20161227: Strasbourg, Martin Bucer e o Protestantismo

Encontramos hoje aqui em Strasbourg uma Igreja Metodista. Eis a  foto:

igreja-metodista-de-strasbourg

É um prédio discreto, quase humilde, sem adornos, torres, sinos, portas de maneira de muitos metros de altura, janelas com vitrais impressionantes, sem feição de igreja, que, pode parecer, fica até humilhada diante das enorme catedrais e matrizes góticas adornadas ao exagero que a gente encontra pela cidade — das quais a Cathedrale de Notre  Dame de Strasbourg é de longe a mais impressionante. Ou veja-se:

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Martin Bucer (ou Butzer) foi o responsável pela introdução de ideias e ideais de reforma na cidade e na região — em toda a Alsácia. Nascido em 11 de novembro de 1491, em Sélestat, e morto em 28 de fevereiro de 1551, em Cambridge, na Inglaterra, perto de completar 60 anos, Bucer foi uma das pessoas de proa da Reforma Protestante. Ele implantou em 1523 o trabalho reformado em Strasbourg e o conduziu por vinte e seis anos, até 1549. Dos reformadores, talvez tenha sido o mais cordato, tentando facilitar o diálogo entre Martinho Lutero (que ele admirava, mas que era, de certo modo, teimoso como uma porta, e meio estourado e estovado) e Ulrico Zwinglio, de Zürich (que era pelejador e guerreiro, tanto que morreu moço, em batalha contra os católicos.

João Calvino estava indo para Strasbourg em 1536, para encontrar Bucer, quando foi literalmente intimado por Guilherme Farel (1489-1565), responsável pela “protestantização” dos cantões de língua francesa da Suíça, com sede em Genebra, a ficar nesta cidade e assumir o controle da igreja protestante ali, não totalmente implantada, e, de certo modo, da própria cidade, modificando suas ideias e crenças e colocando no eixo, ou moralizando, sua conduta. Isso em 1536, como disse. Calvino era meio medroso. Quando Farel lhe sugeriu o que é que Deus faz com aqueles que querem fugir da missão que Deus reservou para eles, Calvino decidiu ficar. Entusiasmado com a aquisição, Farel e Calvino talvez tenham ido com muita sede ao pote e acabaram expulsos da cidade em 1538, sob pressão da população, que até estava disposta a aceitar as novas doutrinas, mas não a mudar o seu comportamento na linha imposta por Calvino. Para onde foram Farel e Calvino? Para Strasbourg, onde Calvino finalmente encontrou Bucer e trabalhou com ele, ganhando uma experiência muito necessária e que lhe valeu para o resto da vida — tanto como pastor como teólogo. Calvino não era nem nunca foi ordenado pastor, e nunca estudou teologia formalmente na universidade. Ele era advogado / jurista por formação, seguindo a vontade de seu pai e, por um tempo, até que o pai morreu, deixando de lado seus verdadeiros interesses, que eram teológicos. Assim, Bucer, além do trabalho feito em Strasbourg e na região, foi também o importante mentor de Calvino, permitindo que este, ao voltar para Genebra em 1541, pudesse ocupar suas funções com convicção e firmeza e levar adiante as ideias e os ideais da fé reformada. A essas alturas, a reforma luterana já tinha cerca de vinte anos. Genebra tinha um atraso de vinte anos em relação a Lutero, mas trabalhou rápido e duro para alcançar o colega e ultrapassa-lo em termos de influência global.

E hoje eu, mais uma vez, estou aqui, onde meu amigo e irmão Aharon Sapsezian trabalhou por muito tempo, antes de, como Calvino, acabar por se firmar em Genebra. Algumas de minhas lembranças mais agradáveis das inúmeras viagens que fiz a Genebra durante os anos 1987 a 1995, têm que ver com ele, não com o trabalho que eu prestava junto à area de Information Systems Support (ISS), dirigida pelo sudanês Salah H. Mandil. Ele, o Aharon, era apaixonado por Genebra, e me deixou apaixonado também. Somente vim a conhecer Strasbourg em 2006, voltando agora em 2016, dez anos depois. Mas sinto que Genebra e Strasbourg são – como direi? – minhas cidades natais na Europa (da mesma forma que Pittsburgh (PA) e Claremont (CA) o são nos Estados Unidos – com o mesmo grau de diferença entre a primeira e a segunda, em ambos os casos.

Mas comecei falando da Igreja Metodista que encontramos aqui. O Metodismo (para aqueles que não têm muita familiaridade com a História da Igreja) só surgiu no século 18, na Inglaterra, primeiro, e nos Estados Unidos, logo em seguida, através de João Wesley. Mas conseguiu alcançar, e, em alguns casos ultrapassar, as igrejas protestantes ditas históricas: a luterana, a calvinista (também chamada de reformada ou presbiteriana), e a anglicana (também conhecida como episcopal).

É isso, por enquanto. Preciso dormir agora.

Em Strasbourg, 27 de Dezembro de 2016

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