isto é, na viagem em si.

De qualquer forma, esperamos desfrutar ao máximo essa oportunidade juntos, apesar dos sustos que o terrorismo anda espalhando pela Europa — há poucos dias alguém aparentemente ligado ao Estado Islâmico, ou interessado em imitá-lo, atentou contra um dos maiores Mercados de Natal (Weihnachtsmärkte) em Berlim — exatamente o tipo de coisa que a Paloma e as meninas querem visitar, tendo já listado uns cinco ou seis que não querem perder…

Nosso voo irá de São Paulo para Zürich e de lá para Bruxelles, onde, tal qual a União Europeia, estabeleceremos nosso “quartel general”. A propósito, vou escrever o nome das cidades, sempre que possível, na grafia utilizada na principal língua falada em cada cidade: Alemão, em Zürich, e Francês, em Bruxelles, em ambos os casos cidades em que se fala mais de uma língua. (O nome dos países escreverei na grafia brasileira). Como dizia, ficaremos hospedados em Bruxelles, durante a viagem toda, em um studio de uma das cadeias da rede Accor (minha rede favorita, pela versatilidade: sempre tem um hotel que tem aquilo de que você precisa dentro do seu orçamento). E de lá faremos day trips por trem para várias cidades distantes até cerca de 200 km de Bruxelles, saindo de manhãzinha e voltando à noite, viajando só de mochila, deixando as malas no studio. Três ou quatro vezes quebraremos a rotina das day trips e pernoitaremos no destino. Isso acrescenta um certo custo à viagem mas é um custo que representa um ganho de tempo, de conforto, e, portanto, de descanso (e, por conseguinte, de ânimo e disposição para “bater perna” no dia seguinte…). Escolhemos o studio de Bruxelles porque acomoda quatro no mesmo ambiente, com cozinha, máquina de lavar roupa, etc. — fatos que, em seu conjunto, representam a economia que nos permite pernoitar fora algumas vezes sem abrir mão do quartel general.

Compramos um Europass da Eurail que nos permitirá viajar de trem por toda a Europa durante 22 dos 32 dias que estaremos lá. Isso quer dizer que ficaremos em Bruxelles, ou bem ao redor, durante cerca de dez dias, uns poucos no inícios, alguns outros (mais do que início) ao final. Nos outros 22 dias, se aguentarmos, e se Deus quiser, viajaremos o tempo todo.

A propósito, nossa amiga (minha e da Paloma), primeiro no Facebook, depois na vida real, Daisy Grisolia, estará em Bruxelles na mesma época, visitando o filho que mora lá. Esperamos tomar pelo menos um vinho juntos de vez em quando…

Ficamos meio apertados com os preparativos e as arrumações nos últimos dias. A Paloma estará a trabalhar até amanhã, dia 21/12, véspera da viagem. Eu, em agosto, assumi o compromisso de escrever dois livrinhos (o primeiro não tão pequeno assim), um sobre projetos transdisciplinares de aprendizagem colaborativa e outro sobre a história do cristianismo primitivo (dos primórdios até a queda do império romano clássico no ocidente — que se deu em 476 dC). Mas os textos estão entregues aos respectivos encomendadores — embora haja uns rabichos que eu possivelmente terei de amarrar durante a viagem. Felizmente, a Internet hoje nos permite continuar a trabalhar sem que os interessados no seu trabalho saibam onde você está. Lembro-me de ouvir, uma vez (em 2004, em  Washington), Nicholas Negroponte, então ainda diretor geral do Media Lab do Massachusetts Institute de Technology, e que é grego de nascimento, dizer que havia acabado de passar um bom período (creio que eram duas semanas) na Grécia, e de lá continuou a dirigir o Media Lab, sem que ninguém percebesse que ele estava fora do seu escritório físico… Hoje isso é comum. Minha gerente de conta no Itaú não fica em minha agência física (à qual, é bom que se diga, raramente compareço presencialmente).

Não conheço Bruxelles e estou ansioso para visitar a cidade, uma das três capitais oficiais da União Europeia — e sua capital de facto, por hospedar a Comissão Europeia, o órgão executivo dessa desunida União. Daqui um tempo é bem possível que nem haja mais essa União, como hoje configurada. A Inglaterra já a está brexitando — e outros países certamente virão “na cola”, à medida que as crises da economia, das finanças, da imigração vinda de fora da Europa, dos refugiados e do terrorismo (e possivelmente outras) se intensificam — e ninguém duvida que vão se intensificar, pois a União Europeia continua a fazer de conta que não são tão sérias. Alguns bons amigos e colegas meus, como Newton Aquiles von Zuben e Antonio Muniz de Rezende estudaram, nos anos 60-70, em Louvain (Leuwen), a mais famosa universidade belga, e sempre me falaram muito bem do país (e da universidade).

Luxemburgo (Luxembourg, uma cidade-estado / um estado-cidade) fica pertinho de Bruxelles. Embora um grão-ducado independente, Luxembourg, a segunda das três capitais oficiais da União Europeia, visto hospedar sua Suprema Corte (a Corte de Justiça Europeia), é quase um anexo da Bélgica. A cidade-estado tem cerca de meio milhão de habitantes e é governada pelo Grão-Duque Henri, sendo o último Grão-Ducado existente no mundo, segundo li em algum lugar — possivelmente em algum artigo da Wikipedia.

Strasbourg é a terceira das três capitais oficiais da União Europeia, por hospedar o Parlamento Europeu. Capital da disputada região da Alsácia e Lorena, que foi objeto de muitas guerras e disputas entre a França e a Alemanha e mudou de um para o outro país já algumas vezes, Strasbourg é uma magnífica cidade. Eu já a conheço e acho o centro histórico da cidade (Grande Île) uma lindeza — a UNESCO concorda, tanto que escolheu o centro histórico de Strasbourg como patrimônio histórico e cultural da humanidade.

Strasbourg foi uma cidade importante na reforma protestante do século 16, da mesma forma que Zürich, a cidade suiça pela qual chegaremos à Europa (embora não à União Europeia, visto que a Suiça não faz parte da dita União). O principal militante da reforma em Strasbourg foi Martin Bucer. João Calvino,  o reformador de Genève, foi para Strasbourg (para onde planejava ir desde o início, só ficando em Genève, em 1536, por insistência do reformador Guilherme Farel, que lá operava), quando foi expulso de Genève, em 1538, ficando em Strasbourg até 1541 — e ali se casou, em 1540, com Idelette de Bure, uma viúva. Em 1541 Calvino foi chamado de volta para Genève, onde ficou até 1564, data de sua morte. A linha Zürich (onde se fala alemão), Strasbourg e Genève (fala-se francês nessas duas cidades) é, em muitos aspectos, mais importante para a reforma protestante do que Wittenberg, a partir de onde Martinho Lutero operou (em alemão, naturalmente).

Em menos de um ano (31/10/2017) a reforma protestante estará celebrando seus quinhentos anos de existência. [Em uma das idiossincrasias da língua portuguesa, Bucer e Lutero têm exatamente o mesmo primeiro nome em francês, alemão e inglês — mas, no caso de Bucer, a maioria dos brasileiros escreve seu prenome como Martin, escrevendo Martinho, no caso de Lutero. Entenda-se.] Embora Zürich seja apenas passagem nesta nossa viagem, é preciso mencionar que a cidade também foi um centro importante da reforma protestante, militando ali o corajoso Ulrico Zuínglio, que morreu cedo, em batalha, guerreando contra os católicos. Bucer, Zuínglio, Lutero e Calvino foram os quatro grandes do segmento da reforma continental (não incluindo a Inglaterra) chamada de “magisterial” ou “magistral” — que não inclui os reformadores mais radicais, que achavam que a reforma magisterial / magistral não havia reformado a igreja suficientemente, preservando muitas características que consideravam nefastas da Igreja Católica — entre as quais a principal seria a promiscuidade no relacionamento com o estado. Os radicais queriam total separação entre igreja e estado — algo que só veio acontecer quando a reforma chegou à América do Norte.

É isso, por enquanto.

Em Salto, 20 de Dezembro de 2016 (dia do septuagésimo aniversário do meu querido irmão Flávio)