20170116: O Vigésimo Quinto Dia – Valores, Prioridades, Escolhas

O artigo que escrevi sobre nossa viagem a Paris gerou alguns comentários (uns escritos, outros orais) que me motivaram a escrever o que segue.

Teresinha Furian, que nunca foi ex-cunhada, sendo sempre mais irmã do que cunhada, comentou o artigo no Facebook dizendo: “Fantástica experiência sobre o tempo”. Vi o comentário dela no momento em que a Bianca, minha filha, mostrava um aplicativo que achou no Google Play, chamado “Tasks”, e que opera em cima do famoso “Quadrado de Prioridades”. Hoje cedo, vi o comentário, no Blog (não no Facebook), dizendo não achar o artigo chocho, não, como eu o havia avaliado ao final, mas, sim, realista. A Paloma me disse, oralmente, que não achava o artigo chocho, concordando com a Ondina em que era realista – mas realista na representação do meu ponto de vista, que, como ela sempre diz, é apenas a vista de um ponto. A observação sugere (não mais do que isso) que os outros, no caso, as minhas companheiras de viagem, poderiam ver uma realidade diferente da minha.

Tudo isso me faz retomar uma questão sobre a qual venho escrevendo regularmente desde 1991, ou seja, a mais de 25 anos, a saber:

  • a necessidade da gerir ou administrar o tempo, que, por sua vez, implica em;
  • a necessidade de definir objetivos e prioridades, com vários níveis de abrangência, para a nossa vida, que, por sua vez, implica em;
  • a necessidade de enfrentar com realismo e serenidade as diversas manifestações, em nossa vida, do fato indiscutível de que “a realidade” (o acaso, a providência divina, ou o que seja) impõe empecilhos e dificuldades (“constraints”) no caminho da realização de nossos objetivos e prioridades, que, por sua vez implica em;
  • a necessidade de estar sempre prontos para escolher entre alternativas e decidir como vamos reagir diante desses “constraints”, naquela fração de tempo, às vezes diminuta, que fica entre o “estímulo” e a “resposta”, e que constitui, talvez, nosso espaço inalienável de liberdade.

1. Da Dependência, através da Independência, para a Interdependência

Stephen R (Richards) Covey trata, em vários de seus livros, de uma questão levantada em seu primeiro volume na série Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes. Nós nascemos sem saber fazer nada e, por causa disso, totalmente dependentes de nossos pais, de nossa família, de quem quer que seja que se proponha a cuidar de nós. Se ninguém cuidar de nós, nós morreremos, tal é o grau de dependência que temos dos outros.

Por causa disso, muitos educadores têm proposto que o objetivo maior da educação é conseguir que as pessoas passem desse estágio de dependência total para um estágio de independência – às vezes descrito como um estágio de total independência. Isso tem levado a maioria das pessoas, em especial os adolescentes, a buscar a independência total. Como descobrem, às vezes, muito cedo, frequentemente topam com algum “constraint” no caminho de sua independência. Thor Batista, filho de Eike Batista, descobriu que não era totalmente independente quando atropelou, com a Mercedes do pai, um ciclista. Seu pai teve de ajuda-lo a se sair do enrosco. Vinicius Bonemer, filho de William Boner, também descobriu a mesma coisa de forma semelhante, quando o carro que ele dirigia capotou ferindo seriamente um dos ocupantes. Seu pai teve de ajuda-lo a sair do enrosco — ou ainda o está ajudando.

Os exemplos se multiplicam. Cada um de nós conhece pessoas adultas, na casa dos 30 anos, que, na busca da independência total, enfrentou “constraints” que as obrigaram a voltar para o ambiente seguro do lar familial.

Esses exemplos levaram Stephen Covey a sugerir que o objetivo maior da educação não é propiciar às pessoas a sensação de total independência, mas, sim, o reconhecimento de sua interdependência.

Somos todos interdependentes, e Paulo Freire nos alertou para o fato de que ninguém educa ninguém, mas que nós nos educamos uns aos outros “em comunhão”, isto é, em interação, em comunicação mútua, em colaboração uns com os outros – ou seja, em interdependência.

2. Vontades, Desejos, Objetivos, Metas e Prioridades

Todos nós temos um sem número de vontades e desejos que gostaríamos de poder realizar e que enfrentam “constraints” diversos que nos impedem de fazê-lo. Quando crianças e adolescentes enfrentamos o “constraint” da autorização parental. As pessoas, enquanto são menores de idade, são consideradas parcialmente incapazes de responder pelos seus atos. Mesmo que fique comprovado que um filho menor pegou a chave do carro do pai sem informa-lo do fato e sem pedir-lhe a autorização, o pai será responsabilizado penalmente se o filho se envolver um acidente e matar ou machucar alguém.

Mas mesmo quando nos tornamos maiores de idade, continuamos a enfrentar “constraints” de vários tipos. Com um período de escolaridade obrigatória legalmente, ou imperativa do ponto de vista prático, ficamos cada vez mais tempo na escola e, assim, custamos para entrar no mundo do trabalho. Quando entramos, custa chegar o momento em que passamos a ganhar um salário decente que nos permita satisfazer uma parte de nossas vontades e desejos. É uma medida realista reconhecer que, provavelmente, nunca vamos conseguir realizar todas as nossas vontades e desejos.

Há “constraints” legais: a lei nos proíbe de fazer um monte de coisas que gostaríamos de fazer.

Há os “constraints” financeiros que, provavelmente, vão continuar conosco pelo resto da vida, pois dificilmente conseguiremos ganhar dinheiro suficiente para fazer tudo o que temos vontade e desejo de fazer.

Há “constraints” relativos à nossa forma de viver, se vamos viver sós, se em companhia, e, neste caso, na companhia de quem.

Há “constraints” relativos à duração de nossa vida, que nunca saberemos qual será. Eu, por exemplo, sei que, por mais longa que seja minha vida, não terei tempo de ler tudo o que tenho vontade de ler nem de escrever tudo o que desejaria escrever. Cada novo livro que leio levanta novos tópicos de interesse, sugere novos autores a consultar, fornece pistas sobre novas coisas que podemos abordar em nossos escritos… Grandes autores, como Bertrand Russell e Karl Popper, que morreram perto dos cem anos de vida, deixaram um monte de artigos e livros esboçados, começados mas inacabados, concluídos, mas em processo de revisão…

E assim vai. Não há nenhuma solução para esse problema além da definição e hierarquização de prioridades. O famoso “Quadrado de Prioridades”, que Covey usa em seu livro de 1991, e que eu usei em um livrinho sobre Administração do Tempo que escrevi no mesmo ano, foi inventado por alguém com muita perspicácia. Ele sugere que criemos um quadrado composto de quatro quadrados menores, internos ao maior, e que rotulemos:

(a) a primeira coluna (vertical) de “Coisas Importantes”

(b) a segunda coluna (vertical) de “Coisas não-Importantes”

(c) a primeira linha (horizontal) de “Coisas Urgentes”

(d) a segunda linha (horizontal) de “Coisas não-Urgentes”

Assim,

  • a primeira casa (em cima, à esquerda) do quadrado maior abrigará a lista de “Coisas Importantes e Urgentes”
  • a quarta casa (embaixo, à direita) do quadrado maior abrigará a lista de “Coisas não-Importantes e e não-Urgentes”
  • a segunda casa (em cima, à direita) do quadrado maior abrigará a lista de “Coisas Urgentes e não-Importantes”
  • a terceira casa (embaixo, à esquerda) do quadrado maior abrigará a lista de coisas “Importantes e não-Urgentes”

A primeira e a quarta casa não oferecem maiores problemas: temos de fazer o mais rápido possível aquelas coisas que são “Importantes e Urgentes” e, talvez, esquecer para sempre (tirar da nossa mente) as coisas que são “não-Importantes e não-Urgentes”.

O problema está em lidar, primeiro em nível macro, com as outras duas casas, a segunda e a terceira. O que devemos atacar primeiro (priorizar): aquilo que é “Urgente, mas não-Importante” ou aquilo que é “Importante, mas não-Urgente”?

E, em nível micro (ou menos macro), devemos lidar, dentro de cada uma dessas categorias, com cada uma das coisas listadas lá, para decidir em que ordem de prioridade a colocamos quando comparada com outras coisas que, em princípio (em nível macro), têm a mesma prioridade?

Ao lidar com essas questões, o objetivo deverá ser definir objetivos e metas de longo prazo, aquelas coisas que constituirão o ingrediente básico e prioritário de nosso projeto de vida.

3. Valores

Um valor é algo pelo qual estamos dispostos a lutar, seja para alcançar, seja para, tendo alcançado, não perder. Essa definição de valor eu tomei emprestado de Ayn Rand. De certo modo, nossos valores determinam o que é importante para nós. Logo, nossos valores são indispensáveis para a decisão do que colocar nas casas que contêm coisas que nós consideramos “Importantes”, algumas das quais serão também “Urgentes”, outras, “Não-Urgentes”.

Nossos valores também serão de ajuda na definição de quem sai ganhando em um conflito entre algo que é “Urgente, mas não-Importante” (casa 2) e algo que é “Importante mas não-Urgente”  (casa 3).

Dependendo do nível de vida de cada um, e de seus valores, é possível delegar a terceiros a realização de várias coisas urgentes que precisamos fazer mas que não nos parecem importantes: limpar a casa, lavar a roupa, lavar a louça, cortar a grama do quintal, etc. Empregados domésticos fazem essas coisas que são urgentes mas não nos parecem importantes. Provavelmente, não faça sentido delegar coisas importantes a terceiros, embora quando mandamos nossos filhos para a escola façamos exatamente isso: delegamos a terceiros (i.e., terceirizamos) a sua formação e o seu desenvolvimento… Isso é algo que deveríamos fazer nós mesmos, por ser tão importante, mas a maior parte de nós encontra boas razões para não fazê-lo.

4. E o Impossível?

Ayn Rand novamente nos ajuda aqui, ao elogiar, justo ela, que era ateia, uma oração escrita (ou editada) por um teólogo cristão, Reinhold Niebuhr. Disse ele:

“Oh Deus, dá-me coragem e força para fazer o que precisa ser feito, paciência e resiliência para enfrentar o que não é possível fazer, e sabedoria para discernir a diferença entre um e outro”.

O insight que essa oração formula não precisa vir na forma de oração. Ele contém os seguintes reconhecimentos:

  • Há coisas que precisamos e podemos fazer;
  • Há coisas acerca das quais nada é possível fazer para impedi-las (por qualquer razão);
  • Precisamos ter coragem e força para fazer as primeiras e paciência e resiliência para enfrentar as segundas;
  • Mas, acima de tudo, precisamos ter sabedoria para distinguir o que precisamos e podemos fazer daquilo que não acerca do qual nada é possível fazer.

5. A Atitude Diante do Impossível

Embora seja impossível impedir o acontecimento de algumas coisas, que estão totalmente além do nosso controle, continuamos a ter controle sobre nossa reação a essas coisas. Podemos sempre escolher “nos levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima” – ou podemos deixar que o acontecimento nos abale, nos derrube, nos deixe prostrados, acabe com o nosso projeto de vida.

Essa escolha, nunca a perdemos. É por isso que alguns desastres maiores aparecem como novas oportunidades de crescimento para algumas pessoas e destroem outras. Não pela força do acontecimento, que, a priori, foi a mesma em ambos os casos. Mas pela reação que as duas pessoas, por escolha livre e intransferível, tomaram em relação ao acontecido.

6. Moral da História

Não conseguimos viver sozinhos. Somos entes gregários, porque incompletos e imperfeitos. São precisos dois seres para que sejamos gerados. Nem a mulher, nem o homem, sozinhos, conseguem executar a façanha. Precisamos de outros seres para cuidar de nós quando somos pequenos e por um bom tempo depois. Mesmo depois de adquirirmos um razoável grau de independência, precisamos da colaboração de outros para que possamos definir nossos sonhos e transforma-los em realidade. Se precisássemos produzir, sozinhos e por nossa própria conta, tudo o de que precisamos para sobreviver e para alcançar  as coisas que vão além de nossa sobrevivência, não teríamos como perseguir nossos sonhos. Basta imaginar quantas pessoas são necessárias para trazer água, luz, telefone, sinal de TV, sinal de Internet, coleta de lixo e serviços de esgoto até a nossa casa… Basta imaginar quantas pessoas são necessárias para produzir as coisas que gostamos de comer, para plantar o arroz, o feijão, a batata, as verduras e os legumes, para extrair o leite com o qual são feitos os chocolates e os pudins que adocicam os nossos dias… Basta imaginar quantas pessoas são necessárias para compor a letra e a melodia das canções que nos encantam, para escrever as histórias e elaborar os roteiros dos filmes que nos fascinam, para escrever os livros que, além de nos fascinar, são riquíssima fonte de aprendizagem… Não conhecemos a maioria dessas pessoas, mas dependemos delas para poder tocar o nosso sonho de ser ou fazer alguma coisa importante e relevante na vida, ou de fazer uma diferença na vida de outras pessoas, deixando este mundo melhor do que ele estava antes de nós nascermos…

O reconhecimento de que não somos totalmente independentes, mas, sim, interdependentes, está na raiz de tudo 0 que fazemos – mesmo que não nos demos conta do fato.

A maior parte de nós escolhe viver em família, com um cônjuge e com filhos (neste caso, pelo menos por um certo tempo). Ou escolhe viver com alguém que já constituiu uma família anteriormente e que, portanto, trará consigo outras pessoas com as quais precisamos lidar. Uma pessoa solteira e sozinha tem mais liberdade do que uma pessoa casada e com filhos. Mas tem menos oportunidades de desenvolvimento também.

Os trens aqui na Europa trazem ostensivas indicações de que, neles, se espera silêncio dos passageiros. Parece uma limitação indevida de nossa liberdade. Por que eu não posso conversar com quem é meu companheiro de viagem? A resposta é que pode – mas baixinho, para não incomodar quem quer dormir ou quem quer ler um trabalho que exige concentração. Pela mesma razão, não se recomenda o uso do celular para chamadas de voz, ou para ver filmes ou ouvir músicas sem fone de ouvido. Brasileiros não são muito sensíveis a esses imperativos da interdependência. Em geral falam e riem mais alto do que deviam, em lugares em culturas mais civilizadas esperam mais respeito pelos ouvidos alheios. Em casa, em geral falam, riem, cantam, berram, como se fossem a única pessoa a habitar a casa ou mesmo o planeta. Quem pede que façam silêncio ou, pelo menos, não tanto barulho, são taxados de implicantes e ranzinzas. No nível mais macro, quem quer fazer alguma manifestação, qualquer que seja, se acha no direito de interferir com o direito de ir e vir de terceiros, ou mesmo com os ouvidos de terceiros, dada a altura do som que sai de seus potentes carros de som.

Ainda hoje ouvi um pedaço de uma fala de Mário Sérgio Cortella em que ele dizia que passamos a considerar nossos filhos autônomos muito mais cedo do que é recomendável. Vamos sair de férias e indagamos deles aonde desejam ir; vamos almoçar, indagamos deles aonde e o que gostariam de comer. Há muito tempo eles já escolhem que roupas vamos comprar para eles e quando e como eles vão usa-las.

Essa forma de educar, embora alimente a independência prematura dos filhos, não os prepara para a interdependência, para o aprender a conviver…

Uma viagem em família é uma excelente oportunidade para refletir sobre algumas dessas coisas, e para exercita-las: para exercer a tolerância em alguns momentos, e para pedir respeito à sensibilidade alheia em outros (ainda que seja usando um fone de ouvido). Já fomos repreendidos por uma senhora num trem regional aqui de Bruxelles por fazer mais barulho do que ela considerava razoável (barulho apenas decorrente de conversa animada); já fomos repreendidos por tirar fotos em lugares em que isso não era admitido (embora não houvesse nenhuma proibição explícita no local). Alguns de nós gostamos de acompanhar as músicas que estamos ouvindo (com fone de ouvido) cantarolando-as ou assobiando-as… Alguns de nós achamos descabido que locais públicos e mesmo lojas e outros locais privados nos cobrem para usar o banheiro (algo de 0,50 a 2 Euros). No Brasil, lembro-me bem, a mentalidade é outra. O Sr. Dito, um velhinho que cortava o meu cabelo em Salto, teve de fechar a barbearia porque não tinha como instalar banheiro nela… E se o prédio fosse dele, e ele achasse um jeito de instalar o dito banheiro, não poderia cobrar extra pelo seu uso… A gente se acostuma com essas coisas. Em casa, aprendemos que, para beber água, basta tirar um copo do armário, enchê-lo de água, bebê-la e deixar o copo na pia. Alguém vai lava-lo e guarda-lo no lugar. Aqui, sem empregada, temos de aprender a gerenciar essas imposições da interdependência.

É um aprendizado.

Mas tudo vale a pena, quando a alma não é pequena.

Em  Bruxelas, 16 de Janeiro de 2017.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s