20170105: O Décimo Quarto Dia (Breendonk e Antuérpia)

Ontem nosso dia se dividiu em duas partes, mas como “pernas” diferentes da mesma viagem, cujo destino final foi a famosa cidade de Antuérpia (Antwerpen em Holandês/Flamengo, Anvers em Francês, Antwerp em Inglês).

A cidade, que é a capital da província do mesmo nome, fica no cantinho mais distante do nordeste da Bélgica, a beira-mar (Mar Nórdico ou Mar do Norte), sendo a principal cidade da região que é conhecida como Flandres (Vlaanderen em Holandês/Flamengo, Flandre em Francês, Flanders em Inglês). A cidade, em si, tem população ao redor de 500 mil habitantes (que a torna a cidade, em si, mais populosa da Bélgica) e a região metropolitana, de um milhão e duzentos mil (a segunda da Bélgica, atrás apenas da região metropolitana de Bruxelas). A população da região de Flandres é de cerca de seis milhões e quinhentos mil habitantes.

A cidade fica às margens do estuário do Rio Scheldt (em Inglês; Schelde em Holandês/Flamengo e l’Escaud em Francês). O estuário tem um nome próprio, Western Scheldt (em Inglês; Westerschelde, em Holandês/Flamengo), no qual fica o Porto de Antuérpia, o segundo maior porto da Europa (atrás apenas do de Roterdã, ficando à frente de portos famosos como o de Hamburgo, Marselha e Amsterdã), e entre os maiores vinte do mundo. Pouca gente o diria, assim de pronto.

No fim do século 15 e durante o século 16 Antuérpia se tornou o mais rico centro comercial e um dos mais importantes centros financeiros da Europa, centralizando principalmente o comércio europeu do açúcar (comprado de fornecedores portugueses e espanhóis) e de metais preciosos, em especial prata e ouro (também importados da América do Sul e da África). Segundo Fernand Braudel, a Antuérpia foi, no século 16, o centro do comércio internacional de toda a Europa.

Na complicada geografia daquela época, a cidade foi parte do Reino Unido dos Países Baixos, que fazia parte do Sacro Império Romano (na época conhecido como o Império Austro-Húngaro, governado pelos Habsburgos austríacos), passando a integrar a Bélgica em 1830, quando a Bélgica se tornou um país autônomo e independente, separando-se dos demais Países Baixos (entenda-se Holanda).

Quando Napoleão dominou a Europa, no início do século 19, aumentou e aperfeiçoou o porto de Antuérpia, procurando torna-lo o maior porto do mundo, para reduzir a importância do porto de Londres.

Tudo isso explica a suntuosidade de alguns prédios do centro velho de Antuérpia. Apesar de, no século 19, quando surgiu o transporte ferroviário, a partir do segundo terço do século (1830, exatamente quando Antuérpia passou a ficar sob o controle da Bélgica), a cidade já estar em relativo declínio, a estação ferroviária da cidade é uma das mais formidáveis e magníficas que já vi. Algumas fotografias o comprovam (serão anexadas a seguir). Esclareça-se que os trens chegam em três níveis (andares) diferentes, em plataformas laterais no segundo e terceiro andares, ficando o maior número de plataformas reservado para o andar térreo.

Para cutucar o orgulho brasileiro, quase cem anos antes do Rio de Janeiro, a cidade de Antuérpia hospedou os Jogos Olímpicos de Verão. Isto foi em 1920, em pleno início dos “roaring twenties”.

Tudo isso explica nossa visita a Antuérpia – mas também é parte da razão da outra parte de nossa viagem de ontem (a parte inicial).

Por ser uma cidade tão importante, do ponto de vista financeiro, comercial e mesmo industrial (a região de Flandres é um centro industrial importante), o governo belga, quando assumiu o controle de Antuérpia, a partir de 1830, decidiu proteger a cidade de ataques de potenciais inimigos: em especial a França, ao sul, e, depois de 1870, quando houve a sua unificação (a poderosa Prússia integrando os reinos mais a oeste e ao sul), a Alemanha. Para tanto começou a construir uma rede de fortificações e trincheiras na região, que protegeria a cidade e a região de Antuérpia de ataques. Em especial quando da guerra entre a Alemanha e a França de 1870-1871, os belgas ficaram receosos de ataques, e aumentaram o número e a segurança de suas linhas de defesa, na esperança de manter a neutralidade entre os dois grandes poderes que os ameaçavam. Isso não impediu, porém, que as forças alemãs tomassem a cidade (como o fizeram também com as cidades francesas da Alsácia-Lorena, mais ao sul, na região de Estrasburgo).

Passada a guerra, a região voltou ao controle belga, mas estes aprenderam a lição (em termos). Passaram a construir mais fortes e trincheiras. Entre os fortes, construiu o de Breendonk, o maior e, supostamente, o mais seguro, na cidade de Willebrök, entre Bruxelas e Antuérpia.

O forte foi usado, durante a Primeira Guerra Mundial, como quartel-general e “reduto final” das forças armadas belgas, ficando o estado maior dessas forças armadas e o próprio rei estacionados nele. As forças alemãs, entretanto, mais interessadas em tomar Paris, em grande parte ignoraram o norte da Bélgica num primeiro momento. Quando resolveram atacar Breendonk, porém, o tomaram com relativa facilidade.

Mas foi durante a Segunda Guerra Mundial que o forte ficou tristemente famoso. Logo em 1940 as forças alemães tomaram o forte, que mantiveram sob seu controle durante quase seis anos, até o final da guerra, em 1945, transformando-o num verdadeiro Campo de Concentração, em que internaram opositores belgas à dominação alemã (a “resistência belga”), judeus, e, depois de rompido pela Alemanha, em Abril de 1941, o pacto nazi-soviético de Agosto de 1939, comunistas.

O Campo de Concentração está aberto a visitas, como museu do genocídio perpetrado pelos alemães, muitas vezes com a colaboração dos belgas flamengos, contra a população belga, especialmente aquela que ativamente resistiu à ocupação alemã, e aquela composta de judeus belgas (fortemente concentrados no centro financeiro que era Antuérpia) e de comunistas belgas, sem mencionar os nacionais de outros países deportados pelos alemães para Breendonk (como o faziam para outros campos de concentração, no Leste Europeu).

Fomos lá ontem cedo, ficando até três da tarde quase… Uma visita completa e detalhada, ouvindo todos os áudios, leva mais de três horas. Comprei um livro sobre Breendonk, de Patrick Nefors, chamado Breendonk 1940-1945 (Editions Racine, 2004 [original em holandês], 2005 [tradução para o francês]).

Em Bruxelles, 6 de Janeiro de 2017.

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