20170112: O Vigésimo Primeiro Dia na Europa (Louvain)

Ontem fomos a Louvain – eu, para dizer a verdade, sem saber o que esperar direito. Só sabia que pretendia visitar Louvain porque dois grandes amigos meus (nome abaixo) estudaram na “Université Catholique Louvain” – uma das mais reputadas universidades católicas não só da Bélgica, como do mundo. Eles falavam muito bem da universidade. Estando aqui em Bruxelas, era-me natural querer conhecer o lugar onde estudaram. Mas não fiz nenhuma pesquisa sobre o assunto – e, depois, reconheci que deveria ter feito.

Uma brasileira que encontramos como chefe de trem no sistema ferroviário belga no dia que fomos a Bruges nos disse que não havia muito lá para ver e visitar em Louvain. Mesmo com o desincentivo, mantivemos o local na nossa lista, porque (como disse) queria conhecer  a universidade em que Newton Aquiles von Zuben e Antonio Muniz de Rezende, dois amigos meus, ambos colegas de departamentos meus, durante vários anos, no Departamento de Filosofia de Educação da UNICAMP, fizeram o doutorado, há um bom tempo (fim dos anos 60, começo dos anos 70).

Assim fomos para a cidade de Louvain / Leuven – cerca de 30/40 minutos de Bruxelas por trem.

Vimos uma cidade até muito interessante, com uma área antiga muito bonita e charmosa, com muitas livrarias, onde havia vários prédios indicados como pertencentes à Katholische Universität Leuven (nome infelizmente abreviado como “KU Leuven”). Achei esquisita a predominância do holandês – porque meus dois amigos não falavam holandês, mas, sim, um belíssimo e esmerado francês. Fiquei intrigado. Na cidade, também, como em outras cidades da Belga Flamega (i.e., holandesa), senti uma certa resistência da população em falar qualquer coisas que não o holandês — mas, se fosse necessário, preferiam falar o inglês ao francês…

Ao chegar de volta à nossa “home away from home”, fui pesquisar a questão — e não estava preparado para tanta surpresa…

De cara descobri uma coisa surpreendente, que eu evidentemente não sabia. Talvez devesse ter sabido, por ser professor de História da Igreja, mas como não sou professor de História da Educação na Bélgica, desculpei-me facilmente. O que descobri foi que a história da universidade de Louvain é conturbada, e que, na realidade, há, historicamente, quatro universidades diferentes que, de certo modo, usaram ou ainda usam nomes bastante parecidos, o que causa enorme confusão aos desavisados. Com certa relutância vim a admitir que a confusão, muito provavelmente, é gerada, em parte, meio deliberadamente.

Vou tentar explicar os fatos recorrendo principalmente a vários artigos da Wikipedia, em inglês, mas colocando a questão de forma tão didática quanto sou capaz e seguindo, sempre que possível, o ordenamento histórico.

1. Universitas (Studium Generale) Leuven/Louvain [1425-1797]

[Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Old_University_of_Leuven%5D

Historicamente, esta é a primeira universidade que pode ser chamada de belga. Foi fundada em Louvain e hoje ela não não mais existe, razão pela qual é geralmente descrita como “The (Old) University of Leuven” ou “The (Original) University of Leuven”: embora tenha sido criada em 1425, foi fechada em 1797, durante o período das guerras e do governo francês de Napoleão I. Não há dúvidas quanto ao fato de que ela, como instituição, deixou de existir em 1797.

2. Catholic University of Leuven [1834-1968]

[Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Catholic_University_of_Leuven_(1834–1968)%5D.

Hoje esta universidade, criada em 1834, também não mais existe, pois foi extinta antes de 1968. Evidentemente ela foi criada para ocupar o lugar da antiga universidade, mas uma coisa é a intenção, outra é o fato realmente registrado. Ela foi criada pela Igreja Católica, razão de ter o nome que lhe foi dado, nome esse que, hoje, depois de sua extinção (em termos) em 1968, só é normalmente usado, assim em inglês, para fazer referência a essa instituição que durou 134 anos. Essa instituição, portanto, não é a instituição famosa, criada em 1425, na Idade Média. Quanto a isso deve haver clareza. Nem se identifica, simplesmente, com as duas instituições existentes hoje.

3. Em 1968, quando a Catholic University of Leuven [1834-1968] foi extinta, duas outras instituições foram criadas em seu lugar. Na verdade, é possível até dizer que a universidade criada em 1834 não foi extinta, mas, sim, desdobrada em duas, a saber:

3A. Katholieke Universiteit Leuven
[1968-presente] [https://en.wikipedia.org/wiki/Katholieke_Universiteit_Leuven]

3B. Université Catholique de Louvain
[1968-presente] [https://en.wikipedia.org/wiki/Université_catholique_de_Louvain]

A razão é evidente. Em 1968 já estava caracterizado que a Bélgica Moderna era um país bilíngue (na verdade trilíngue, porque três pequenas regiões falam alemão, mas numericamente pode ser desconsiderado), sua Região Norte falando Holandês e sua Regiào Sul falando Francês. A capital, Bruxelas, fica em uma Terceira Região, equivalente a um Distrito Federal, localizada dentro do território que fala holandês, mas que é bilíngue, falando tanto Holandês como Francês. Assim, do que era uma universidade, fizeram-se duas, uma para cada uma das duas (principais) línguas.

Como Leuven / Louvain fica em território que fala holandês, os prédios e demais facilidades que pertenciam à universidade existente de 1834 a 1968 (a de número 2, aqui), passaram a pertencer à universidade que fala holandês (3A). Os livros foram repartidos segundo a língua entre 3A e 3B. Para a universidade que fala francês (3B), decidiu-se criar um novo campus em Louvain-La-Neuve, que fica na região que fala francês, mas mais perto possível de Bruxelas. A contrução de Louvain-la-Neuve só terminou nos anos setenta do século 20.

A grande questão é: qual dessas duas universidades é a verdadeira herdeira da universidade original, criada em de 1425 (1)   se é que uma delas é? A resposta pode ser uma de duas:

Em tese, nenhuma — porque a universidade 1 foi extinta 220 anos atrás, em 1797.

Em tese, ambas — porque as duas universidades hoje existentes (3A e 3B) resultaram de um desdobramento de uma universidade (a 2) criada no lugar da antiga (a 1).

Mas nenhuma solução tão simples e salomônica como essa é capaz de agradar a uma espécie conhecida como defensora do princípio: “Se é possível complicar, por que simplificar?”

o O o

O início do artigo/verbete “Université Catholique de Louvain” na Wikipedia em inglês [https://en.wikipedia.org/wiki/Université_catholique_de_Louvain] começa fazendo uma certa “desambiguação”, como a Wikipedia chama o fenômeno, apontando para a existência de ambiguidade na expressão “Université Catholique de Louvain”. Eis o que ele diz, para diferenciar as instituições com nome parecido, a saber:

The Université Catholique de Louvain [UCL, French for Catholic University of Louvain, but usually not translated into English to avoid confusion with the Catholic University of Leuven (1834–1968)] is Belgium’s largest French-speaking university. It is located in Louvain-la-Neuve, which was expressly built to house the university. UCL has satellite campuses in Brussels, Charleroi, Mons and Tournai.”

A UCL (3B) firmou sua posição. Ela é a maior universidade de língua francesa da Bélgica — não reivindica ser a maior universidade da Bélgica. Criada em Louvain-la-Neuve, ela tem se expandido por várias outras regiões da Bélgica.

O mesmo artigo/verbete procura esclarecer a posição da UCL (3B) em relação às demais universidades mencionadas.

Em relação às duas primeiras universidades (1 e 2), já extintas, o artigo/verbete/afirma o seguinte.   

Em relação a 1:

The University of Leuven [1] was founded at the centre of the historic town of Leuven (or Louvain) in 1425, making it the first university in Belgium and the Low Countries. After being closed in 1797 during the Napoleonic period, the Catholic University of Leuven was “re-founded” in 1834”. [Notem-se as aspas colocadas ao redor de “re-founded”.

Em relação a 2:

“The Catholic University of Leuven [2], de 1834-1868, “is frequently, but controversially, identified as a continuation of the older institution.”

A tese da universidade 3B, que responde pelo site que estou citando, é que 2 não deve ser identificada como continuação de 1. O site não esclarece as razões, mas uma delas é, evidentemente, o fato de que 2 foi criada como uma universidade católica, enquanto 1 não foi assim criada, porque em 1425 as universidades eram criadas por iniciativas de professores e alunos, não da igreja, em si, que na época, na Europa Ocidental, era apenas uma, as igrejas protestantes não tendo ainda surgido.

Em relação a 3A, a KU Leuwen, o artigo/verbete  da universidade 3B esclarece três coisas:

Primeiro, essa universidade (3A) descende (como ela própria [3B]) da universidade de 1834 [2];

Segundo, do ponto de vista estritamente legal, essa universidade não descende da universidade [1] original, de 1425, porque (entre outras coisas) “in 1884, the university [2 created in 1834] celebrated its 50th anniversary, acknowledging its actual date of foundation” [as being 1834].

Terceiro, a universidade de língua holandesa criada em 1968 [3A] não pode pretender ser a única e verdadeira herdeira, em detrimento de outras instituições, da universidade original de 1834 (2), nem, muito menos da original, de 1425 (1).

Quarto, tanto isso é verdade, que, submetido o assunto à deliberação da Suprema Corte Belga, “Belgium’s highest court, the Court of Cassation, . . .  ruled that the (1834) Catholic University of Leuven cannot be regarded as continuing the old (1425) University of Leuven”.

Quinto, se a universidade 2 não pode ser considerada continuidade de 1, nem 3A nem 3B podem fazê-lo, nem podem acrescentar a data de 1425 depois de seu nome, nem sequer usar o logo gótico indicativo de origem medieval que a universidade 2 passou a usar em 1909.

Assim, em conclusão, a data de fundação de ambas, 3A e 3B, deve ser vista como sendo 1968 e nenhuma das duas pode ser considerada uma continuação, seja de 2, seja, muito menos de 1, não devendo divulgar como data de sua fundação o ano de 1425 nem usar um logo gótico que que a universidade 2 passou a user em 1909, para dar a impressão de que era a continuação da universidade 1.

Reconhece o artigo / verbete, entremente, três verdades:

a)  A universidade 1, de 1425, extinta em 1797, era a universidade mais antiga dos chamados Países Baixos (que incluem a Holanda, a Bélgica e Luxemburgo, também, conhecidos como BENELUX: Belgium, Netherlands e Luxembourg), e por quase quatrocentos anos exerceu bem suas funções, sendo a responsável por tornar a Bélgica um centro de excelência na área de teologia católica, filosofia e ciências humanas;

b) A universidade 3A, embora possa pleitear, como é afirmado no site da universidade, (a) ser “Belgium’s largest university”,  (b) “one of the . . . most renowned universities in Europe”, (c) “to have been based in the city that shares its name, e (d) “to offer degree programmes at campuses in 11 Belgian cities, including Brussels, Ghent and Antwerp”; NÃO PODE REIVINDICAR, COM EXCLUSIVIDADE, como o faz em seu site, o seguinte:

(a) “to have been a centre of learning for nearly six centuries

(b) “to be one of the oldest . . . universities in Europe”.

[Vide http://www.kuleuven.be/kuleuven/, em holandês, e, em inglês, http://www.kuleuven.be/kuleuven/english/%5D.

c) Ela própria, a universidade 3B, pode reivindicar e reivindica (a) “to be Belgium’s largest French-speaking university”, (b) “to be located in Louvain-la-Neuve”, meros 20 km ao sul de Bruxelas, cidade “expressly built to house the university”; (c) “to have satellite campuses in Brussels, Charleroi, Mons and Tournai”; MAS NÃO PODE REIVINDICAR OU SEQUER SUGERIR que ela seja uma das instituições que mais contribuiu para o desenvolvimento da teologia católica no mundo, nem que seja considerada “a mais antiga universidade católica ainda em existência” [como parece sugerir o site https://en.wikipedia.org/wiki/Université_catholique_de_Louvain%5D.

Minha conclusão:

PRIMEIRA:

A atual universidade de língua holandesa (3A) não hesita em reivindicar continuidade histórica (ainda que não legal) com as universidades precedentes, a 2 (de 1834) e a 1 (de 1425). Mas ela parece ir além, reivindicando que sua continuidade é exclusiva, isto é, não beneficia a atual universidade de língua francesa — no que está errada.

SEGUNDA:

A atual universidade de língua francesa (3B) questiona a pretendida continuidade exclusiva da atual universidade de língua holandesa e afirma que ambas são “co-irmãs”, considerando o ocorrido em 1968 como um desmembramento da universidade 2 em duas instituições co-irmãs, que, embora não tenham dividido o local em que operavam, nem os prédios que eram sua sede, dividiram seu acervo bibliográfico, conforme a língua dos livros, entre outros critérios.

Eis como ela descreve, com certo tato, mas de forma que não deixa espaço para equívocos, a divisão de 1968:

“With the democratization of university education already stretching existing structures, plans to expand the French-speaking part of the university at a campus in Brussels or Wallonia were quietly discussed from the early 1960s, but it was not anticipated that the French-speaking section would become an entirely independent university and lose all of its buildings and infrastructure in Leuven. The first stone of the new campus at Louvain-la-Neuve was laid in 1971, and the transfer of faculties to the new site was completed in 1979.”

Em outras palavras: parece que os belgas de fala holandesa deram algo parecido com um golpe em seus colegas de fala francesa.

Assim, a atual universidade de língua francesa (3B) também reivindica (embora sem exclusividade) continuidade histórica (ainda que não legal) com as universidades precedentes, a 2 (de 1834) e a 1 (de 1425). É por isso que reivindica ser uma das instituições que mais contribuiu para o desenvolvimento da teologia católica, sendo parte da “mais antiga universidade católica ainda em existência” – isso tudo, junto com sua “co-irmã”, a universidade de língua holandesa.

É por isso que o site da atual universidade de língua francesa (3B) frequentemente se refere à Universidade Católica de Louvain como se ainda fosse uma só, dividida, apenas por questões linguísticas/logísticas, em duas unidades, uma de língua holandesa, outra de língua francesa, como quando afirma:

“The Université Catholique de Louvain educates around 27,261 students from 127 nationalities in all areas of studies at its different campuses. It has educated a large part of Belgium’s elite and is still considered, with its Dutch-speaking sister, as a centre of excellence in many fields. In 2006, it was ranked 76th in the world universities ranking established by the Times Higher Education supplement (24th in Europe). In the 2011 QS World University Rankings the Université Catholique de Louvain was ranked 125th overall in the world, moving up one place from its position of joint 126th in the 2009 THE–QS World University Rankings (in 2010 Times Higher Education World University Rankings and QS World University Rankings parted ways to produce separate rankings).”

O site da universidade de língua holandesa (3A), por sua vez, parece esforçar-se para demonstrar que só ela incorpora a continuidade histórica. Veja-se a afirmação a seguir:

“Since the 15th century, Leuven, as it is still often called, has been a major contributor to the development of Catholic theology. It is considered the oldest Catholic university still in existence.”

Vou considerar como válida a tese da atual universidade de língua francesa relativa à continuidade histórica (deixando de encarar a questão da continuidade legal). Assim, a Universidade de Louvain, a mais antiga da Bélgica, foi fundada, portanto, em 1425, 75 anos antes de o Brasil ser descoberto, e mais de 500 anos antes da criação da primeira universidade brasileira de fato – mas bem depois da Universidade de Paris, de Bolonha, de Cambridge, Oxford, etc. – e até mesmo da Universidade de Coimbra. Continua até hoje, a despeito da interrupção de 1797 a 1834 e do desmembramento de 1968, a ser uma das mais importantes universidades mundiais, especialmente no tocante ao ensino de filosofia e teologia católica.

Se ainda tiver tempo, antes de voltar para o Brasil, vou visitar Louvain-la-Neuve, embora esteja preparado para encontrar uma cidade não charmosa quanto Louvain-la-Vieille.

Em Bruxelas, 13-15 de Janeiro de 2017.

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