20161229: Meu Trem

Eis que vivemos a primeira emoção em terras belgas para eu contar aqui no Blog…

Hoje estivemos em Gent. Fiquei encantada com o Mercado de Natal daquela cidade. O melhor até agora! Mas não é sobre isso que eu vou falar neste post, algo que o Edu deve fazer em breve. Vou contar sobre a volta para casa.

Antes, porém, farei a contextualização da história…

Temos utilizado os passes Eurail em todos os passeios que temos feito. Temos três passes: um duplo, para viajantes adultos que viajam juntos (o Edu e eu), e outros dois individuais, para jovens de até 25 anos (as meninas). Ao entrar no primeiro trem registramos, no formulário que vem junto com os passes, a cidade de origem e a cidade de destino. Invariavelmente, em algum momento da viagem (normalmente no começo), o fiscal do trem nos aborda e verifica nossos passes. Às vezes ele faz uma anotação ou um furinho ao lado do trecho registrado. Entretanto hoje, excepcionalmente, não fomos abordados em nenhum dos dois trens que tomamos na ida e nem nos dois primeiros trens da volta.

O primeiro da volta, talvez por ter sido um trecho muito curto, de apenas uma estação (entre Gent Dampoort e Gent Sint Pieters), não houve sequer tempo para sermos abordados. Este foi, inclusive, o trem mais lotado que pegamos até agora. Achei até que teríamos de ir de pé, mas deu para sentarmos. No segundo trecho, o mais longo da viagem de volta para Bruxelas, nos deparamos com uma fiscal de trem brasileira, de Recife, filha de um belga com uma brasileira, e que vive na Bélgica desde os 14 anos. Com toda a simpatia típica brasileira ela nos deu tantas dicas preciosas de viagem durante o trajeto entre as estações Gent Sint Pieters e Brussel Zuid, que acho que acabou não tendo tempo de pedir nosso passe para fiscalização.

No terceiro e último trecho de trem, da estação Brussel Zuid até Brussel Luxemburg, entretanto, a história foi diferente.

Logo ao embarcar no trem, ainda na estação Brussel Zuid, notamos que o fiscal desse trem era daquele tipo bravo. Ele fechou a porta do trem na cara de uns rapazes que tentaram embarcar após ele soprar o apito avisando que as portas seriam fechadas. Ele não apenas fechou a porta na cara dos rapazes, como também fez uma expressão muito brava, para deixar claro que naquele trem ninguém desrespeita o fiscal.

A estação seguinte era Brussel Centraal. Segundo o Google Maps nosso hotel fica a 650 metros dessa estação. Já fizemos esse trajeto à pé algumas vezes. Porém, a estação Brussel Luxemburg fica a 450 metros do nosso hotel. Se permanecêssemos no mesmo trem, ele daria uma volta, mas, três estações à frente, chegaríamos a esta estação, e economizaríamos 200 metros de caminhada. A Priscilla e eu votamos por permanecer no trem, não tanto pela caminhada, mas pelo frio absurdo que está fazendo hoje, do tipo que corta até a alma. Mas o Edu e a Bianca disseram preferir descer na estação central.

Ao lado da estação Brussel Centraal tem um Carrefour Express, que temos utilizado para abastecer o frigobar do nosso quarto no hotel. Então sugeri que o Edu e a Bianca descessem na estação central e passassem no mercado para comprar água, coca zero e chocolates, que estavam faltando em nossa geladeira, e eu e a Priscilla seguiríamos até a estação mais próxima do hotel. Eles concordaram. Ficamos todos satisfeitos.

Toda essa negociação foi muito rápida! Chegamos à estação central, nos despedimos brevemente e eles desceram.

Acontece que, tão logo a porta do trem se fechou, eu percebi que o Edu tinha descido com os nossos passes do trem… Fiquei apavorada! Como eu iria explicar ao fiscal bravo do trem que estávamos viajando sem passes!

Compartilhei meu medo, então, com a Priscilla, que também ficou apavorada. Começamos a rir de nervosas… Cada vez que o fiscal passava por nós, suávamos frio. Torcemos para não ser abordadas, como não havíamos sido durante todo o dia. Faltavam apenas mais duas estações (Brussel Noord e Brussel Schuman). Desceríamos na terceira (Brussel Luxemburg).

Enquanto eu fazia aquela cara de culpada, a Priscilla até chegou a registrar no SnapChat minha expressão nesse vídeo:

Chegamos à estação Brussel Noord. O fiscal desceu, como fazia em todas as estações. Nós duas ficamos torcendo para sair logo dessa estação, passar pela outra e, finalmente, chegar à nossa. O fiscal soprou o apito, e retornou ao trem. Passou por nós (frio na barriga), abriu uma portinha no final do nosso vagão e entrou. De repente saiu de lá com a maquininha que eles utilizam quando fazem a fiscalização dos passes (novo e maior frio na barriga). Passou por nós e foi para outra parte do vagão. Em seguida ele voltou e pronunciou a tão temida frase: “Os tickets, por favor”.

Pânico total! A Priscilla e eu nos entreolhamos sem saber direito o que dizer.

Eu virei para ele e disse

– Desculpe. Nós temos um problema…

Ele, então, disse

– Vocês precisam ter tickets para andar de trem.

Eu respondi

– Eu sei, mas é que meu marido…”

Então eu pedi para a Pri explicar, com o inglês dela, que é melhor do que o meu, o que havia acontecido. Ela falou sobre o Edu, a estação central, etc. O olhar dele não era amistoso. Então ele disse:

– No MEU TREM as pessoas precisam de tickets para andar.

– Eu sei. Sinto muito por essa situação… – Respondi.

– Em que estação vocês vão descer? – Ele perguntou.

– Em Brussel Luxemburg – A Priscilla respondeu.

– Normalmente, no MEU TREM, em uma situação como essa, os passageiros pagam uma multa de nove Euros cada, totalizando dezoito Euros.

A cena dramatizada por mim na sequência, para o SnapChat da Priscilla, ficou assim:

Após pronunciar essa frase, com um olhar fuzilante, ele virou as costas e saiu caminhando em direção à outra parte do vagão.

Pense em alguém muito envergonhada… Melhor, imagine a culpa em forma de gente… Éramos mais ou menos assim… Queríamos sair desesperadamente daquele trem! Ficamos em um estado de nervos estranho. Tentávamos rir da situação (e rimos muito), mas ao mesmo tempo estávamos tão tensas e envergonhadas, que estava até doendo a musculatura da nossa face…

O trem parou na estação Brussel Schuman, seguiu em frente e finalmente anunciou a aproximação com a estação Brussel Luxemburg. Nos levantamos rapidamente e nos posicionamos à porta. Quando o trem estava se aproximando da plataforma, o fiscal apareceu e veio caminhando em nossa direção. Mal o trem parou, abrimos a porta e saltamos. Ele saiu logo atrás de nós. Certamente foi verificar se íamos, mesmo, descer na estação que havíamos dito que desceríamos.

Demos alguns passos, eu virei para trás e disse humildemente “Merci”. Ele quase esboçou um sorriso e acenou com a cabeça, como que respondendo ao meu agradecimento. Ele foi gentil, tenho que admitir. À maneira dele, mas foi.

Podíamos ter ficado sem essa… Mas, nesse caso, eu não teria essa história para contar…

Em Bruxelas, 29 de Dezembro de 2016.

Anúncios

2 comentários sobre “20161229: Meu Trem

  1. Que lindo e divertido texto, meu amor. Obrigado por nos brindar com ele. Sinto por ter saído do trem com os passes. Mas, por outro lado, se você e a Pri não tivessem sucumbido à preguicinha de andar 200m mais, isso não teria acontecido, né??? Um beijo.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s