20170108: O Décimo Sétimo Dia (Colônia)

Não sou estudioso de guerras em geral, nem da Segunda Guerra Mundial, em particular. Na verdade, não gosto de histórias sobre guerras – nem em forma de livro, nem em forma de filme. Há outros tipos de histórias que me interessam muito mais.

Mas, depois da visita de ontem a Colônia (Köln, em Alemão, Cologne, em Francês e Inglês), eu, hoje de madrugada, resolvi verificar dados sobre destruição urbana causada na Europa durante a Segunda Guerra, especialmente no Fronte Ocidental e, em particular, pelos aliados – e dentre os aliados, em especial pela Royal Air Force inglesa.

Fiquei com a nítida impressão de que em meados de 1942, quando a guerra avançava para o fim do seu terceiro ano completo (ela começou oficialmente com a invasão da Polônia pela Alemanha em 1 de Setembro de 1939), os aliados (aliados da Inglaterra, bem entendido) estavam:

* OU derrotados e ocupados (como, por exemplo, a França, a Bélgica, a Holanda, etc., que, tendo sido derrotadas no campo de batalha, estavam ocupadas no sentido literal ou territorial do termo)

* OU ocupados em não ser derrotados em outras frentes de guerra (como, por exemplo, os Estados Unidos e a Rússia, que, estavam ocupados em outro sentido do termo, o de ter sua atenção, seu tempo e seus recursos humanos, materiais e financeiros envolvidos em um esforço hercúleo para não serem derrotados em outras frentes (os Estados Unidos no Pacífico, a Rússia na frente oriental da guerra europeia).

Assim, em meados de 1942, aparentemente só sobrava mesmo a Inglaterra para resistir a Alemanha no Fronte Ocidental da guerra europeia.

Alguns caveats precisam, porém, ser registrados:

a) A Alemanha havia assinado com a Rússia, em 1939, dias antes do início da guerra, um tratado de não-agressão: o famoso “Pacto de Não-Agressão Nazi-Soviético” firmado entre Hitler e Stalin (que tanto incomoda os comunistas até hoje). Esse pacto teve um “nome oficial” e um “nome de guerra”: o oficial sendo, em Inglês, “Treaty of Non-Aggression Between Germany and the Union of Soviet Socialist Republics”, e o “de guerra”, “The Ribbentrop-Molotov Pact”, por ter sido assinado pelos Ministros das Relações Exteriores dos dois países, respectivamente, Joachim von Ribbentrop e Vyacheslav Molotov): esse pacto foi assinado em 23 de agosto de 1939, nove dias antes, portanto, do início das hostilidades: em 1 de Setembro, a Polônia foi invadida por pelo menos dois lados: pela Alemanha, vindo do Oeste, e pela Rússia, vindo do Leste. (Vide, https://en.wikipedia.org/wiki/Molotov–Ribbentrop_Pact, para uma descrição do pacto. Vide, para uma descrição do início da guerra com a invasão da Polônia, https://en.wikipedia.org/wiki/Invasion_of_Poland.) No dia seguinte ao da assinatura desse pacto (24 de agosto), a Inglaterra tentou negociar com o Ministro da Defesa da Alemanha, mas foi informada que o pacto não estava em discussão, porque, desta vez, diferentemente do que aconteceu na Primeira Guerra, a Alemanhã não iria tentar conduzir duas guerras ao mesmo tempo, uma no Oeste, outra no Leste. Assim, no dia seguinte (25 de agosto) a Inglaterra e a França assinaram um pacto entre as duas nações comprometendo-se a colaborar na defesa da Polônia. Essa ação aparentemente surpreendeu Hitler, que chegou a adiar a invasão da Polônia (originalmente prevista para 26 de agosto) para dali uma semana, quando de fato aconteceu, em 1 de Setembro. (Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Molotov–Ribbentrop_Pact; e http://www.austinbug.com/ larvaluebug/larry/archlarry7-11.html.) Entre os dias 23 e 25 de agosto de 1939 o cenário para a guerra estava pronto, portanto, havendo uma aliança entre a Alemanha e a Rússia (e outros países de menor potencial bélico).

b) Para a França e países vizinhos (como a Bélgica e a Holanda), inicialmente aliados da Inglaterra, a guerra de certo modo terminou, oficialmente, em Junho de 1940, com sua derrota e a ocupação de seu território pela Alemanha. Depois, só resistência “subterrânea” (Vide  a esse respeito http://www.austinbug.com/larvaluebug/larry/archlarry7-11.html. Vide também o livro Breendonk 1940-1945 [Editions Racine, 2004, no original em holandês, e 2005, na tradução para o francês], que menciono também no parágrafo seguinte, onde se diz: “La Belgique a capitulé le 29 mai 1940. La France tient quelques semaines de plus, jusqu’à ce qu’elle demande l’armistice le 17 juin” [p.17]. Eis o fato curioso que o autor registra na p.16: “La nouvelle de revers français produit curieusement un effet stimulant sur les Belges”… Em outras palavras: sua própria derrota deixou os belgas pessimistas; mas a dos franceses melhorou seus ânimos, pois que lhes mostrou que até o grande inimigo havia caído junto diante dos poderosos alemães!)

[Conforme assinalei em artigo de 5 de janeiro neste blog, no final de Agosto de 1940 a Alemanha tomou posse do forte de Breendonk na Bélgica e o transformou em Campo de Concentração (eufemisticamente chamado de “Campo de Acolhimento” e “Campo de Transição”). Vide  o livro de Patrick Nefors, Breendonk 1940-1945, mencionado no parágrafo anterior, p.22. Conforme se informa na página seguinte do livro, a p.23, os primeiros prisioneiros foram trazidos para o campo em 20 de setembro de 1940. Conforme observei no artigo de 5 de janeiro, os prisioneiros foram patriotas belgas que se opunham à ocupação alemã, judeus, maçons, alguns membros do clero católico (afinal de contas, a Bélgica era um país predominantemente católico e a Alemanha, predominantemente protestante), e, depois da revogação do pacto de não-agressão da Alemanha com a Rússia, e mesmo, em alguns casos, antes, comunistas.]

c) O pacto da Alemanha com a Rússia foi, na prática, denunciado na madrugada de 22 de Junho de 1941, menos de dois anos depois de assinado, quando a Alemanha lançou um enorme ataque às posições russas no leste da Polônia, marcando o início da invasão da Rússia conhecida como Operação Barbarossa (vide https://en.wikipedia.org/wiki/Molotov–Ribbentrop_Pact). Isso quer dizer que, em meados de 1942, quando a Inglaterra começou a bombardear sistematicamente cidades alemãs selecionadas, já fazia cerca de um ano que os russos haviam passado de aliados para inimigos da Alemanha – mas eles pouco podiam ajudar a Inglaterra na Frente Ocidental da guerra, envolvidos que estavam em defender o seu próprio território atacado.

[A Operação Barbarossa fez com que começasse haver perseguição generalizada aos comunistas (trotskistas, esquerdistas em geral) não só na Alemanha mas também nos países ocupados, como a França, a Holanda, e a Bélgica. Nesta, em especial, isso acarretou um aumento considerável de comunistas e assemelhados entre os internados no Campo de Concentração de Breendonk. Vide o livro de Patrick Nefors, Breendonk 1940-1945, mencionado no parágrafo anterior, p.28 e sqq, a seção “22 juin 1941: une journée lourde de consequences”.]

d) Os Estados Unidos entraram na guerra depois do ataque Japonês a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, declarando guerra ao Japão, e, aproveitando a ocasião, também à Alemanha e seus aliados, mas em meados de 1942 ainda estavam muito ocupados com a guerra no Pacífico para poder efetivamente ajudar a Inglaterra na Frente Oeste da guerra na Europa. A guerra americana no Pacífico só veio a ser decidida com as bombas atômicas jogadas em cima de Hiroshima e Nagasaki em 6 e 9 de Agosto de 1945, mais de três anos depois, quando a guerra europeia já estava encerrada – seu fim, para efeitos práticos, é marcado, como Dia VE (“Victory in Europe“), pelo suicídio de Hitler em 30 de abril de 1945, embora o fim oficial tenha ocorrido dias depois. (A esse respeito, vide esses dois sites: primeiro, https://en.wikipedia.org/wiki/Atomic_bombings_of_Hiroshima_and_Nagasaki; segundo https://en.wikipedia.org/wiki/Victory_in_Europe_Day).

Assim, levados em conta esses quatro caveats, a Inglaterra, em meados de 1942, lutava virtualmente sozinha contra a Alemanha na Frente Ocidental (o famoso “Western Front”: vide o famoso filme, All Quiet on the Western Front [1979], com Richard Thomas, Ernest Borgnine e Patricia Neal, detalhes em http://www.imdb.com/title/tt0078753/). Assim, ela tinha de fazer alguma coisa. Sem ter alcançado unanimidade entre suas lideranças no sentido de que esta era a melhor solução, começou a usar a prática de sistematicamente bombardear algumas cidades consideradas estratégicas na Alemanha ou sob o controle alemão. (Vide o artigo bastante detalhado, talvez até excessivamente, em https://en.wikipedia.org/wiki/Bombing_of_Cologne_in_World_War_II.)

A cidade de Colônia, razoavelmente perto da divisa com a Bélgica (de cidade importante só há Aachen / Aix-en-Chapelle entre Colônia e a divisa com a Bélgica) foi a principal vítima dessa estratégia. Em 30 e 31 de Maio de 1942 os ingleses começaram a bombardear a cidade de forma intensa, sistemática e, por vezes, durante vários dias seguidos. (As condições climáticas representaram um fatos de azar para Colônia: inicialmente o ataque havia sido planejado para Hamburgo, onde está situado o maior porto da Alemanha, mas péssimas condições climáticas em Hamburgo levaram à mudança dos planos). (Vide, novamente, https://en.wikipedia.org/wiki/Bombing_of_Cologne_in_World_War_II.)

Reporta-se que 13.010 prédios residenciais foram totalmente destruídos, 6.360 seriamente danificados, e 22.270 levemente danificados. No tocante a edifícios não residenciais, 3.330 foram totalmente destruídos, 2.090 seriamente danificados e 7.420 levemente danificados, num total de 12.840 prédios atingidos, dos quais eram 2.560 instalações industriais e comerciais. Entre os edifícios totalmente destruídos nessa categoria (não-residenciais) havia 7 prédios com instalações administrativas governamentais, 14 prédios considerados públicos (museus, etc.), 7 bancos,  9 hospitais, 16 escolas, 17 igrejas e 10 prédios de interesse histórico. Entre 469 e 486 pessoas foram consideradas mortas pelos ataques, das quais cerca de 410 eram, supostamente, civis. 5.027 foram listadas como feridas e cerca de 45 mil foram deslocadadas, por terem ficado sem residência. (Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Bombing_of_Cologne_in_World_War_II.)

Nas categorias igrejas e prédios de interesse histórico, estava, infelizmente, a magnífica Catedral de Colônia. Sua construção iniciada em meados do século 13 (em 1248) e interrompida mais de dois séculos depois (em 1473), somente foi concluída em 1880, em pleno século 19 (mas seguindo o plano original). Sua inauguração, em 14 de Agosto de 1880, 632 anos depois de iniciada, contou com a presença do Imperador Guilherme I (Wilhelm I). (Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Cologne_Cathedral.)

A Catedral de Colônia é a maior catedral gótica, tem a segunda torre mais alta, bem como as mais altas torres duplas (157m), no Norte da Europa. A razão largura-altura de sua frente a torna a catedral com a fachada mais ampla do mundo. Ela é considerada um dos mais importantes monumentos do Catolicismo Medieval e Alemão, e foi declarada pela UNESCO um de seus World Heritage Sites em 1996. A Catedral de Cologne é, hoje, o monumento mais visitado da Alemanha, recebendo, diariamente, uma média de vinte mil visitantes. (Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Cologne_Cathedral.)

Durante os bombardeios aéreos da Segunda Guerra, a Catedral de Colônia foi atingida nada menos do que quatorze vezes. Severamente danificada, ela, entretanto, continuou de pé, ficando chocantemente destacada numa cidade totalmente arrasada e literalmente achatada no nível do chão. As torres gêmeas tornaram a catedral um alvo facilmente identificável para pilotos aliados. Depois da guerra, reparos foram iniciados imediatamente e concluídos em 1956. Um reparo de emergência feito em 1944 na base da torre noroeste, no qual foi usado material de péssima qualidade, caiu depois da conclusão dos trabalhos de reparação e deixou a torre danificada visível, nessa condição, até 2005, como uma lembrança da guerra. Mas nessa data decidiu-se restaura-la à sua aparência original. (Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Cologne_Cathedral.)

Foi essa a catedral que visitamos ontem. Até as meninas ficaram encantadas, especialmente com seu exterior, que, de certo modo, é mais impressionante do que o exterior da Catedral de Aachen (Aix-en-Chappele), embora o exterior desta tenha formas mais variadas. Do ponto de vista do interior, a de Aachen, embora bem menor, é bem mais impressionante. A vastidão do interior da Catedral de Colônia é comparável à da Catedral de Notre Dame de Strasbourg.

Lamento que a catedral tenha sido parcialmente destruída durante a guerra. Mas compreendo o que levou a Royal Air Force a usar a estratégia que escolheu. E admiro a tenacidade humana de reconstruir uma obra dessa magnitude. Como no caso das Twin Towers de New York, a Catedral de Köln mostra que o ser humano, quando quer, não deixa que o mal prevaleça.

Algumas fotos da fachada e da lateral direita, tiradas por mim ontem, podem ser vistas no Facebook em https://www.facebook.com/eduardo.chaves/posts/10154837810737141. Vejam-se também as belíssimas fotos  encontradas no excelente artigo da Wikipedia, em https://en.wikipedia.org/wiki/Cologne_Cathedral. Oportunamente tornarei disponível no Facebook todo um álbum de fotografias sobre Colônia (incluindo a catedral, naturalmente, e, também, o incomparável Christmas Market ou Weihnachtsmarkt).

Almoçamos comida típica em Cologne (linguiças, salsichas, fígado, etc.), como se pode ver em https://www.facebook.com/eduardo.chaves/posts/10154837059567141.

Em Bruxelles, 9 de Janeiro de 2017 (versão revisada no mesmo dia).

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