20161220: Aproxima-se o Início da Viagem 

Daqui a dois dias, em 22 de Dezembro de 2016, quinta-feira, vamos sair de viagem, a Paloma, a Bianca, a Priscilla e eu. Vamos passar um pouquinho mais de um mês na Europa. Eu, sozinho, e eu acompanhado da Paloma, já estivemos lá várias vezes. A Bianca e a Priscilla já estiveram uma vez na Inglaterra, França e Itália. Mas nunca fomos os quatro juntos para o “Velho Mundo” (para os Estados Unidos já fomos duas vezes, em 2009 e 2011): será a primeira vez.

Decidimos nos dar essa viagem porque, por uma série de razões que se reforçam, esta, além da primeira, pode ser também a última oportunidade que teremos de viajar os quatros juntos pelo exterior. A Bianca já se formou num curso superior de Gestão Ambiental, e está trabalhando (embora não na área do curso). A Priscilla terminou seu primeiro ano na Universidade, cursando Biomedicina. Ambas estão namorando (a Bianca há mais tempo — algo que é de esperar, pois ela é dois anos mais velha…). Ambas têm uma vida social intensa. Pela Paloma faríamos, pelo menos ela e eu, uma viagem desse tipo todo ano — mas eu ando meio preguiçoso para enfrentar todo o trabalho e todo o stress envolvidos na organização, na preparação, e, convenhamos, na própria execução do projeto, isto é, na viagem em si.

De qualquer forma, esperamos desfrutar ao máximo essa oportunidade juntos, apesar dos sustos que o terrorismo anda espalhando pela Europa — há poucos dias alguém aparentemente ligado ao Estado Islâmico, ou interessado em imitá-lo, atentou contra um dos maiores Mercados de Natal (Weihnachtsmärkte) em Berlim — exatamente o tipo de coisa que a Paloma e as meninas querem visitar, tendo já listado uns cinco ou seis que não querem perder…

Nosso voo irá de São Paulo para Zürich e de lá para Bruxelles, onde, tal qual a União Europeia, estabeleceremos nosso “quartel general”. A propósito, vou escrever o nome das cidades, sempre que possível, na grafia utilizada na principal língua falada em cada cidade: Alemão, em Zürich, e Francês, em Bruxelles, em ambos os casos cidades em que se fala mais de uma língua. (O nome dos países escreverei na grafia brasileira). Como dizia, ficaremos hospedados em Bruxelles, durante a viagem toda, em um studio de uma das cadeias da rede Accor (minha rede favorita, pela versatilidade: sempre tem um hotel que tem aquilo de que você precisa dentro do seu orçamento). E de lá faremos day trips por trem para várias cidades distantes até cerca de 200 km de Bruxelles, saindo de manhãzinha e voltando à noite, viajando só de mochila, deixando as malas no studio. Três ou quatro vezes quebraremos a rotina das day trips e pernoitaremos no destino. Isso acrescenta um certo custo à viagem mas é um custo que representa um ganho de tempo, de conforto, e, portanto, de descanso (e, por conseguinte, de ânimo e disposição para “bater perna” no dia seguinte…). Escolhemos o studio de Bruxelles porque acomoda quatro no mesmo ambiente, com cozinha, máquina de lavar roupa, etc. — fatos que, em seu conjunto, representam a economia que nos permite pernoitar fora algumas vezes sem abrir mão do quartel general.

Compramos um Europass da Eurail que nos permitirá viajar de trem por toda a Europa durante 22 dos 32 dias que estaremos lá. Isso quer dizer que ficaremos em Bruxelles, ou bem ao redor, durante cerca de dez dias, uns poucos no inícios, alguns outros (mais do que início) ao final. Nos outros 22 dias, se aguentarmos, e se Deus quiser, viajaremos o tempo todo.

A propósito, nossa amiga (minha e da Paloma), primeiro no Facebook, depois na vida real, Daisy Grisolia, estará em Bruxelles na mesma época, visitando o filho que mora lá. Esperamos tomar pelo menos um vinho juntos de vez em quando…

Ficamos meio apertados com os preparativos e as arrumações nos últimos dias. A Paloma estará a trabalhar até amanhã, dia 21/12, véspera da viagem. Eu, em agosto, assumi o compromisso de escrever dois livrinhos (o primeiro não tão pequeno assim), um sobre projetos transdisciplinares de aprendizagem colaborativa e outro sobre a história do cristianismo primitivo (dos primórdios até a queda do império romano clássico no ocidente — que se deu em 476 dC). Mas os textos estão entregues aos respectivos encomendadores — embora haja uns rabichos que eu possivelmente terei de amarrar durante a viagem. Felizmente, a Internet hoje nos permite continuar a trabalhar sem que os interessados no seu trabalho saibam onde você está. Lembro-me de ouvir, uma vez (em 2004, em  Washington), Nicholas Negroponte, então ainda diretor geral do Media Lab do Massachusetts Institute de Technology, e que é grego de nascimento, dizer que havia acabado de passar um bom período (creio que eram duas semanas) na Grécia, e de lá continuou a dirigir o Media Lab, sem que ninguém percebesse que ele estava fora do seu escritório físico… Hoje isso é comum. Minha gerente de conta no Itaú não fica em minha agência física (à qual, é bom que se diga, raramente compareço presencialmente).

Não conheço Bruxelles e estou ansioso para visitar a cidade, uma das três capitais oficiais da União Europeia — e sua capital de facto, por hospedar a Comissão Europeia, o órgão executivo dessa desunida União. Daqui um tempo é bem possível que nem haja mais essa União, como hoje configurada. A Inglaterra já a está brexitando — e outros países certamente virão “na cola”, à medida que as crises da economia, das finanças, da imigração vinda de fora da Europa, dos refugiados e do terrorismo (e possivelmente outras) se intensificam — e ninguém duvida que vão se intensificar, pois a União Europeia continua a fazer de conta que não são tão sérias. Alguns bons amigos e colegas meus, como Newton Aquiles von Zuben e Antonio Muniz de Rezende estudaram, nos anos 60-70, em Louvain (Leuwen), a mais famosa universidade belga, e sempre me falaram muito bem do país (e da universidade).

Luxemburgo (Luxembourg, uma cidade-estado / um estado-cidade) fica pertinho de Bruxelles. Embora um grão-ducado independente, Luxembourg, a segunda das três capitais oficiais da União Europeia, visto hospedar sua Suprema Corte (a Corte de Justiça Europeia), é quase um anexo da Bélgica. A cidade-estado tem cerca de meio milhão de habitantes e é governada pelo Grão-Duque Henri, sendo o último Grão-Ducado existente no mundo, segundo li em algum lugar — possivelmente em algum artigo da Wikipedia.

Strasbourg é a terceira das três capitais oficiais da União Europeia, por hospedar o Parlamento Europeu. Capital da disputada região da Alsácia e Lorena, que foi objeto de muitas guerras e disputas entre a França e a Alemanha e mudou de um para o outro país já algumas vezes, Strasbourg é uma magnífica cidade. Eu já a conheço e acho o centro histórico da cidade (Grande Île) uma lindeza — a UNESCO concorda, tanto que escolheu o centro histórico de Strasbourg como patrimônio histórico e cultural da humanidade.

Strasbourg foi uma cidade importante na reforma protestante do século 16, da mesma forma que Zürich, a cidade suiça pela qual chegaremos à Europa (embora não à União Europeia, visto que a Suiça não faz parte da dita União). O principal militante da reforma em Strasbourg foi Martin Bucer. João Calvino,  o reformador de Genève, foi para Strasbourg (para onde planejava ir desde o início, só ficando em Genève, em 1536, por insistência do reformador Guilherme Farel, que lá operava), quando foi expulso de Genève, em 1538, ficando em Strasbourg até 1541 — e ali se casou, em 1540, com Idelette de Bure, uma viúva. Em 1541 Calvino foi chamado de volta para Genève, onde ficou até 1564, data de sua morte. A linha Zürich (onde se fala alemão), Strasbourg e Genève (fala-se francês nessas duas cidades) é, em muitos aspectos, mais importante para a reforma protestante do que Wittenberg, a partir de onde Martinho Lutero operou (em alemão, naturalmente).

Em menos de um ano (31/10/2017) a reforma protestante estará celebrando seus quinhentos anos de existência. [Em uma das idiossincrasias da língua portuguesa, Bucer e Lutero têm exatamente o mesmo primeiro nome em francês, alemão e inglês — mas, no caso de Bucer, a maioria dos brasileiros escreve seu prenome como Martin, escrevendo Martinho, no caso de Lutero. Entenda-se.] Embora Zürich seja apenas passagem nesta nossa viagem, é preciso mencionar que a cidade também foi um centro importante da reforma protestante, militando ali o corajoso Ulrico Zuínglio, que morreu cedo, em batalha, guerreando contra os católicos. Bucer, Zuínglio, Lutero e Calvino foram os quatro grandes do segmento da reforma continental (não incluindo a Inglaterra) chamada de “magisterial” ou “magistral” — que não inclui os reformadores mais radicais, que achavam que a reforma magisterial / magistral não havia reformado a igreja suficientemente, preservando muitas características que consideravam nefastas da Igreja Católica — entre as quais a principal seria a promiscuidade no relacionamento com o estado. Os radicais queriam total separação entre igreja e estado — algo que só veio acontecer quando a reforma chegou à América do Norte.

É isso, por enquanto.

Em Salto, 20 de Dezembro de 2016 (dia do septuagésimo aniversário do meu querido irmão Flávio)

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4 comentários sobre “20161220: Aproxima-se o Início da Viagem 

  1. Bom dia, Eduardo. Muito bom ler coisas assim – a gente viaja junto com vocês, queridos! Agora, conte para nós – como você registra esses fatos? Ou são de memória?

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    • Os fatos? Sua pergunta, “Mivart”, me fez lembrar da autobiografia de Gabriel Garcia Marquez. Ela tem o título de “Vivir para Contarla”. No Prefácio ou na Apresentação do livro GGM explica que o sentido da vida, para ele, escritor que é, está em conta-la… Isso explica. Quando viajo, eu o faço procurando coisas que possam ser contadas no blog de Diário de Bordo. Isso facilita grava-las na memoria. Tanto quanto possível, escrevo o mais rápido possível depois de encontrar algo contável. Se escrever logo em seguida não é possível, carrego comigo um caderninho ou, na pior das hipóteses, uma folha de papel, para anotar, telegraficamente, o “causo” a ser contado. Quando não estou viajando, e estou, por exemplo, na sala de espera de uma clínica, fico observando as pessoas, prestando atenção às conversas, etc. Assim angario material para os posts. Um abraço. Obrigado por comentar.

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  2. Eduardo, Paloma e meninas. Desejo que tenham uma linda e proveitosa viagem.
    Vou acompanhar suas postagens Eduardo visto que é sempre um aprendizado.
    Feliz Natal a vocês! 💋💋💋💋

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    • Oi, Agnes… Obrigado por comentar. Li em algum lugar que você também está viajando por algum lugar bastante aqui perto… O fato me fez lembrar dos dias que passamos em Londres, faz o quê? Cinco anos? O pub onde almoçamos e tomamos enormes chopps… Saudades.

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