20170117: O Vigésimo Sexto Dia na Europa (Promenading in the City)

Ontem, dia 16, ficamos no hotel, a Paloma e eu, descansando dos dias em Paris. As meninas saíram um pouco à tarde / noite para comer fora e passear um pouco.

Hoje, dia 17 de Janeiro, vamos passear um pouco a pé pela cidade. Andar por aí, entrar em lojas e shoppings sem compromisso. A Priscilla decidiu ficar no quarto. Ela, como eu, de vez em quando precisa de algum tempo de solitude (aloneness) – que de modo algum se confunde com solidão (loneliness). Um blog na Internet diferencia as duas coisas:

“Solidão é uma falta, uma ausência, um sentimento de incompletude, a sensação de que você carece da presença de alguém. Solitude é presença, plenitude, um sentimento de completude, a certeza de que, pelo menos em alguns momentos, você se basta a si próprio.” [Vide o artigo Loneliness vs Aloneness no Blog Discover Meditation: http://discovermeditation.com/3529/blog/practical-inspiration/loneliness-v-aloneness-whats-the-difference/.%5D

o O o

Escrevo, daqui para frente, depois de ter saído…

Acabamos indo a uma região só da cidade, onde há uma galeria, com uma Loja Fnac, e, perto dela, na H&M e uma loja de brinquedos, que vende LEGO, quebra-cabeças, etc. Eu fiquei só na Fnac por cerca de duas horas e meia e a Paloma e a Bianca visitaram as duas lojas e compraram puzzles e roupas.

Eu “took my time”, e, com calma, primeiro, olhei e, em alguns casos, testei computadores, tablets, telefones, etc.. Depois fui checar uma área favorita: de discos rígidos, pen drives e cartões de memória. Mas não comprei nada nessas seções, apesar das tentações.

Em seguida fui para a área de livros, ficando o tempo todo na área de história. Peguei dois livros para ler, achei uma poltrona, e fiquei lendo. Ao final, comprei um deles e fiquei tentado a comprar o outro…

O que comprei foi La Grande Histoire de la Belgique, de Patrick Weber (2013). Conta a história da Bélgica, ou do território que veio mais recentemente ser a Bélgica, desde o período pré-romano. Leitura fácil, para o leitor não especializado.

O que não comprei foi Une Histoire Populaire de l’Humanité: De l’Âge de Pierre au Nouveau Millenaire, de Chris Harman (2011), traduzido para o Francês por Jean-Marie Guerlin. O original em inglês, que a loja não tinha, é A People’s History of the World: From the Stone Age to the New Millenium. O autor é um esquerdista, operando com categorias marxistas, mas escreve bem. O livro foi escrito para ser um “companion” a The People’s History of the United States, um clássico marxista escrito por Howard Zinn há muito tempo (comprei-o na década de 70 nos Estados Unidos, mas a versão ora à venda é atualizada até o ano 2000).

Depois de novamente nos unirmos, fomos almoçar num restaurante alternativo que a Bianca descobriu ontem. Apertadinho, as comidas com uns nomes esquisitos, suco servido num copo que parece uma jarra de maionese (creio que é mesmo). Tomei uma sopa de cogumelos com queijo Brie. Estava boa. A cerveja, marca Bio, nem tanto. Depois  comprei uma garrafa de rum num boteco (bem mais barato do que no Carrefour), para esquentar meus dias, e voltamos para casa.

Passei o resto do dia, até agora (são 23h13 aqui) lendo o livro sobre a História da Bélgica. Acho uma história extremamente interessante. A Bélgica teve, historicamente, três grandes inimigos, já tendo “pertencido” a cada um deles (i.e., feito parte do território de cada um deles): a Holanda, a França e a Alemanha. Curiosamente, seu território é dividido, hoje, em duas grandes regiões (a Região “Flamande”, ao Norte, que é monolíngue e Holandês, e a Região “Wallonne”, ao Sul, que também é monolíngue e fala Francês – Francês mesmo, não dialeto), e duas regiões menores (Bruxelles, que é uma região independente equivalente ao Distrito Federal do país, que, embora geograficamente localizado dentro da Região Flamande, é oficialmente bilíngue, onde as línguas oficiais são o Francês e o Holandês, e três cantões pequeninos, que fazem divisa com a Alemanha, que foram anexados à Alemanha durante a Segunda Guerra, porque já falavam alemão, e continuam a falar alemão até hoje, como língua oficial, mesmo depois de terem sido devolvidos à Bélgica, apesar de ficarem geograficamente dentro da Região Wallonne). Acho fascinante um país em que são faladas três línguas – além do Inglês, que, especialmente na região Wallonne, é falado de forma generalizada nos hotéis, nos restaurantes, nas lojas.

A Bélgica só se tornou independente em 1830 – e, mesmo assim, ainda foi ocupada pela Alemanha nas duas guerras mundiais. (Não deve ser fácil ser um vizinho pequeno da Alemanha; na verdade, nem um vizinho grande, que o digam a Polônia e a França). E tem enfrentado sérios problemas de convivência entre as duas principais regiões. Já narrei aqui que, em Ghent, fui pedir uma informação numa loja e falei em Francês – a moça disse que não falava Francês; falei em Inglês, e respondeu sem hesitar, num Inglês sotaqueado mas bastante bom.

Além disso a Bélgica não tem convivido muito bem com sua monarquia. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, durante a ocupação da Bélgica pela Alemanha, o Primeiro Ministro e seu “cabinet” fugiram, primeiro para Bordeaux, na França, e, depois, quando a França também foi ocupada, para Londres, na Inglaterra, lá exercendo um governo no exílio. O rei, que não convivia bem com seus ministros, se recusou a fugir, ficou na Bélgica, foi preso pelos alemães e levado para a Alemanha. Quando a Bélgica foi liberada pelos aliados, a guerra ainda continuava em outras frentes. O Primeiro Ministro e seu “cabinet” voltou e começou a governar – sem o rei, que continuava preso. Quando a Alemanha finalmente caiu, o governo não queria que ele voltasse. Houve uma negociação complicadíssima, que resultou na abdicação do rei (por proposta dele próprio) e na coroação de seu filho, o rei Balduíno. Vira e mexe “la question royale” é levantada de novo.

Pensando sobre essas coisas me surgiu o paralelo com a Suíça, país em que há várias etnias e várias línguas são faladas: Alemão, Francês, Italiano e Romansch. O país é uma “confederação” (o nome oficial é “Confederatio Helvetica”, razão pela qual o código internacional da Suíça é CH (que me faz lembrar de CHAVES…). Lá, embora as diferentes línguas sejam faladas em diferentes cantões, todo mundo, sabendo, fala a língua do outro cantão, sem implicância. E todo mundo fala Inglês. O Romansch é falado só por 0,5% da população. Os caixas eletrônicos dos bancos lhe dão a opção de interagir com o sistema em Inglês, Francês, Alemão e Italiano, e deixam você retirar Francos Suíços (o dinheiro da Suíça, que, não sendo parte da União Europeia, não usa o Euro), Euros, Dólares Americanos, Libras Esterlinas, Yenes – independente da moeda em que sua conta esteja, por sua opção, classificada. Acho que o fato de a Suíça ser uma Confederação facilita mais a convivência do que na hipótese (de plausibilidade nula) de vir a ser uma monarquia…

Além do mais, a Suíça tem uma tradição de independência que a Bélgica não tem. Não foi ocupada durante as duas Guerras Mundiais, e se recusou a participar da União Européia.

Na Bélgica, o estado nacional fica, hoje, espremido entre, de um lado, as pressões regionais e locais, das duas principais regiões e dos diversos cantões, e, de outro lado, as pressões supranacionais da União Européia. Ao unir-se à União Européia, a Bélgica concordou em perder a coordenação de diversas áreas que antes pertenciam ao seu governo nacional, cedendo-as à estrutura supranacional – entre elas o seu câmbio, visto que passou a usar o Euro. E, na União Europeia, o controle central é exercido pela Alemanha e pela França, os dois países mais importantes, ambos tradicionais inimigos da Bélgica. (A Grã-Bretanha nunca foi membro integral da União  Européia, tendo se recusado, por exemplo, a substituir a tradicional Libra Esterlina pelo arrivista Euro – e, agora, com o plebiscito, batizado de Brexit, deve sair de vez da União).

Complicada a vida de nossos amigos europeus…

Em Bruxelas, 17 de Janeiro de 2017.

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