20161228: Uma Reflexão Matinal no Sexto Dia

Fiquei pensando, hoje cedinho, enquanto tomava banho, sobre a denominação da igreja Metodista que encontramos ontem: “Église Evangelique Methodiste” – Igreja Evangélica Metodista. Ela me fez lembrar das placas que meu pai, pastor desbravador de territórios e plantador de igrejas, mandava fazer (ou às vezes ele próprio fazia) para pendurar na frente dos salões que ele alugava para que operassem como templos das igrejas pioneiras que ele criava. Elas traziam sempre a designação “Igreja Cristã Presbiteriana”. Quando assinava seus artigos para o Puritano ou o Arauto Cristão, ele assinava “Oscar Chaves – Ministro do Evangelho”. Hoje em dia as designações das diversas denominações protestantes ou de suas igrejas locais raramente são suficientemente explicativas. Para termos algo próximo disso, as igrejas locais teriam de se designar mais ou menos da seguinte forma (uso a minha igreja como exemplo):

Templo da Primeira Igreja Cristã Evangélica Presbiteriana Independente de São Paulo

O termo “templo” indica que o edifício é um local de cultos religiosos, não um mero clube de serviços, ou, ainda, uma empreendimento comercial ou um salão de bailes.

O termo “primeira” indica que há mais de uma instância dentro da mesma organização.

O termo “Igreja Cristã Evangélica Presbiteriana Independente”, embora longo e meio canhestro, designaria a organização, indicando que ela é uma igreja (não uma sinagoga ou uma mesquita ou um terreiro) do gênero cristão (não judaico, ou muçulmano, ou budista, etc.), da espécie evangélica (i.e., protestante, isto é, descendente da Reforma Protestante do século 16), da sub-espécie presbiteriana (ramo das igrejas evangélicas ou protestantes iniciado por João Calvino e organizado por John Knox), da sub-sub-espécie independente (sub-ramo que indica que há outras igrejas evangélicas presbiterianas que não se qualificam como independentes, esta sendo uma categoria tipicamente brasileira criada em 1903, etc.).

Por fim, vem a indicação da cidade: de São Paulo.

Ainda restam problemas. Há quem distinga entre protestante e evangélico e se considere protestante sem se considerar evangélico (ou vice-versa), termo que aparentemente emprestaria, na mente de alguns, uma conotação meio entusiástica ou avivada à instituição em questão (como se dizer “evangélico renovado” ou “evangélico avivado” fosse um pleonasmo).

De qualquer forma, a designação da Igreja Metodista que encontramos aqui em Strasbourg não esclarece, para os que não conhecem bem o intrincado mundo das denominações cristãs evangélicas (protestantes), que se trata de uma igreja cristã e evangélica (protestante). A denominação que meu pai usava indicava que se tratava de uma igreja cristã, especificava que era presbiteriana, mas não indicava que era evangélica (protestante). Em nenhum dos dois casos se esclarece que o referido templo é da igreja de Strasbourg ou de Lucélia.

E assim vai. Parece bobagem preocupar-se com isso, mas é surpreendente quantas pessoas, até mesmo membros de uma determinada igreja, desconhecem sua “árvore genealógica”, por assim dizer, ignoram que sua igreja faz parte da  mesma espécie / sub-espécie que outra, dentro do mesmo gênero / da mesma sub-espécie, etc. Pior ainda, é o fato de que, até mesmo entre os alunos de nossos seminários, há gente que considera que a Igreja Adventista do Sétimo Dia ou a Igreja dos Santos dos Últimos Dias (Mórmons) não são evangélicas / protestantes ou nem mesmo cristãs. A ignorância geral fica maior quando se trata da Igreja Anglicana ou da Igreja Ortodoxa Oriental (Grega, Russa, etc.). Para confundir ainda mais, a igreja que se denomina “Igreja Católica Apostólica Romana” não faz nenhuma referência, em sua denominação (no sentido de nome) que se trata de uma Igreja Cristã. O qualificativo “apostólico” deixou de fazer sentido. Ninguém com bom senso acredita, hoje, que os sacerdotes dessa igreja tenham sido todos ordenados por bispos ou outros sacerdotes que foram, por sua vez, ordenados, em uma linha que leva, sem qualquer quebra, até aos apóstolos, e, através deles a Jesus. Em outro detalhinho que me implica, o importante seria Jesus, não os apóstolos, não é verdade? Estes só teriam importância porque foram escolhidos por aquele. Por que não chamar a igreja de jesuítica em vez de apostólica? E a questão da catolicidade? Quer dizer o quê, hoje? Que a igreja é universal? Mas há outras igrejas que pretendem ser universais também. Na verdade, com a divisão de 1054, a Igreja Romana deixou de ser universal (ou católica), ficando apenas Ocidental, isto é, meio universal ou meio católica.

Tenho plena clareza de que posso estar dizendo alguma asneira nessas reflexões que apenas o fato de que eu não tomei ainda um gole de café pode explicar… Se estiver, o bispo Paulo Ayres Martins, metodista, não deixará de me chamar a atenção.

De qualquer maneira, bom dia a todos: irmãos, primos, até cunhados e concunhados, nesse mundo intrincado do parentesco religioso. Mesmo eu, que mexo com isso profissionalmente (embora aposentado), fico meio perdido com Igrejas do Evangelho Quadrangular ou Pentagonal — ou, pior ainda, Igreja da Bola de Neve, que nem referência ao Evangelho faz. Esse negócio de quadrangular e bola parece mais coisa de futebol do que de religião.

Em Strasbourg, 28 de Dezembro de 2016

PS: Afterthought

No final dos anos cinquenta, William Warren Bartley III, que veio a ser meu orientador de Doutorado, escreveu um artigo chamado “I Call Myself a Protestant” (Harper’s Magazine, Dezembro de 1959). [A Harper’s oferece acesso ao artigo em .pdf por um absurdo 6,99 USD: http://harpers.org/archive/1959/05/i-call-myself-a-protestant/.%5D A maior parte das pessoas diria que ele não era mais nem protestante nem cristão.

Nos anos oitenta, o Rubem Alves publicou um artigo meio autobiográfico em que ele justifica o fato de ainda se considerar — não cristão, nem presbiteriano, mas protestante. Publiquei o texto desse artigo chamado “Confissões de um protestante obstinado”  (clique no título para ler). A essas alturas a maior parte das pessoas diria que o Rubem não era mais nem protestante nem cristão.

Acho curiosa essa fixação no termo “Protestante” mesmo por parte de pessoas que, aparentemente, não teriam mais nenhuma boa razão, além das afetivas, e estas nem sempre eram boas, para continuar aderindo ao termo.

Bartley nasceu em 1934 e Rubem em 1933 – ambos cerca de nove ou dez anos antes de mim. O primeiro morreu em 1990 (com 55 anos) e o segundo, em 2014 (com quase 80 anos). A convivência com ambos foi muito importante em meu desenvolvimento intelectual. Ambos me ajudaram a limpar a minha mente de um monte de tralha que só atrapalhava.

EC

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