20161228: O Sexto Dia (Strasbourg e Retorno)  

De manhã, acabamos desperdiçando boa parte do dia, dormindo. As femininas, pelo menos… O meu despertador (telefone Samsung Note 4) me acordou às 6h, tomei banho, e fiquei fuçando no computador até 8h30. Foi nesse tempo que escrevi o primeiro artigo do dia, já publicado (“20161228: Uma Reflexão Matinal no Sexto Dia”, em https://tripeu20162017.wordpress.com/2016/12/28/20161228-uma-reflexao-matinal-no-sexto-dia/). Em seguida, por volta das 8h30, comecei a acordar minhas companheiras de viagem, e, quando vi que estavam acordadas, mas iam levar mais de uma hora para ficar prontas, resolvi sair para dar uma volta na cidade durante uma hora e pouco. Voltei às 10h15. Ainda não estavam prontas. Quando ficaram, saímos, deixamos a bagagem (mochilas) guardada no hotel, e fomos tomar café no McCafé, que fica ao lado do hotel – onde o atendimento foi mais demorado do que devia. Por iniciativa da Bianca, testamos o sistema de fazer e pagar a encomenda em um totem e só entào ir ao balcão. O problema, depois, foi a demora de quase 20 minutos para que aprontassem os três croissants, que precisaram ser assados, aparentemente do zero… Mas, de resto a experiência foi muito bem sucedida. Parabéns à Bianca pela ousadia de inovar e empreender.

Terminado o café, fomos rodar pelas bandas da Petite France, o lugar que, na minha opinião, é o mais bonito de Strasbourg. Por volta das 13h30 almoçamos, num restaurante novo num prédio antigo, e rodamos mais um pouco. Cerca das 15h30 nos dirigimos para a estação e ficamos na Lounge da SNCF (Société Nationale des Chemins de Fer) por cerca de uma hora. Tomamos café, chocolate, e comemos uns chocolatinhos deliciosos ali. Cerca de 15 minutos antes do horário de saída do trem, rumamos para a plataforma e embarcamos. O trem de Strasbourg para Metz saiu na hora. Levaria quase duas horas, parando em oito estações: Brumath, Saverne, Lutzelbourg, Reding, Sarrebourg, Morhange, Remilly e Metz.

Mas aí começaram os problemas.

Na estação de Reding desceu quase todo o mundo e o trem ficou parado mais do que o normal, com nosso vagão virtualmente vazio. Mas o trem foi em frente e parou na estação seguinte, a de Sarrebourg. Ali ficou parado novamente mais tempo do que o normal e, quando saiu, foi na direção de onde havíamos vindo! Isso nos assustou, a mim particularmente, que, em geral, sou estressado em situações desse tipo. Nenhuma alma à vista no que dizia dispeito a chefes de trem ou outros funcionários da rede ferroviária francesa. E o trem andando devagarzinho, parando, recomeçando… Finalmente, parou na penúltima estação (Remilly) às 18h30 – hora em que deveria já estar chegando em Metz. Tínhamos 16 minutos para baldear para o trem que iria de Metz a Luxembourg. Para encurtar a história, o trem parou na estação de Metz faltando dois minutos para o outro sair, em plataforma diferente — felizmente, do lado (mas sendo necessário descer as esquedas e subi-las de novo). Corremos com toda a velocidade de que éramos capazes. Entramos no trem de Luxembourg e, em seguida, a partida foi anunciada e ele saiu. E estamos aqui, agora dentro do trem, mas meio esbaforidos. Por pouco.

De Metz a Luxembourg, nesta rota (que não é a do TGV), o trem para em nove estações: Metz Nord, Woippy (isso lá é nome de cidade?), Mazieres les Metz, Hagondange, Uckange, Thionville, Hettange Grande, Bettembourg (LX), Luxembourg (LX). As estações sem LX são FR.

Devemos chegar em Luxembourg às 19h46 e tomar o trem para Bruxelles às 20h09, chegando ao destino às 23h04. Iremos a pé até o hotel, que dista cerca de 4-5 quarteirões da estação. Espero que tudo dê certo, porque fiquei estressado em Metz.

De Luxembourg a Bruxelles as estações são as mesmas já mencionadas em outro post (de ontem), na ordem inversa: Arlon, Marbehan, Libramont, Jemelle, Marloie, Ciney, Namur, Gembloux, Ottignies, Bruxelles-Station Luxembourg.

Nessa viagem, as duas meninas (na verdade, jovens de 20 e 18 anos) têm atribuições distintas e bastante específicas. A Bianca (20) cuida de programação: ela pesquisa atrações interessantes nas cidades que vamos visitar. As cidades a serem visitadas foram escolhidas de comum acordo, cada um podendo escolher por volta de duas. A Priscilla (18) cuida do transporte: os trens que devemos tomar, onde devemos baldear, que hora devemos sair, etc. A Paloma cuida das duas e da boa ordem da família, tentando fazer com que o excesso de convivência (simplesmente 24 horas por dia), num espaço restrito (uma suite simples de um hotel, quatro assentos num trem, etc.) não faça os nervos ficarem à flor da pele… Eu cuido das finanças, procurando evitar que os custos corram “over budget”… Essas tarefas todas colocam a convivência em stress ao decidir sobre onde e o que comer, sem incorrer in “budget overrun”, etc. Até aqui temos conseguido conviver bem, com uma ou outra exceção, inclusive minha, que, por vezes me irrito. Penitencio-me publicamente e peço desculpas às minhas companheiras queridas de viagem…

Feito isso, tento explicar a razão de minha eventual irritação. Talvez a principal divergência entre mim e as meninas (Paloma included) está no fato de que eu, quando viajo, coloco ênfase prioritária em conhecer a cidade, tirar fotos, etc. Tomar café da manhã, almoçar, jantar, tudo isso para mim é perda de tempo (embora saiba que preciso me alimentar). Não consigo entender como é que se pode gastar quase uma hora para tomar café da manhã num McDonald’s. Nem como é que se pode ficar dormindo até tarde quando há tanto coisa bonita para ver lá fora. É isso. É uma diferença de outlook. Assunto findo.

Na próxima perna da viagem, comeremos alguma coisa e eu tentarei terminar este artigo.

o O o

Já estamos no terceiro trem do dia… Mas ele não partiu ainda. Oops… Acabou de partir. Três horas até Bruxelles, com aquele número enorme de paradas.

Amanhã, temos plano de ir até Amsterdam, num “bate-e-volta”. Sem TGV, leva cerca de 3h e meia, sem trocar de trem. Será nossa terceira cidade de canais em seguida (depois de Bruges e Strasbourg). Acho lindas as cidades com canais, embora fique imaginando que seria perigoso viver em uma, por causa do risco de inundações. Em Veneza, quando estivemos lá, em 2013, vimos várias casas em que a água havia ocupado totalmente o andar térreo. Até mesmo a Igreja da Praça de San Marco tinha partes inundadas, em que a gente andava sobre passarelas elevadas. A inundação colocava em risco os mosaicos do piso da igreja – embora isso não fosse minha preocupação maior. Fico preocupado mesmo é com a perturbação da vida de uma família que tem a casa inundada e perde tudo, ou boa parte, daquilo que amealhou por anos, boa parte do que não pode ser simplesmente substituído como se substitui um fogão ou uma geladeira… Assim, acho bonito ver, fotografar, lembrar as cenas lindas de uma cidade com canais, mas prefiro morar num lugar bem acima do nível da água!

Amsterdam também já conheço. Estive lá em Setembro de 2003, logo após meu sexagésimo aniversário, que passei em Salzburg, na Áustria. Foi lá que fiquei sabendo que meu netinho Guilherme havia nascido, prematuro de seis meses, no dia 9. Logo depois que eu cheguei de volta em casa no Brasil, ele morreu (no dia 15), por ter nascido sem estar totalmente pronto para enfrentar a vida fora do conforto do útero. Por isso, minhas lembranças de Amsterdam não são as melhores. Ficamos, na verdade, três dias na cidade, num hotel ao lado do aeroporto, funcionários e assessores da Microsoft Corp numa reunião de planejamento do Programa Partners in Learning para a divisão EMEA (Europe, Middle East and Africa). Só fomos à cidade duas noites: uma para um jantar simples, a outra para um jantar com um show de comédia, em que os comediantes ridicularizaram os Estados Unidos (de onde era a maioria dos participantes), o Cristianismo, a Igreja Católica, o Papa. Sobrou muito pouco que não foi objeto de piadas bastante cáusticas e ofensivas, num clima que passou quilômetros de distância do politicamente correto a que o pessoal participante do jantar estava acostumado.

Voltando ao presente, amanhã ficaremos lá só cerca de seis horas, para dizer que fomos e que as mulheres ficaram conhecendo o centro da cidade.

Há uma filial da Escola Lumiar na Holanda, que a Paloma e eu gostaríamos de ter tempo de visitar, mas não vai dar, pelo menos desta vez. Também gostaríamos de poder ir até Giethoom (acho que o nome é esse), uma pequena cidade de canais que fica ao norte de Amsterdam, mas que é de difícil acesso – o trem não chega até ela, seria necessário, além do trem, pegar um ônibus ou alugar um carro, etc. Fica na lista de desejos (wishlist). Eu também gostaria de poder parar em Rotterdam, terra de Erasmo, o humanista dos séculos 15 e 16, que eu admiro muito (muito mais do que admiro Lutero, que se engajou numa polêmica pouco elegante com ele, a propósito do livre arbítrio). Erasmo havia escrito um livro chamado De Libero Arbitrio, e Lutero o criticou de forma extremamente deselegante, violenta mesmo, com seu livro De Servo Arbitrio, em que argumentava que, com a queda, e o consequente pecado original, transmitido a todos os descendentes de Adão e Eva, a vontade humana (o arbítrio humano) havia sido corrompida de tal maneira que ninguém era capaz de sequer dar um passo inicial na direção de sua salvação. Se alguém vai ser salvo, Deus tem de se encarregar de tudo, até mesmo de colocar a fé no coração da pessoa. Está aí a raiz da doutrina da predestinação, que, posteriormente, Calvino desenvolveu com lógica implacável. Erasmo negava a total corrupção da vontade humana na queda. Ele acreditava que o ser humano, apesar do pecado original, ainda seria capaz de buscar a salvação, ou, no mínimo, de tomar a iniciativa de aceita-la como presente divino. Essa controvérsia não era nova. No século 5, Pelágio e Agostinho já haviam se envolvido na mesmíssima controvérsia, Pelágio representando o papel de Erasmo e Agostinho o de Lutero. Até hoje essa controvérsia ainda é objeto de discussões até mesmo no Facebook, entre Arminianos (na posição de Pelágio e Erasmo) e Calvinistas (na posição de Agostinho e Calvino). Mas tudo isso porque não vamos poder parar em Rotterdam… 🙂

Rotterdam também foi uma das cidades em que morou o famoso filósofo Baruque Spinoza, judeu nascido em Portugal, de onde teve de fugir. Mas a cidade terá de esperar uma próxima viagem.

Vou parar por aqui.

Em Strasbourg, 28 de Dezembro de 2016

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s