20170122-20170123 – Dias 31 e 32 na Europa: Final Curtain

Ontem (21/01/2017, sábado) escrevi sobre Clovis Rossi e Donald Trump. Hoje (22/01/2017, domingo à noite), faço um breve resumo do dia de ontem e de hoje e falo um pouco sobre os planos amanhã (23/01/2017, segunda-feira).

Ontem passei a maior parte do dia no quarto – exceto pela parte da tarde, em que saí para a andar com a Paloma. Fomos até uma loja chamada Midia Market no shopping City2. Queríamos ainda olhar umas peças de material eletrônico, mas acabamos não comprando nada. Na volta passamos no Carrefour Express para nos manter em termos de comida até amanhã cedo.

Hoje o programa foi semelhante, só que, por volta do meio-dia, a Paloma e as menias foram ao Mercado das Pulgas (Marché des Pousses, Flea Market). Compraram mais roupas e outras besteirinhas. Estão tentando acomodar tudo nas malas delas. As minhas já estão prontas. Não foi difícil fazê-las, porque só comprei cinco livros, um disco rígido de 2’5”, e um power bank, do tamanho de um telefone celular. Nada mais. Diferentemente do que fiz quando viemos, vou despachar minha bagagem de mão. Temos direito a despachar duas malas de até 32 kg cada um, e de levar uma maleta de mão de até 8 kg (mais uma bolsa/pasta ou uma mochila não muito grande). À tarde saí para ir ao shopping, mas, chegando lá, estava tudo fechado.

Amanhã cedo preciso comprar umas coisinhas. Nosso voo só sai às 18h50, mas, em princípio, temos de fazer checkout às 12h. Amanhã cedo vou chorar para poder ficar aqui até, digamos, às 15h — mas duvido que, se derem algum tempo extra, será no máximo até às 14h.

Amanhã iremos até Zürich, e, de lá, depois das 22h, até São Paulo. Precisaremos de dois táxis para ir até a nossa casa.

Quanto à viagem em si, foi excelente, embora meio cansativa no final. A gente vai ficando cansado, com saudade de casa, e, às vezes, irritadiço e chegando perto dos limites de tolerância. A Paloma escreveu um post ontem falando da viagem e da saudade de casa, que está fazendo bastante sucesso.

Do ponto de vista financeiro, embora nem todos os detalhes estejam fechados, creio que ficamos dentro do orçamento previsto, para o qual havíamos, ao longo de 13 meses, reservado dinheiro em uma poupança.

Se me ocorrer algo mais, escrevo amanhã cedo. Pode até ser que um post anterior que escrevi e rotulei de chocho não tivesse sido (algumas pessoas discordaram de mim), mas este certamente está chochíssimo.

o O o

Fui dormir mais cedo (ca. 22h30) e o inevitável aconteceu (acordei às 2h30). Mexi no Facebook, acertei a contabilidade de ontem, tomei banho, fiz a barba, etc. — embora nosso voo demore ainda mais de 12h para decolar… Ser filho de mineiro é uma droga.

Diz meu telefone que a temperatura em Bruxelas, na região em que estou, é de zero grau. Será o que nos espera no Brasil??? Tenho até medo.

Chegando em São Paulo, permaneceremos na cidade o resto da semana, acertando detalhes logísticos de nossa vida, só indo para o sítio no domingo ou na segunda-feira vindoura, de hoje a oito dias. Espero encontrar tudo em ordem em SP e em Salto.

Fico por aqui. Ainda procurarei escrever um post fechando a viagem. Até lá. Foi bom estar com vocês nesses 32 dias. Contando o dia que saímos do Brasil (em que escrevi) e o dia em que botamos pé de volta no Brasil (em que ainda pretendo escrever), são 34 dias.

Em Bruxelas, 22-23 de Janeiro de 2017.

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20170121 – Clovis Rossi e Donald Trump (Dia 30 na Europa)

Clovis Rossi, em seu artigo na Folha de S. Paulo de hoje, 21 de Janeiro de 2017, mostra como a imprensa de esquerda pode deturpar o que é dito por quem não é de esquerda na intenção de promover seus ideais esquerdizantes.

Clovis começa tentando nos fazer crer que o “America first” de Trump é equivalente ao “Deutschland über alles” de Hitler. Nada mais ridículo. A frase nazista enuncia o ideal de colocar a Alemanha a dominar o mundo. A frase de Trump é a promessa de, em suas decisões, colocar sempre o interesse dos Estados Unidos em primeiro lugar.

Chega até a ser ridículo imaginar que o governante de uma nação pudesse cogitar, ao tomar suas decisões, de colocar o interesse de outras nações à frente do interesse de sua própria nação. A frase de Trump é necessária porque o chamado internacionalismo da esquerda americana levou os governantes democratas daquele país a colocar os interesses das outras nações na frente dos interesses americanos. Trump deixou isso claro em seu discurso de posse ao dizer que os Estados Unidos deixam seus territórios correndo para proteger as fronteiras de outros países contra invasão de terceiros, esquecendo-se de proteger as fronteiras dos próprios Estados Unidos contra a imigração ilegal.

É evidente, portanto, que a frase de Trump está longe de representar o que Rossi quer nos fazer crer que ela signifique. Se ela significasse, Trump estaria pensando em invadir o México, não em construir um muro que separe o território americano do mexicano. Seu objetivo é controlar a invasão ilegal do território americano a partir do território mexicano, não invadir ilegalmente o território alheio, como o fez Hitler, invadindo Polônia, Holanda, Bélgica, França, os países bálticos, etc.

Trump nem de longe, neste aspecto, evoca um passado sombrio. “America first” não é um slogan “agressivo e autoritário”. Muito pelo contrário. No contexto de outras manifestações de Trump, pode significar exatamente o contrário: um slogan isolacionista (como foi a tradição americana que impediu os Estados Unidos de intervirem nas duas grandes guerras até, no caso da primeira, não terem mais como resistir ao apelo da Inglaterra, e, na segunda, até virem seu próprio território atacado pelos japoneses).

Não há dúvida de que Trump é patriota. Sugerir que Trump é um canalha por causa de seu patriotismo não é ofender apenas Trump: é ofender 95% dos americanos – e fazer isso com base num chiste de um frasista famoso.

Citar Soros, biliardário metido a esquerdopata, no sentido de que Trump é um “aprendiz de ditador”, é outra besteira gritante. Dá pena ver Rossi precisar recorrer a esse tipo de “inspiração” para criticar Trump.

A população americana elegeu Trump pelas regras eleitorais vigentes. Não adianta a esquerda agora lamentar que os EUA tenham as regras que têm — e que têm lhes valido bem desde a aprovação de sua Constituição no final do século 18. (De lá para cá o Brasil teve no mínimo sete Constituições). Se Hilary houvesse sido eleita com menor número de votos populares do que Trump, a esquerda estaria louvando as regras eleitorais vigentes. A esquerda é sempre péssima perdedora – e sempre casuisticamente disposta a manipular as regras se isso lhe garante vantagem.

Se, nas próximas eleições, o povo americano não estiver satisfeito com Trump, não o reelegerá – como não reelegeu o esquerdinha cristão, babaca-mor Jimmy Carter em 1980, preferindo Ronald Reagan, aquele que, naquela ocasião, a esquerda classificou de um cow-boy frustrado e incompetente – e que, quatro anos depois deu a maior lavada nos democratas que eles já levaram nos últimos tempos, tornando-se, na avaliação dos historiadores, um dos maiores presidentes que os Estados Unidos já tiveram, no mesmo nível que Washington, Jefferson, Lincoln e (F. D.) Roosevelt.

Trump não foi eleito Presidente dos EUA pelos não-americanos. Os europeus, os asiáticos, em especial os chineses, os africanos, os latino-americanos, etc. podem todos chiar à vontade, porque Trump vai governar os EUA com seus olhos e ouvidos nos americanos, não no resto do mundo. E é isso que ele tem de fazer – para não cometer estelionato eleitoral para com seus eleitores, algo que a esquerda brasileira adora fazer.

Acabamos de nos livrar um governo incompetente e corrupto no Brasil que governava o país com seus olhos e ouvidos no resto do mundo – esquecendo-se de volta-los para os brasileiros. Deu no que deu. Petralhas et caterva foram escorraçados do governo do Brasil porque não pensaram no que os brasileiros queriam. Nem acharam que precisavam: achavam que com um pouco de marketing pago com propina convenceriam os brasileiros a ficar contentes com o que eles queriam fazer.

Lulla e Dillma não estavam pensando primeiro no Brasil quando autorizaram que o BNDES emprestasse dinheiro brasileiro para construir porto em Cuba, para financiar a plantação de soja e a criação da galinhas em Angola, para ajudar o governo venezuelano em dificuldades, ou quando não protestaram diante do confisco dos bens da Petrobrás pelo governo boliviano ou perdoaram as dívidas de Angola para ganhar propina de seu ditador. E muitas outras coisas. Até no caso do Mais Médicos, Lulla e Dillma pensaram primeiro em ajudar Cuba, pois o programa nada mais foi do que uma forma pouco engenhosa de transferir dinheiro brasileiro para o ex-Fidel e o (soon to be ex-) Raul Castro — dois ditadores nojentos.

Os petralhas pensaram nos outros países (governados pela esquerda) primeiro (e nas propinas que eles próprios iriam receber no processo). Nunca no povo brasileiro.

Por isso, hoje, há exatamente 10 deputados americanos (todos democratas de esquerda) protestando contra a Lava-Jato, Moro, e o que consideram “a perseguição do grande líder Lula”… E o Brasil, por sua vez, está feliz por ter se livrado de Lula e do PT. Os esquerdistas estrangeiros que se lixem, a começar com os vizinhos bolivarianos.

Não há por que temer intervencionismo por parte dos americanos. Eles só intervieram, no passado, quando foram convocados. Devemos temer o contrário. Se há algo a temer no governo Temer é o isolacionismo. Hoje sabemos que a intervenção americana em duas guerras europeias salvou não só a Europa, mas o mundo, de viver sob ditaduras. Que o digam os Belgas, que até hoje são gratos pela intervenção americana, mesmo que seus vizinhos, os arrogantes franceses, derrotados nas duas guerras, hoje se considerem parte dos vencedores, algo inconcebível na ausência de duas intervenções americanas. O que devemos temer, no governo Trump, é o surgimento de ditadores e invasões em outras plagas sem que os Estados Unidos se disponham a intervir, mesmo se convocados, para restaurar a democracia e a ordem.

Em Bruxelas, 21 de Janeiro de 2017

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Folha de S. Paulo, 21 de Janeiro de 2017

Clóvis Rossi

“Trump evoca um passado sombrio

‘Deutschland über alles’ (a Alemanha acima de tudo) era a música de fundo do nazismo. É assustador que, 65 anos depois que a Alemanha retirou a estrofe de seu hino nacional, o presidente de uma nação ainda mais poderosa do que qualquer outra reponha esse grito de guerra do nacionalismo.

‘America first’, gritou Donald John Trump ao assumir a Presidência nesta sexta-feira (20), confirmando o tom agressivo e autoritário de seus discursos de campanha.

É igualmente assustador que Trump tenha elevado o patriotismo a uma espécie de religião, quando o pensador britânico Samuel Johnson (1709/84) já havia dito: ‘O patriotismo é o último refúgio dos canalhas’.

Tudo somado, difícil discordar do mega-investidor George Soros quando ele diz que Trump é um ‘aprendiz de ditador’.

Minha sensação pessoal é a de que Trump jamais concluirá o curso, porque os Estados Unidos têm a maravilhosa tradição de fazer troca de presidente a cada quatro anos (a menos que um deles seja reeleito) desde 1789, como lembrado, de resto, na cerimônia de posse.

Parece inviável, portanto, que uma ditadura seja aceita pelo tal de povo, outra palavra com que o presidente encheu a boca, escandindo as palavras ‘the real people’ – o que todo populista que se preze sempre fez em qualquer país.

O autoritarismo de Trump, em todo o caso, se de fato levado a efeito, se de fato buscar sempre a ‘America first’, pode causar tremendos problemas para a América Latina e para o Brasil, que ninguém se engane.

A Americas Society/Council of the Americas, dedicada às relações Estados Unidos/América Latina, acaba de divulgar preciso levantamento das posições de alguns dos secretários escolhidos por Trump a respeito do subcontinente – região, aliás, que esteve completamente ausente durante a campanha, fora México e Cuba.

O novo US Trade Representative, Robert Lighthizer, responsável por negociações comerciais globais, por exemplo, apontou o Brasil como ‘o mais consistente violador das leis comerciais norte-americanas’. Foi em depoimento ao Senado em 2007, mas parece improvável que tenha mudado de ideia nos 10 anos transcorridos.

Já o secretário de Segurança Interna, o general John Kelly, em depoimentos também ao Senado, cansou-se de expressar preocupação com o envolvimento do grupo libanês Hezbollah, do Irã e de ‘grupos extremistas islâmicos’ em países como Argentina, Brasil, Paraguai e Venezuela.

Não custa lembrar que Trump, no discurso de posse, prometeu erradicar da face da Terra os grupos radicais islâmicos.

Os Estados Unidos têm uma longa e antiga história de intervencionismo em assuntos internos de outros países, em especial da América Latina. Torna-se um pesadelo, pois, imaginar que Trump está ressuscitando um tipo de nacionalismo/patriotismo carregado de autoritarismo, quando parecia sepultado pela vitória do capitalismo na guerra fria.

Falta acrescentar o potencial de conflitos com outros países fora da América Latina, capazes de perturbar seriamente a economia global.

Virão, pois, tempos de emoções fortes. As primeiras são as piores possíveis.”

Em Bruxelas, 21 de Janeiro de 2017

20170120: O Vigésimo Nono Dia na Europa (Fotos e Comentários)

Hoje, sexta-feira, faz vinte e nove dias que estamos na Europa. 9h da manhã. Não estou com ânimo para fazer muita coisa. As andanças dos últimos dias estão cobrando seu preço. Hoje pretendo ficar meio de molho, arrumando minha contabilidade e começando a reorganizar minha mala. De todos os do nosso grupo, eu fui quem menos comprou: cinco livros (três sobre história da Bélgica, um sobre história de Aachen, e um sobre a históris do cristianismo primitivo), dos quais alguns pequenos, um disco rígido de 2,5” (4TB), bastante pequeno, e um power bank, do tamanho de um telefone celular. Não comprei uma peça de roupa. As meninas compraram muita coisa e a Paloma, alguma.

o O o

Depois de todo mundo acordar, mais ou menos na marra, no caso das meninas, tomamos um café e a Paloma resolveu visitar o subsolo da cidade, onde há excavações arqueológicas. Quem nos revebelu o fato foi a Daisy Grisolia, ontem. Como não estava muito afim de sair feito minhoca pelo subsolo da cidade, resolvi andar, voltando até a área dos museus e da sede da Comissão Europeia (que fica perto). Acabei andando das 10h55 até às 12h35, só parando para tirar uma foto ou outra.

Cheguei de volta ao hotel e as femininas saíram. Como a moça da limpeza chegou para limpar, desci para o lobby, onde estou, tomando um chocolate quente…

Tirei algumas fotos lindas. A mais linda de todas foi de uma fonte / chafariz, na frente do portal que separa o AutoWorld do Musée de l’Armée et de l’Histoire Militaire. A água sai, sobe, e cai, e vai congelando, formando um montinho de gelo que forma um círculo.

Vide três dessas fotos colocadas no Facebook hoje, em:

Coloquei também no Facebook, hoje, algumas fotos adicionais que ilustram meu post de ontem. Elas figuram como comentário a esse meu post. Vide as fotos no URL abaixo e nos comentários à foto principal (que não foi tirada por mim, mas foi copiada do site do Museu, durante a primavera ou o verão):

Tirei também agora cedo algumas fotos de prédios da Comissão Européia e de seu Conselho, aqui pertinho do hotel onde estou hospedado. Eles mostram para onde está indo o dinheiro dos europeus: para sustentar burocratas que acham que vão salvar o mundo com medidas internacionalizantes, de caráter intervencionista no destino dos povos europeus — que, tenho certeza, assim que a saída da Grã-Bretanha começar a mostrar fruitos, vão começar a abandonar a União Européia em uma correria só. Eis algumas das fotos:

Há prédios gigantescos e luxuosos para tudo o que é coisa: supervisão da caça e da pesca; controle de portos; condições climáticas; direitos sociais; inclusão social e solidariedade; etc. You name it, they have a division, a building, and about a thousand fonctionnaires. Só saem ganhando os burocratas e a cidade de Bruxelas – e, imagino, em menor grau, a de Luxembourg e a de Strasbourg.

o O o

Por enquanto, é só. Pretendo voltar à carga.

Em Bruxelas, 20 de Janeiro de 2017.

20170119: O Vigésimo Oitavo Dia na Europa (Atividades em Bruxelas)

O vigésimo oitavo dia de nossa permanência na Europa se completa hoje, quinta-feira, dia 19/01/2017. Quatro semanas completas. Chegamos aqui na manhã da antevéspera do Natal, dia 23/12/2016.

O dia foi tranquilo e agradável. A temperatura continuou cortantemente fria, mas fomos aquinhoados com um dia limpo, claro e ensolarado.

Um pouco antes do meio dia a Paloma e eu saímos para andar um pouco. Fomos na direção oposta à que normalmente tomamos quando saímos de casa (que é na direção do centro velho da cidade). Desta vez fomos na direção da Parque do Cinquentenário da Independência de Bruxelas, independência essa que teve lugar em 1830. Logo, o parque comemora o ano de 1880. É um lind parque, enorme. O fato de a grama e as árvores estarem secas não diminui significativamente a sua imponência, embora fique imaginando quão mais belo será no auge da primavera, com as folhas das árvores ostentando aquele magnífico “baby green” e as flores exibindo suas melhores cores — ou no outono, com as folhas ficando amarelas, vermelhas, marrons, roxeadas…

Dentro do parque há um conjunto de prédios magníficos, onde funcionam três enormes museus.

Em primeiro lugar, está The Cinquantenaire Museum (Le Musée du Cinquantenaire), que capitaneia um conjunto de Cinco Museus de Artes e História disponíveis na cidade. Este, especificamente, um dos maiores museus de Bruxelas, ilustra o tema do conjunto: a arte, em toda a sua riqueza, vista de uma perspectiva história.

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Além desse, que comemora, como o parque, o cinquentenário da Independência belga, existem, nessa categoria (Museus de Artes e História) mais os seguintes museus, dedicados a sub-temas mais específicos dentro do tema maior:

• The Horta-Lambeaux Pavilion (Le Pavillon Horta-Lambeaux)

• The Halle Gate (La Porte de Hal)

• The The Museums of the Far East  (Les Musées d’Extrême-Orient)

• The Musical Instrument Museum (Le Musée des Instruments de Musique)

Atrás do Museu do Cinquentenário há um complexo de prédios, voltados para o outro lado da cidade, que podem hospedar museus, exibições, etc. e que, de certo modo, são mais magníficos ainda (e astronomicamente grandes). Eles são unidos por um enorme portal.

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O conjunto do Portal com os dois espaços laterais forma o seguinte desenho:

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Hoje estão hospedando, começando com o da esquerda, para quem olha na direção das fotos:

• The AutoWorld Museum (AutoWorld)

• The Museum of the Army and Military History (Le Musée Royal de l’Armée et d’Histoire Militaire)

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Este último foi o único que a gente conseguiu visitar hoje – e é fantástico. Tem tecnologia militar (armas de todo tipo, canhões, material de transporte, tanques, aviões, navios, etc.) e tem o lado “soft” (uniformes, agasalhos, sapatos — inclusive para o inverno, etc.). Gostaríamos de ter tido mais tempo lá.

À tarde fomos os quatro visitar nossa amiga Daisy Grisólia, que está aqui, há mais de um mês, na casa do filho dela. Ela nos recebeu regiamente – no estilo grandioso dessa régia cidade… A Paloma tirou um selfie que está disponibilizado no Facebook (https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10211568357422581).

Chegando ao hotel, por volta das 19h30, tivemos a má notícia da morte do Teori Zavascki. Só se tornaria uma notícia melhor se o Presidente Temer indicasse o Juiz Sérgio Moro para o lugar dele. Politicamente, seria uma grande sacada.

Em Bruxelas, 19 de Janeiro de 2017.

20170118: O Vigésimo Sétimo Dia na Europa (O Futuro Rei do Brasil Já Existe)

Hoje é o vigésimo sétimo dia desde que botamos pé na Europa. Escrevo de manhã, antes de o dia realmente acontecer. Mais cinco dias e nos vamos. Já está na hora. Sinto que está todo mundo cansado, com pouca disposição para bater perna. E com saudade de casa. Não é fácil, para quem está confinado com a largueza de nossos ambientes domésticos em São Paulo e em Salto, ficar confinado a um espaço que é, no máximo 30m2. Ficam quatro pessoas se trombando.

Além disso, a vigência de nosso EuRail Pass, que era de 22 dias, expirou. Agora, se quisermos andar de trem, temos de pagar normalmente. Fizemos bom uso dele. Algumas viagens mais longas (Interlakken, na Suiça), algumas intermediárias (Köln, Amsterdam), outras mais curtas um pouco (Paris/Versailles, Strasbourg, Aachen/Aix-en-Chapelle, Luxembourg), e outras mais pertinho (Antwérpia/Anvers [duas vezes], Bruges, Ghent, Louvain). Deveria ter a pachorra de contabilizar quantos quilômetros viajamos de trem e o preço normal da passagem, para determinar quanto economizamos com o passe. Mas não tenho. Fiz a contabilidade exata, porém, de todos os nossos gastos, usando meu amado software chamado Quicken, que uso desde a v.1 para DOS, que saiu em 1983 (vide https://en.wikipedia.org/wiki/Quicken). Quase 35 anos usando o mesmo software de finanças pessoais. Lembro-me de que, quando conheci o Daniel Sigulem, da Escola Paulista de Medicina, em 1987, ele também usava o Quicken. Foi a primeira — e, acredito, a única — pessoa que eu conhecia que também usava o excelente software. Lembro-me de que uma vez a Microsoft, que tinha um programa equivalente, chamado Money, tentou comprar o Quicken (que pertencia a uma empresa chamada Intuit, Inc.), mas os concorrentes todos entraram no Justice Department dos Estados Unidos com pedidos para que impedisse a compra. A Microsoft estava no auge naquela ocasião, e, segundo os concorrentes, se ela comprasse o mais usado programa de finanças pessoais (que permite interação direta com bancos [para puxar extratos e fazer pagamentos que precisam ser feitos todo mês ou toda semana, por exemplo], classificação e ordenamento de documentos para Imposto de Renda, elaboração e acompanhamento de orçamentos, definição de limite de gastos por determinadas categorias ou subcategorias de despesas, definição do “net worth” da pessoa, etc., iria controlar mais esse mercado, até aquele ponto na mão de uma companhia pequena. Quando passei a usar o OS da Apple no meu MacBook Air em 2011, fiquei meio decepcionado, porque a versão para o OS do programa é inferior, em qualidade (tem menos recursos e características) do que versão para Windows. Uma das características que a versão para o Mac não tem é automaticamente converter operações de transferência de uma conta em uma moeda para uma conta em outra moeda. Quando você viaja, por exemplo, faz compras em moeda estrangeira, em cash ou através do cartão de crédito. A versão para Windows convertia automaticamente os valores usando cotações de câmbios baixadas automaticamente de seu banco para fazer a operação. Isso me irrita bastante, mas não o suficiente para parar de usar o programa, que custa 45 dólares para atualizar anualmente. Além disso, recentemente foi lançada a versão para iOS e Android, mas não funciona com telefones registrados no Brasil. Sei que a culpa não é da Quicken/Intuit, mas da legislação nacional e da máfia dos bancos, que gostaria de poder fazer algo equivalente e lucrar o que a Quicken/Intuit lucra com o belo software. O software tem defeitos e irritantes também, vários deles bem registrados no artigo da Wikipedia mencionado atrás.

Hoje acho que vamos passear de novo pela cidade. Mas, para tal, é preciso arrancar o pessoal da cama. Já são 9h e está todo o mundo dormindo… Até mais!

o O o

Antes de falar sobre o que fizemos no dia, três comentários.

Primeiro: Antes de vir imaginávamos que iríamos encontrar refugiados por toda a parte. Não encontramos, a não ser excepcionalmente. Lembro-me de ter visto fotos dos centros turísticos de Paris com barracas de refugiados nas calçadas e na grama da Champs-Elysée, da Torre Eiffel, de jardins diversos, etc., mas não vimos nada disso. Talvez por causa da onda de frio o pessoal tenha sido movido, pois, em caso contrário, morreriam todos.

Segundo: Antes de vir estávamos com receio das medidas de seguranças para evitar a circulação de terroristas. No entanto, a coisa foi bem tranquila. É verdade que entramos em solo europeu (mas não em território da Comunidade Europeia) pela Suíça. Mas ninguém nos incomodou e não vimos ninguém ser incomodado. Da Suíça para a Bélgica foi um “voo doméstico” (em termos: um voo dentro da Europa). Viajando de trem, passamos por fronteiras nacionais em vários momentos: Bélgica / Alemanha, Bélgica / Holanda, Bélgica / França, Bélgica / Luxemburgo, Alemanha / Suíça, etc. Só na entrada por trem da Alemanha para a Suíça entraram no trem oficiais de imigração e pediram para ver passaportes, etc. De resto, tranquilíssimo. Felizmente. Nas cidades, em virtualmente todas, vimos duplas de soldados fazendo a ronda, fortemente armados, com metralhadoras, granadas, etc. A impressão é ruim. Ontem, quando estava na Fnac, uma dupla dessas entrou na loja, circulou pela inteira, com calma e tranquilidade, e saiu por outra porta. Fez-me lembrar, em 1984, quando peguei um ônibus em Jerusalém e me sentei em um banco longo, com cerca de cinco lugares, que estava vazio. No ponto seguinte entraram dois soldados, fortemente armados, que se sentarem do meu lado. Foi uma sensação estranha, da qual me lembrei ao estar olhando livros na Fnac ontem e dar de cara com os soldados. Ah, ia me esquecendo: em várias ocasiões, ao entrar em shoppings ou mesmo em grandes lojas, tivemos de submeter mochilas e bolsas para inspeção. Fez-me lembrar de Bogotá, na Colômbia, no início dos anos 2000. Em Bogotá, até para entrar de carro na garagem do prédio da Microsoft a gente tinha de sair do carro, policiais com cães farejadores vinham vistoriá-lo, e usavam até espelhos para observar a parte de baixo do carro!!!

Terceiro: Antes de vir lemos várias coisas sobre a necessidade de ter Seguro de Vida e de Saúde compatível com o Sistema SCHENGEN (da Comunidade Europeia), com itens envolvendo até repatriação de cadáver, para a hipótese de morrermos aqui, para poder entrar na União Europeia. Contratamos seguros desse tipo para os quatro. Mas ninguém em nenhum momento pediu para vê-los ou mesmo perguntou se os tínhamos.

De qualquer forma, em relação a essas três observações, o relatório que faço é positivo.

o O o

Escrevo no fim do dia agora…

Saí ao meio dia, a pé, para ir até um parque no outro lado da cidade, fotografar uma entidade chamada Atomium. Andei, num ritmo bom, cerca de 8km até chegar lá, com pequenas paradas para consultar o mapa. No caminho, encontrei três igrejas muito lindas, que fotografei. As fotos das três igrejas e da entrada do Atomium estão disponíveis no Facebook, em https://www.facebook.com/eduardo.chaves/posts/10154868568937141.

Cogitei da possibilidade de voltar a pé, mas fiquei medo de me forçar demais. Voltei de metrô. Peguei-o na estação chamada Stuyvenbergh, na linha 6, Azul, e fui até a estação Trône (Tron), da mesma linha, aqui perto de casa. Passei por 16 estações ao todo, contando a inicial e a final. A estação em que desci é chamada de Trône porque fica perto do Palácio Real. Nosso hotel fica a poucos quarteirões do palácio. Em Londres também já ficamos hospedados em um hotel a poucas quadras do Palácio de Buckingham.

Ao ir para o Atomium hoje dei-me conta de que o Rei e a Rainha estão homenageados através dos nomes de vários logradouros. Parte do trajeto eu o percorri na Rue Royale (Koningstraat), que, numa curva, se torna Avenue de la Reine (Koninginnelaan). Ao entrar no parque a avenida muda de nome para Avenue du Parc Royal (Koningkluk Parklaan). No parque há um Palais Royal de Laeken (Koninklug Paleis van Laken). No caminho cruzei uma Place de la Reine (Koninginne Plein). E assim vai. Menções à Realeza, e aos Reis e Rainhas, atuais e passados, abundam. Os reis da Bélgica, que começaram a reinar em 1831, depois de um ano de regência, enquanto se acertavam os detalhes, têm tido três Leopold, dois Albert, um Baudoin (Baudeijn) e o atual Philippe (Filip). O Baudoin virou Balduíno em Português. Eles em geral são longejos e reinam bastante. Leopold III e Abert II abdicaram em favor dos filhos, respectivamente, Baudoin e Philippe (este, o rei atual, tendo assumido a coroa em 2013, com 53 anos, casado com a rainha Mathilde). [Cp. https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_Belgian_monarchs%5D.

Por falar nisso, fui procurar na Wikipedia BR a linha de sucessão ao trono brasileiro. Os dez primeiros são os seguintes:

01. Luís Gastão de Orléans e Bragança, chefe da casa imperial brasileira [78 anos]

02. Bertrand Maria José de Orléans e Bragança, príncipe imperial do Brasil e de Orléans e Bragança [75 anos]

03. Antônio João de Orléans e Bragança, príncipe do Brasil e de Orléans e Bragança [66 anos]

04. Rafael Antônio Maria de Orléans e Bragança, príncipe do Brasil e de Orléans e Bragança [30 anos]

05. Maria Gabriela Fernanda de Orléans e Bragança, princesa do Brasil e de Orléans e Bragança [27 anos]

06. Isabel Maria Josefa de Orléans e Bragança, princesa do Brasil e de Orléans e Bragança [72 anos]

07. Eleonora Maria Josefa de Orléans e Bragança, princesa do Brasil, de Orléans e Bragança e de Ligne [63 anos]

08. Henrique Antônio de Ligne, Príncipe de Ligne [27 anos]

09. Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança, barão de Bordonha e Valnigra [85 anos]

10. Afonso Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança [46 anos]

[https://pt.wikipedia.org/wiki/Linha_de_sucessão_ao_trono_brasileiro]

Os três primeiros estão velhos demais, mas o Príncipe Rafa (entre os íntimos) tem chance. Está só com trintinha… Vou começar a fazer campanha. Em 20 anos muita coisa pode mudar (se a Band me permite usar, alterando, o bordão dela).

Em Bruxelas, 18 de Janeiro de 2017.

20170117: O Vigésimo Sexto Dia na Europa (Promenading in the City)

Ontem, dia 16, ficamos no hotel, a Paloma e eu, descansando dos dias em Paris. As meninas saíram um pouco à tarde / noite para comer fora e passear um pouco.

Hoje, dia 17 de Janeiro, vamos passear um pouco a pé pela cidade. Andar por aí, entrar em lojas e shoppings sem compromisso. A Priscilla decidiu ficar no quarto. Ela, como eu, de vez em quando precisa de algum tempo de solitude (aloneness) – que de modo algum se confunde com solidão (loneliness). Um blog na Internet diferencia as duas coisas:

“Solidão é uma falta, uma ausência, um sentimento de incompletude, a sensação de que você carece da presença de alguém. Solitude é presença, plenitude, um sentimento de completude, a certeza de que, pelo menos em alguns momentos, você se basta a si próprio.” [Vide o artigo Loneliness vs Aloneness no Blog Discover Meditation: http://discovermeditation.com/3529/blog/practical-inspiration/loneliness-v-aloneness-whats-the-difference/.%5D

o O o

Escrevo, daqui para frente, depois de ter saído…

Acabamos indo a uma região só da cidade, onde há uma galeria, com uma Loja Fnac, e, perto dela, na H&M e uma loja de brinquedos, que vende LEGO, quebra-cabeças, etc. Eu fiquei só na Fnac por cerca de duas horas e meia e a Paloma e a Bianca visitaram as duas lojas e compraram puzzles e roupas.

Eu “took my time”, e, com calma, primeiro, olhei e, em alguns casos, testei computadores, tablets, telefones, etc.. Depois fui checar uma área favorita: de discos rígidos, pen drives e cartões de memória. Mas não comprei nada nessas seções, apesar das tentações.

Em seguida fui para a área de livros, ficando o tempo todo na área de história. Peguei dois livros para ler, achei uma poltrona, e fiquei lendo. Ao final, comprei um deles e fiquei tentado a comprar o outro…

O que comprei foi La Grande Histoire de la Belgique, de Patrick Weber (2013). Conta a história da Bélgica, ou do território que veio mais recentemente ser a Bélgica, desde o período pré-romano. Leitura fácil, para o leitor não especializado.

O que não comprei foi Une Histoire Populaire de l’Humanité: De l’Âge de Pierre au Nouveau Millenaire, de Chris Harman (2011), traduzido para o Francês por Jean-Marie Guerlin. O original em inglês, que a loja não tinha, é A People’s History of the World: From the Stone Age to the New Millenium. O autor é um esquerdista, operando com categorias marxistas, mas escreve bem. O livro foi escrito para ser um “companion” a The People’s History of the United States, um clássico marxista escrito por Howard Zinn há muito tempo (comprei-o na década de 70 nos Estados Unidos, mas a versão ora à venda é atualizada até o ano 2000).

Depois de novamente nos unirmos, fomos almoçar num restaurante alternativo que a Bianca descobriu ontem. Apertadinho, as comidas com uns nomes esquisitos, suco servido num copo que parece uma jarra de maionese (creio que é mesmo). Tomei uma sopa de cogumelos com queijo Brie. Estava boa. A cerveja, marca Bio, nem tanto. Depois  comprei uma garrafa de rum num boteco (bem mais barato do que no Carrefour), para esquentar meus dias, e voltamos para casa.

Passei o resto do dia, até agora (são 23h13 aqui) lendo o livro sobre a História da Bélgica. Acho uma história extremamente interessante. A Bélgica teve, historicamente, três grandes inimigos, já tendo “pertencido” a cada um deles (i.e., feito parte do território de cada um deles): a Holanda, a França e a Alemanha. Curiosamente, seu território é dividido, hoje, em duas grandes regiões (a Região “Flamande”, ao Norte, que é monolíngue e Holandês, e a Região “Wallonne”, ao Sul, que também é monolíngue e fala Francês – Francês mesmo, não dialeto), e duas regiões menores (Bruxelles, que é uma região independente equivalente ao Distrito Federal do país, que, embora geograficamente localizado dentro da Região Flamande, é oficialmente bilíngue, onde as línguas oficiais são o Francês e o Holandês, e três cantões pequeninos, que fazem divisa com a Alemanha, que foram anexados à Alemanha durante a Segunda Guerra, porque já falavam alemão, e continuam a falar alemão até hoje, como língua oficial, mesmo depois de terem sido devolvidos à Bélgica, apesar de ficarem geograficamente dentro da Região Wallonne). Acho fascinante um país em que são faladas três línguas – além do Inglês, que, especialmente na região Wallonne, é falado de forma generalizada nos hotéis, nos restaurantes, nas lojas.

A Bélgica só se tornou independente em 1830 – e, mesmo assim, ainda foi ocupada pela Alemanha nas duas guerras mundiais. (Não deve ser fácil ser um vizinho pequeno da Alemanha; na verdade, nem um vizinho grande, que o digam a Polônia e a França). E tem enfrentado sérios problemas de convivência entre as duas principais regiões. Já narrei aqui que, em Ghent, fui pedir uma informação numa loja e falei em Francês – a moça disse que não falava Francês; falei em Inglês, e respondeu sem hesitar, num Inglês sotaqueado mas bastante bom.

Além disso a Bélgica não tem convivido muito bem com sua monarquia. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, durante a ocupação da Bélgica pela Alemanha, o Primeiro Ministro e seu “cabinet” fugiram, primeiro para Bordeaux, na França, e, depois, quando a França também foi ocupada, para Londres, na Inglaterra, lá exercendo um governo no exílio. O rei, que não convivia bem com seus ministros, se recusou a fugir, ficou na Bélgica, foi preso pelos alemães e levado para a Alemanha. Quando a Bélgica foi liberada pelos aliados, a guerra ainda continuava em outras frentes. O Primeiro Ministro e seu “cabinet” voltou e começou a governar – sem o rei, que continuava preso. Quando a Alemanha finalmente caiu, o governo não queria que ele voltasse. Houve uma negociação complicadíssima, que resultou na abdicação do rei (por proposta dele próprio) e na coroação de seu filho, o rei Balduíno. Vira e mexe “la question royale” é levantada de novo.

Pensando sobre essas coisas me surgiu o paralelo com a Suíça, país em que há várias etnias e várias línguas são faladas: Alemão, Francês, Italiano e Romansch. O país é uma “confederação” (o nome oficial é “Confederatio Helvetica”, razão pela qual o código internacional da Suíça é CH (que me faz lembrar de CHAVES…). Lá, embora as diferentes línguas sejam faladas em diferentes cantões, todo mundo, sabendo, fala a língua do outro cantão, sem implicância. E todo mundo fala Inglês. O Romansch é falado só por 0,5% da população. Os caixas eletrônicos dos bancos lhe dão a opção de interagir com o sistema em Inglês, Francês, Alemão e Italiano, e deixam você retirar Francos Suíços (o dinheiro da Suíça, que, não sendo parte da União Europeia, não usa o Euro), Euros, Dólares Americanos, Libras Esterlinas, Yenes – independente da moeda em que sua conta esteja, por sua opção, classificada. Acho que o fato de a Suíça ser uma Confederação facilita mais a convivência do que na hipótese (de plausibilidade nula) de vir a ser uma monarquia…

Além do mais, a Suíça tem uma tradição de independência que a Bélgica não tem. Não foi ocupada durante as duas Guerras Mundiais, e se recusou a participar da União Européia.

Na Bélgica, o estado nacional fica, hoje, espremido entre, de um lado, as pressões regionais e locais, das duas principais regiões e dos diversos cantões, e, de outro lado, as pressões supranacionais da União Européia. Ao unir-se à União Européia, a Bélgica concordou em perder a coordenação de diversas áreas que antes pertenciam ao seu governo nacional, cedendo-as à estrutura supranacional – entre elas o seu câmbio, visto que passou a usar o Euro. E, na União Europeia, o controle central é exercido pela Alemanha e pela França, os dois países mais importantes, ambos tradicionais inimigos da Bélgica. (A Grã-Bretanha nunca foi membro integral da União  Européia, tendo se recusado, por exemplo, a substituir a tradicional Libra Esterlina pelo arrivista Euro – e, agora, com o plebiscito, batizado de Brexit, deve sair de vez da União).

Complicada a vida de nossos amigos europeus…

Em Bruxelas, 17 de Janeiro de 2017.

20170116: O Vigésimo Quinto Dia – Valores, Prioridades, Escolhas

O artigo que escrevi sobre nossa viagem a Paris gerou alguns comentários (uns escritos, outros orais) que me motivaram a escrever o que segue.

Teresinha Furian, que nunca foi ex-cunhada, sendo sempre mais irmã do que cunhada, comentou o artigo no Facebook dizendo: “Fantástica experiência sobre o tempo”. Vi o comentário dela no momento em que a Bianca, minha filha, mostrava um aplicativo que achou no Google Play, chamado “Tasks”, e que opera em cima do famoso “Quadrado de Prioridades”. Hoje cedo, vi o comentário, no Blog (não no Facebook), dizendo não achar o artigo chocho, não, como eu o havia avaliado ao final, mas, sim, realista. A Paloma me disse, oralmente, que não achava o artigo chocho, concordando com a Ondina em que era realista – mas realista na representação do meu ponto de vista, que, como ela sempre diz, é apenas a vista de um ponto. A observação sugere (não mais do que isso) que os outros, no caso, as minhas companheiras de viagem, poderiam ver uma realidade diferente da minha.

Tudo isso me faz retomar uma questão sobre a qual venho escrevendo regularmente desde 1991, ou seja, a mais de 25 anos, a saber:

  • a necessidade da gerir ou administrar o tempo, que, por sua vez, implica em;
  • a necessidade de definir objetivos e prioridades, com vários níveis de abrangência, para a nossa vida, que, por sua vez, implica em;
  • a necessidade de enfrentar com realismo e serenidade as diversas manifestações, em nossa vida, do fato indiscutível de que “a realidade” (o acaso, a providência divina, ou o que seja) impõe empecilhos e dificuldades (“constraints”) no caminho da realização de nossos objetivos e prioridades, que, por sua vez implica em;
  • a necessidade de estar sempre prontos para escolher entre alternativas e decidir como vamos reagir diante desses “constraints”, naquela fração de tempo, às vezes diminuta, que fica entre o “estímulo” e a “resposta”, e que constitui, talvez, nosso espaço inalienável de liberdade.

1. Da Dependência, através da Independência, para a Interdependência

Stephen R (Richards) Covey trata, em vários de seus livros, de uma questão levantada em seu primeiro volume na série Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes. Nós nascemos sem saber fazer nada e, por causa disso, totalmente dependentes de nossos pais, de nossa família, de quem quer que seja que se proponha a cuidar de nós. Se ninguém cuidar de nós, nós morreremos, tal é o grau de dependência que temos dos outros.

Por causa disso, muitos educadores têm proposto que o objetivo maior da educação é conseguir que as pessoas passem desse estágio de dependência total para um estágio de independência – às vezes descrito como um estágio de total independência. Isso tem levado a maioria das pessoas, em especial os adolescentes, a buscar a independência total. Como descobrem, às vezes, muito cedo, frequentemente topam com algum “constraint” no caminho de sua independência. Thor Batista, filho de Eike Batista, descobriu que não era totalmente independente quando atropelou, com a Mercedes do pai, um ciclista. Seu pai teve de ajuda-lo a se sair do enrosco. Vinicius Bonemer, filho de William Boner, também descobriu a mesma coisa de forma semelhante, quando o carro que ele dirigia capotou ferindo seriamente um dos ocupantes. Seu pai teve de ajuda-lo a sair do enrosco — ou ainda o está ajudando.

Os exemplos se multiplicam. Cada um de nós conhece pessoas adultas, na casa dos 30 anos, que, na busca da independência total, enfrentou “constraints” que as obrigaram a voltar para o ambiente seguro do lar familial.

Esses exemplos levaram Stephen Covey a sugerir que o objetivo maior da educação não é propiciar às pessoas a sensação de total independência, mas, sim, o reconhecimento de sua interdependência.

Somos todos interdependentes, e Paulo Freire nos alertou para o fato de que ninguém educa ninguém, mas que nós nos educamos uns aos outros “em comunhão”, isto é, em interação, em comunicação mútua, em colaboração uns com os outros – ou seja, em interdependência.

2. Vontades, Desejos, Objetivos, Metas e Prioridades

Todos nós temos um sem número de vontades e desejos que gostaríamos de poder realizar e que enfrentam “constraints” diversos que nos impedem de fazê-lo. Quando crianças e adolescentes enfrentamos o “constraint” da autorização parental. As pessoas, enquanto são menores de idade, são consideradas parcialmente incapazes de responder pelos seus atos. Mesmo que fique comprovado que um filho menor pegou a chave do carro do pai sem informa-lo do fato e sem pedir-lhe a autorização, o pai será responsabilizado penalmente se o filho se envolver um acidente e matar ou machucar alguém.

Mas mesmo quando nos tornamos maiores de idade, continuamos a enfrentar “constraints” de vários tipos. Com um período de escolaridade obrigatória legalmente, ou imperativa do ponto de vista prático, ficamos cada vez mais tempo na escola e, assim, custamos para entrar no mundo do trabalho. Quando entramos, custa chegar o momento em que passamos a ganhar um salário decente que nos permita satisfazer uma parte de nossas vontades e desejos. É uma medida realista reconhecer que, provavelmente, nunca vamos conseguir realizar todas as nossas vontades e desejos.

Há “constraints” legais: a lei nos proíbe de fazer um monte de coisas que gostaríamos de fazer.

Há os “constraints” financeiros que, provavelmente, vão continuar conosco pelo resto da vida, pois dificilmente conseguiremos ganhar dinheiro suficiente para fazer tudo o que temos vontade e desejo de fazer.

Há “constraints” relativos à nossa forma de viver, se vamos viver sós, se em companhia, e, neste caso, na companhia de quem.

Há “constraints” relativos à duração de nossa vida, que nunca saberemos qual será. Eu, por exemplo, sei que, por mais longa que seja minha vida, não terei tempo de ler tudo o que tenho vontade de ler nem de escrever tudo o que desejaria escrever. Cada novo livro que leio levanta novos tópicos de interesse, sugere novos autores a consultar, fornece pistas sobre novas coisas que podemos abordar em nossos escritos… Grandes autores, como Bertrand Russell e Karl Popper, que morreram perto dos cem anos de vida, deixaram um monte de artigos e livros esboçados, começados mas inacabados, concluídos, mas em processo de revisão…

E assim vai. Não há nenhuma solução para esse problema além da definição e hierarquização de prioridades. O famoso “Quadrado de Prioridades”, que Covey usa em seu livro de 1991, e que eu usei em um livrinho sobre Administração do Tempo que escrevi no mesmo ano, foi inventado por alguém com muita perspicácia. Ele sugere que criemos um quadrado composto de quatro quadrados menores, internos ao maior, e que rotulemos:

(a) a primeira coluna (vertical) de “Coisas Importantes”

(b) a segunda coluna (vertical) de “Coisas não-Importantes”

(c) a primeira linha (horizontal) de “Coisas Urgentes”

(d) a segunda linha (horizontal) de “Coisas não-Urgentes”

Assim,

  • a primeira casa (em cima, à esquerda) do quadrado maior abrigará a lista de “Coisas Importantes e Urgentes”
  • a quarta casa (embaixo, à direita) do quadrado maior abrigará a lista de “Coisas não-Importantes e e não-Urgentes”
  • a segunda casa (em cima, à direita) do quadrado maior abrigará a lista de “Coisas Urgentes e não-Importantes”
  • a terceira casa (embaixo, à esquerda) do quadrado maior abrigará a lista de coisas “Importantes e não-Urgentes”

A primeira e a quarta casa não oferecem maiores problemas: temos de fazer o mais rápido possível aquelas coisas que são “Importantes e Urgentes” e, talvez, esquecer para sempre (tirar da nossa mente) as coisas que são “não-Importantes e não-Urgentes”.

O problema está em lidar, primeiro em nível macro, com as outras duas casas, a segunda e a terceira. O que devemos atacar primeiro (priorizar): aquilo que é “Urgente, mas não-Importante” ou aquilo que é “Importante, mas não-Urgente”?

E, em nível micro (ou menos macro), devemos lidar, dentro de cada uma dessas categorias, com cada uma das coisas listadas lá, para decidir em que ordem de prioridade a colocamos quando comparada com outras coisas que, em princípio (em nível macro), têm a mesma prioridade?

Ao lidar com essas questões, o objetivo deverá ser definir objetivos e metas de longo prazo, aquelas coisas que constituirão o ingrediente básico e prioritário de nosso projeto de vida.

3. Valores

Um valor é algo pelo qual estamos dispostos a lutar, seja para alcançar, seja para, tendo alcançado, não perder. Essa definição de valor eu tomei emprestado de Ayn Rand. De certo modo, nossos valores determinam o que é importante para nós. Logo, nossos valores são indispensáveis para a decisão do que colocar nas casas que contêm coisas que nós consideramos “Importantes”, algumas das quais serão também “Urgentes”, outras, “Não-Urgentes”.

Nossos valores também serão de ajuda na definição de quem sai ganhando em um conflito entre algo que é “Urgente, mas não-Importante” (casa 2) e algo que é “Importante mas não-Urgente”  (casa 3).

Dependendo do nível de vida de cada um, e de seus valores, é possível delegar a terceiros a realização de várias coisas urgentes que precisamos fazer mas que não nos parecem importantes: limpar a casa, lavar a roupa, lavar a louça, cortar a grama do quintal, etc. Empregados domésticos fazem essas coisas que são urgentes mas não nos parecem importantes. Provavelmente, não faça sentido delegar coisas importantes a terceiros, embora quando mandamos nossos filhos para a escola façamos exatamente isso: delegamos a terceiros (i.e., terceirizamos) a sua formação e o seu desenvolvimento… Isso é algo que deveríamos fazer nós mesmos, por ser tão importante, mas a maior parte de nós encontra boas razões para não fazê-lo.

4. E o Impossível?

Ayn Rand novamente nos ajuda aqui, ao elogiar, justo ela, que era ateia, uma oração escrita (ou editada) por um teólogo cristão, Reinhold Niebuhr. Disse ele:

“Oh Deus, dá-me coragem e força para fazer o que precisa ser feito, paciência e resiliência para enfrentar o que não é possível fazer, e sabedoria para discernir a diferença entre um e outro”.

O insight que essa oração formula não precisa vir na forma de oração. Ele contém os seguintes reconhecimentos:

  • Há coisas que precisamos e podemos fazer;
  • Há coisas acerca das quais nada é possível fazer para impedi-las (por qualquer razão);
  • Precisamos ter coragem e força para fazer as primeiras e paciência e resiliência para enfrentar as segundas;
  • Mas, acima de tudo, precisamos ter sabedoria para distinguir o que precisamos e podemos fazer daquilo que não acerca do qual nada é possível fazer.

5. A Atitude Diante do Impossível

Embora seja impossível impedir o acontecimento de algumas coisas, que estão totalmente além do nosso controle, continuamos a ter controle sobre nossa reação a essas coisas. Podemos sempre escolher “nos levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima” – ou podemos deixar que o acontecimento nos abale, nos derrube, nos deixe prostrados, acabe com o nosso projeto de vida.

Essa escolha, nunca a perdemos. É por isso que alguns desastres maiores aparecem como novas oportunidades de crescimento para algumas pessoas e destroem outras. Não pela força do acontecimento, que, a priori, foi a mesma em ambos os casos. Mas pela reação que as duas pessoas, por escolha livre e intransferível, tomaram em relação ao acontecido.

6. Moral da História

Não conseguimos viver sozinhos. Somos entes gregários, porque incompletos e imperfeitos. São precisos dois seres para que sejamos gerados. Nem a mulher, nem o homem, sozinhos, conseguem executar a façanha. Precisamos de outros seres para cuidar de nós quando somos pequenos e por um bom tempo depois. Mesmo depois de adquirirmos um razoável grau de independência, precisamos da colaboração de outros para que possamos definir nossos sonhos e transforma-los em realidade. Se precisássemos produzir, sozinhos e por nossa própria conta, tudo o de que precisamos para sobreviver e para alcançar  as coisas que vão além de nossa sobrevivência, não teríamos como perseguir nossos sonhos. Basta imaginar quantas pessoas são necessárias para trazer água, luz, telefone, sinal de TV, sinal de Internet, coleta de lixo e serviços de esgoto até a nossa casa… Basta imaginar quantas pessoas são necessárias para produzir as coisas que gostamos de comer, para plantar o arroz, o feijão, a batata, as verduras e os legumes, para extrair o leite com o qual são feitos os chocolates e os pudins que adocicam os nossos dias… Basta imaginar quantas pessoas são necessárias para compor a letra e a melodia das canções que nos encantam, para escrever as histórias e elaborar os roteiros dos filmes que nos fascinam, para escrever os livros que, além de nos fascinar, são riquíssima fonte de aprendizagem… Não conhecemos a maioria dessas pessoas, mas dependemos delas para poder tocar o nosso sonho de ser ou fazer alguma coisa importante e relevante na vida, ou de fazer uma diferença na vida de outras pessoas, deixando este mundo melhor do que ele estava antes de nós nascermos…

O reconhecimento de que não somos totalmente independentes, mas, sim, interdependentes, está na raiz de tudo 0 que fazemos – mesmo que não nos demos conta do fato.

A maior parte de nós escolhe viver em família, com um cônjuge e com filhos (neste caso, pelo menos por um certo tempo). Ou escolhe viver com alguém que já constituiu uma família anteriormente e que, portanto, trará consigo outras pessoas com as quais precisamos lidar. Uma pessoa solteira e sozinha tem mais liberdade do que uma pessoa casada e com filhos. Mas tem menos oportunidades de desenvolvimento também.

Os trens aqui na Europa trazem ostensivas indicações de que, neles, se espera silêncio dos passageiros. Parece uma limitação indevida de nossa liberdade. Por que eu não posso conversar com quem é meu companheiro de viagem? A resposta é que pode – mas baixinho, para não incomodar quem quer dormir ou quem quer ler um trabalho que exige concentração. Pela mesma razão, não se recomenda o uso do celular para chamadas de voz, ou para ver filmes ou ouvir músicas sem fone de ouvido. Brasileiros não são muito sensíveis a esses imperativos da interdependência. Em geral falam e riem mais alto do que deviam, em lugares em culturas mais civilizadas esperam mais respeito pelos ouvidos alheios. Em casa, em geral falam, riem, cantam, berram, como se fossem a única pessoa a habitar a casa ou mesmo o planeta. Quem pede que façam silêncio ou, pelo menos, não tanto barulho, são taxados de implicantes e ranzinzas. No nível mais macro, quem quer fazer alguma manifestação, qualquer que seja, se acha no direito de interferir com o direito de ir e vir de terceiros, ou mesmo com os ouvidos de terceiros, dada a altura do som que sai de seus potentes carros de som.

Ainda hoje ouvi um pedaço de uma fala de Mário Sérgio Cortella em que ele dizia que passamos a considerar nossos filhos autônomos muito mais cedo do que é recomendável. Vamos sair de férias e indagamos deles aonde desejam ir; vamos almoçar, indagamos deles aonde e o que gostariam de comer. Há muito tempo eles já escolhem que roupas vamos comprar para eles e quando e como eles vão usa-las.

Essa forma de educar, embora alimente a independência prematura dos filhos, não os prepara para a interdependência, para o aprender a conviver…

Uma viagem em família é uma excelente oportunidade para refletir sobre algumas dessas coisas, e para exercita-las: para exercer a tolerância em alguns momentos, e para pedir respeito à sensibilidade alheia em outros (ainda que seja usando um fone de ouvido). Já fomos repreendidos por uma senhora num trem regional aqui de Bruxelles por fazer mais barulho do que ela considerava razoável (barulho apenas decorrente de conversa animada); já fomos repreendidos por tirar fotos em lugares em que isso não era admitido (embora não houvesse nenhuma proibição explícita no local). Alguns de nós gostamos de acompanhar as músicas que estamos ouvindo (com fone de ouvido) cantarolando-as ou assobiando-as… Alguns de nós achamos descabido que locais públicos e mesmo lojas e outros locais privados nos cobrem para usar o banheiro (algo de 0,50 a 2 Euros). No Brasil, lembro-me bem, a mentalidade é outra. O Sr. Dito, um velhinho que cortava o meu cabelo em Salto, teve de fechar a barbearia porque não tinha como instalar banheiro nela… E se o prédio fosse dele, e ele achasse um jeito de instalar o dito banheiro, não poderia cobrar extra pelo seu uso… A gente se acostuma com essas coisas. Em casa, aprendemos que, para beber água, basta tirar um copo do armário, enchê-lo de água, bebê-la e deixar o copo na pia. Alguém vai lava-lo e guarda-lo no lugar. Aqui, sem empregada, temos de aprender a gerenciar essas imposições da interdependência.

É um aprendizado.

Mas tudo vale a pena, quando a alma não é pequena.

Em  Bruxelas, 16 de Janeiro de 2017.

20170113-20170115: Dois Dias em Paris e um em Casa

Nos dias 13 e 14 de Janeiro estivemos em Paris. Dois dias apenas para uma cidade tão grande e tão bonita é muito pouco. Mas é o que tínhamos. E infelizmente tivemos, ainda, para atrapalhar, momentos de chuva, de neve, de chuva e neve misturados, de vento e de muito frio. Às vezes era difícil decidir se era chuva ou neve o que estava caindo: caía como se fosse neve, mas derretia ao bater no chão, não acumulando. As meninas torciam para que nevasse pesado. Eu, para o que o tempo ficasse estável e sem vento, ainda que frio. Frio sem vento não me incomoda muito, não.

Saímos de Bruxelas às 7h43 da manhã e chegamos a Paris logo depois das 9 da manhã na sexta-feira, dia 13 (Sexta 13!). O TGV levou 84 minutos. Fomos direto para o hotel, onde, felizmente, nosso quarto estava pronto. Deixamos nossas coisas lá e partimos para Versailles. Nosso hotel ficava em Clichy, perto da estação Mairie de Clichy. Felizmente, ali perto passava um trem suburbano, que pegamos na estação Clichy-Levalois, e que nos levou em menos de 30 minutos até a estação Versailles-Rive Droite. De lá andamos um pedaço até o palácio. Na volta, o mesmo trajeto. Não precisamos pagar porque, nos trens suburbanos, ou regionais, o nosso passe do Eurail é aceito.

Nunca achei muita graça em visitar museus. Versailles menos ainda, por ser, o universo a ser visitado, gigantesco e por serem os diversos ambientes, dentro do Palácio, muito semelhantes uns aos outros: quadros, alguns móveis, alguns utensílios. Depois de atravessarmos o Palácio em si, já estava meio cansado. Só o palácio levou mais de duas horas para visitar. Restavam os jardins e os anexos do palácio. Como estava ameaçando chover e eu já estava muito cansado, resolvi não ir. As três (Paloma, Bianca, e Priscilla) foram sozinhas e eu fiquei bebericando um chocolate quente e comendo uma tortinha de maçã (chausson aux pommes). Para os interessados, aqui vai uma receita: http://cuisine.journaldesfemmes.com/recette/331149-chaussons-aux-pommes. Depois de um tempo, vendo que se preparavam para fechar o estabelecimento, resolvi sair de lá, indo para a recepção, onde dão informações e vendem bilhetes. (Havíamos combinado essa possibilidade). Lá fiquei mais um tempo, e chegou a hora de fechar lá também. Eles fecham cedo no Inverno, porque escurece cedo, e boa parte da visita é externa. Já estava bem escuro e chuviscando e ventando forte quando fui obrigado a esperar no espaço aberto, fora, protegendo-me da chuva e do vento em alguns lugares protegidos, de onde pudesse observar os que estavam retornando dos jardins. Muita gente! Chinês, então, nem se fala…  E nada das três. Depois de muito tempo, comecei a andar no pátio, no rumo de onde estava, para ficar mais visível. E nada. Pensei em contatar a polícia/segurança do palácio, que passava de carro por ali de vez em quando. Quando já estava ficando perto de desesperado, vi as três já adiante do lugar onde eu estava. Aparentemente havíamos nos passado sem nos notar, no meio do povo. Elas foram até muito longe nos jardins, se perderam um pouco em alguns lugares (algo que não é difícil de acontecer), mas  conseguiram, no limite, pegar um bondinho para retornar. Segundo disseram, já haviam passado ali algumas vezes no rumo do lugar em que eu estava, sem me ver (e sem que eu as visse). Andamos o trajeto de volta, pegamos o trem, e, já em Paris, perto do hotel, tomamos um lanche e fomos dormir. Foi um dia longo. Felizmente, o quarto era muito agradável e confortável.

Ontem, sábado, dia 14, havia várias coisas que cada um (na verdade, cada uma) queria fazer e algumas coisas que cada um (agora dos quatro) não queria fazer. Eu, por exemplo, não queria pegar trem ou metrô nem ir a lojas. Queria, na verdade, simplesmente andar pela cidade. Mas as três queriam subir na Torre Eiffel. Já estivemos, a Paloma e eu, duas vezes antes aqui em Paris, em Dezembro de 2008 e Janeiro de 2013, sem que ela conseguisse subir, sempre por causa de mau tempo (as duas vezes foram no Inverno). As três também queriam subir ao topo do Arco do Triunfo. Mas elas não queriam andar. E queriam passar em frente ao Moulin-Rouge, para a Priscilla tirar umas fotos em frente (por causa do filme!). Enquanto faziam isso, tomando trem e metrô, eu fui do hotel à Torre Eiffel, levando cerca de cem minutos (uma hora e quarenta). Encontramo-nos lá, felizmente, com alguma facilidade. Comparando com o que havia acontecido no dia anterior, pareceu um milagre.

Mas, para azar de todo mundo, a torre estava fechada para subidas além do segundo estágio (que é bem baixo). Fomos ao Arco do Triunfo – quando começou a chover bem forte. Chegando lá, o elevador havia sido fechado, também por causa da chuva. E ninguém se dispôs a subir os quase 250 degraus da escada a pé. Já passava das 13h. Essa fase do passeio foi considerada encerrada.

Do Arco do Triunfo pegamos o metrô que, com uma transferência, na estação Concorde, nos levou até a região dos Grands Magasins para almoçar e para cada um, depois do almoço, fazer o que quisesse. Almoçamos num restaurante de Libre Service da Galeria Lafayette. Depois a Paloma e a Priscilla foram até a Catedral de Notre Dame, a Bianca ficou passeando pelas lojas (além da galeria, H&M, C&A, Gap, etc.). Eu dei umas voltas. Pretendia ir até a Fnac de Les Halles, mas estava chuviscando e ventando e, por isso, voltei do meio do caminho, para ficar na seção de livros da Galeria Lafayette. Era um dos poucos lugares relativamente vazios dentro da loja inteira de sete andares. Havia umas poltronas confortáveis lá e eu aproveitei para ler, cochilar e descansar um pouco. Minhas pernas e minhas costas estavam doendo. Também, devo ter andado quase 10km.

Encontramo-nos novamente num local combinado dentro da loja, por volta das 18h15 e de lá fomos até a Gare du Nord, para voltar. A pé. Levamos uma meia hora andando no frio. Tínhamos bastante tempo e é andando que se conhece a cidade.

O trem, tanto na ida como na volta, foi o TGV da Thalys (do mesmo tipo do que tomamos na volta de Amsterdam). Extremamente confortável e rápido. Dado o conforto oferecido poderia até ser mais lento. Foi servido jantar no trem, incluso na passagem, mas não estava tão bom quanto o da outra noite.

O relato aqui hoje está, eu sei, meio chocho. É que os dois dias, somados e divididos por dois, foram meio assim… A chuva, a neve, o vento e o frio atrapalharam. As diferenças entre o que cada um queria e não queria fazer também atrapalharam. As reuniões para negociar as diferenças também atrapalharam meu humor um pouco.  Acho que, em parte pela extensão da viagem como um todo, em parte pelo meu severo resfriado, em parte pelo fato de que o clima ficou pior, com chuva, neve, ventos, etc. estou ficando com preguiça de sair… Sobrou ainda uma parte aí? Se sobrou ainda menciono que o fato de eu ser o único homem enfrentando três mulheres voluntariosas e aguerridas me deixou meio nocauteado.

Hoje, dia 15, domingo, acordamos tarde e ficamos em casa. A Paloma e a Bianca saíram para comprar alguns comestíveis para abastecer nossa despensa e nossa geladeira.

Amanhã o plano é voltar a Ghent / Gent. Estou em dúvida se vou ou se fico descansando, lendo, botando minhas coisas em dia. E planejando as férias das férias que vou precisar tirar quando chegar em casa… 🙂

Em Bruxelas, 13-15 de Janeiro de 2017.

20170112: O Vigésimo Primeiro Dia na Europa (Louvain)

Ontem fomos a Louvain – eu, para dizer a verdade, sem saber o que esperar direito. Só sabia que pretendia visitar Louvain porque dois grandes amigos meus (nome abaixo) estudaram na “Université Catholique Louvain” – uma das mais reputadas universidades católicas não só da Bélgica, como do mundo. Eles falavam muito bem da universidade. Estando aqui em Bruxelas, era-me natural querer conhecer o lugar onde estudaram. Mas não fiz nenhuma pesquisa sobre o assunto – e, depois, reconheci que deveria ter feito.

Uma brasileira que encontramos como chefe de trem no sistema ferroviário belga no dia que fomos a Bruges nos disse que não havia muito lá para ver e visitar em Louvain. Mesmo com o desincentivo, mantivemos o local na nossa lista, porque (como disse) queria conhecer  a universidade em que Newton Aquiles von Zuben e Antonio Muniz de Rezende, dois amigos meus, ambos colegas de departamentos meus, durante vários anos, no Departamento de Filosofia de Educação da UNICAMP, fizeram o doutorado, há um bom tempo (fim dos anos 60, começo dos anos 70).

Assim fomos para a cidade de Louvain / Leuven – cerca de 30/40 minutos de Bruxelas por trem.

Vimos uma cidade até muito interessante, com uma área antiga muito bonita e charmosa, com muitas livrarias, onde havia vários prédios indicados como pertencentes à Katholische Universität Leuven (nome infelizmente abreviado como “KU Leuven”). Achei esquisita a predominância do holandês – porque meus dois amigos não falavam holandês, mas, sim, um belíssimo e esmerado francês. Fiquei intrigado. Na cidade, também, como em outras cidades da Belga Flamega (i.e., holandesa), senti uma certa resistência da população em falar qualquer coisas que não o holandês — mas, se fosse necessário, preferiam falar o inglês ao francês…

Ao chegar de volta à nossa “home away from home”, fui pesquisar a questão — e não estava preparado para tanta surpresa…

De cara descobri uma coisa surpreendente, que eu evidentemente não sabia. Talvez devesse ter sabido, por ser professor de História da Igreja, mas como não sou professor de História da Educação na Bélgica, desculpei-me facilmente. O que descobri foi que a história da universidade de Louvain é conturbada, e que, na realidade, há, historicamente, quatro universidades diferentes que, de certo modo, usaram ou ainda usam nomes bastante parecidos, o que causa enorme confusão aos desavisados. Com certa relutância vim a admitir que a confusão, muito provavelmente, é gerada, em parte, meio deliberadamente.

Vou tentar explicar os fatos recorrendo principalmente a vários artigos da Wikipedia, em inglês, mas colocando a questão de forma tão didática quanto sou capaz e seguindo, sempre que possível, o ordenamento histórico.

1. Universitas (Studium Generale) Leuven/Louvain [1425-1797]

[Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Old_University_of_Leuven%5D

Historicamente, esta é a primeira universidade que pode ser chamada de belga. Foi fundada em Louvain e hoje ela não não mais existe, razão pela qual é geralmente descrita como “The (Old) University of Leuven” ou “The (Original) University of Leuven”: embora tenha sido criada em 1425, foi fechada em 1797, durante o período das guerras e do governo francês de Napoleão I. Não há dúvidas quanto ao fato de que ela, como instituição, deixou de existir em 1797.

2. Catholic University of Leuven [1834-1968]

[Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Catholic_University_of_Leuven_(1834–1968)%5D.

Hoje esta universidade, criada em 1834, também não mais existe, pois foi extinta antes de 1968. Evidentemente ela foi criada para ocupar o lugar da antiga universidade, mas uma coisa é a intenção, outra é o fato realmente registrado. Ela foi criada pela Igreja Católica, razão de ter o nome que lhe foi dado, nome esse que, hoje, depois de sua extinção (em termos) em 1968, só é normalmente usado, assim em inglês, para fazer referência a essa instituição que durou 134 anos. Essa instituição, portanto, não é a instituição famosa, criada em 1425, na Idade Média. Quanto a isso deve haver clareza. Nem se identifica, simplesmente, com as duas instituições existentes hoje.

3. Em 1968, quando a Catholic University of Leuven [1834-1968] foi extinta, duas outras instituições foram criadas em seu lugar. Na verdade, é possível até dizer que a universidade criada em 1834 não foi extinta, mas, sim, desdobrada em duas, a saber:

3A. Katholieke Universiteit Leuven
[1968-presente] [https://en.wikipedia.org/wiki/Katholieke_Universiteit_Leuven]

3B. Université Catholique de Louvain
[1968-presente] [https://en.wikipedia.org/wiki/Université_catholique_de_Louvain]

A razão é evidente. Em 1968 já estava caracterizado que a Bélgica Moderna era um país bilíngue (na verdade trilíngue, porque três pequenas regiões falam alemão, mas numericamente pode ser desconsiderado), sua Região Norte falando Holandês e sua Regiào Sul falando Francês. A capital, Bruxelas, fica em uma Terceira Região, equivalente a um Distrito Federal, localizada dentro do território que fala holandês, mas que é bilíngue, falando tanto Holandês como Francês. Assim, do que era uma universidade, fizeram-se duas, uma para cada uma das duas (principais) línguas.

Como Leuven / Louvain fica em território que fala holandês, os prédios e demais facilidades que pertenciam à universidade existente de 1834 a 1968 (a de número 2, aqui), passaram a pertencer à universidade que fala holandês (3A). Os livros foram repartidos segundo a língua entre 3A e 3B. Para a universidade que fala francês (3B), decidiu-se criar um novo campus em Louvain-La-Neuve, que fica na região que fala francês, mas mais perto possível de Bruxelas. A contrução de Louvain-la-Neuve só terminou nos anos setenta do século 20.

A grande questão é: qual dessas duas universidades é a verdadeira herdeira da universidade original, criada em de 1425 (1)   se é que uma delas é? A resposta pode ser uma de duas:

Em tese, nenhuma — porque a universidade 1 foi extinta 220 anos atrás, em 1797.

Em tese, ambas — porque as duas universidades hoje existentes (3A e 3B) resultaram de um desdobramento de uma universidade (a 2) criada no lugar da antiga (a 1).

Mas nenhuma solução tão simples e salomônica como essa é capaz de agradar a uma espécie conhecida como defensora do princípio: “Se é possível complicar, por que simplificar?”

o O o

O início do artigo/verbete “Université Catholique de Louvain” na Wikipedia em inglês [https://en.wikipedia.org/wiki/Université_catholique_de_Louvain] começa fazendo uma certa “desambiguação”, como a Wikipedia chama o fenômeno, apontando para a existência de ambiguidade na expressão “Université Catholique de Louvain”. Eis o que ele diz, para diferenciar as instituições com nome parecido, a saber:

The Université Catholique de Louvain [UCL, French for Catholic University of Louvain, but usually not translated into English to avoid confusion with the Catholic University of Leuven (1834–1968)] is Belgium’s largest French-speaking university. It is located in Louvain-la-Neuve, which was expressly built to house the university. UCL has satellite campuses in Brussels, Charleroi, Mons and Tournai.”

A UCL (3B) firmou sua posição. Ela é a maior universidade de língua francesa da Bélgica — não reivindica ser a maior universidade da Bélgica. Criada em Louvain-la-Neuve, ela tem se expandido por várias outras regiões da Bélgica.

O mesmo artigo/verbete procura esclarecer a posição da UCL (3B) em relação às demais universidades mencionadas.

Em relação às duas primeiras universidades (1 e 2), já extintas, o artigo/verbete/afirma o seguinte.   

Em relação a 1:

The University of Leuven [1] was founded at the centre of the historic town of Leuven (or Louvain) in 1425, making it the first university in Belgium and the Low Countries. After being closed in 1797 during the Napoleonic period, the Catholic University of Leuven was “re-founded” in 1834”. [Notem-se as aspas colocadas ao redor de “re-founded”.

Em relação a 2:

“The Catholic University of Leuven [2], de 1834-1868, “is frequently, but controversially, identified as a continuation of the older institution.”

A tese da universidade 3B, que responde pelo site que estou citando, é que 2 não deve ser identificada como continuação de 1. O site não esclarece as razões, mas uma delas é, evidentemente, o fato de que 2 foi criada como uma universidade católica, enquanto 1 não foi assim criada, porque em 1425 as universidades eram criadas por iniciativas de professores e alunos, não da igreja, em si, que na época, na Europa Ocidental, era apenas uma, as igrejas protestantes não tendo ainda surgido.

Em relação a 3A, a KU Leuwen, o artigo/verbete  da universidade 3B esclarece três coisas:

Primeiro, essa universidade (3A) descende (como ela própria [3B]) da universidade de 1834 [2];

Segundo, do ponto de vista estritamente legal, essa universidade não descende da universidade [1] original, de 1425, porque (entre outras coisas) “in 1884, the university [2 created in 1834] celebrated its 50th anniversary, acknowledging its actual date of foundation” [as being 1834].

Terceiro, a universidade de língua holandesa criada em 1968 [3A] não pode pretender ser a única e verdadeira herdeira, em detrimento de outras instituições, da universidade original de 1834 (2), nem, muito menos da original, de 1425 (1).

Quarto, tanto isso é verdade, que, submetido o assunto à deliberação da Suprema Corte Belga, “Belgium’s highest court, the Court of Cassation, . . .  ruled that the (1834) Catholic University of Leuven cannot be regarded as continuing the old (1425) University of Leuven”.

Quinto, se a universidade 2 não pode ser considerada continuidade de 1, nem 3A nem 3B podem fazê-lo, nem podem acrescentar a data de 1425 depois de seu nome, nem sequer usar o logo gótico indicativo de origem medieval que a universidade 2 passou a usar em 1909.

Assim, em conclusão, a data de fundação de ambas, 3A e 3B, deve ser vista como sendo 1968 e nenhuma das duas pode ser considerada uma continuação, seja de 2, seja, muito menos de 1, não devendo divulgar como data de sua fundação o ano de 1425 nem usar um logo gótico que que a universidade 2 passou a user em 1909, para dar a impressão de que era a continuação da universidade 1.

Reconhece o artigo / verbete, entremente, três verdades:

a)  A universidade 1, de 1425, extinta em 1797, era a universidade mais antiga dos chamados Países Baixos (que incluem a Holanda, a Bélgica e Luxemburgo, também, conhecidos como BENELUX: Belgium, Netherlands e Luxembourg), e por quase quatrocentos anos exerceu bem suas funções, sendo a responsável por tornar a Bélgica um centro de excelência na área de teologia católica, filosofia e ciências humanas;

b) A universidade 3A, embora possa pleitear, como é afirmado no site da universidade, (a) ser “Belgium’s largest university”,  (b) “one of the . . . most renowned universities in Europe”, (c) “to have been based in the city that shares its name, e (d) “to offer degree programmes at campuses in 11 Belgian cities, including Brussels, Ghent and Antwerp”; NÃO PODE REIVINDICAR, COM EXCLUSIVIDADE, como o faz em seu site, o seguinte:

(a) “to have been a centre of learning for nearly six centuries

(b) “to be one of the oldest . . . universities in Europe”.

[Vide http://www.kuleuven.be/kuleuven/, em holandês, e, em inglês, http://www.kuleuven.be/kuleuven/english/%5D.

c) Ela própria, a universidade 3B, pode reivindicar e reivindica (a) “to be Belgium’s largest French-speaking university”, (b) “to be located in Louvain-la-Neuve”, meros 20 km ao sul de Bruxelas, cidade “expressly built to house the university”; (c) “to have satellite campuses in Brussels, Charleroi, Mons and Tournai”; MAS NÃO PODE REIVINDICAR OU SEQUER SUGERIR que ela seja uma das instituições que mais contribuiu para o desenvolvimento da teologia católica no mundo, nem que seja considerada “a mais antiga universidade católica ainda em existência” [como parece sugerir o site https://en.wikipedia.org/wiki/Université_catholique_de_Louvain%5D.

Minha conclusão:

PRIMEIRA:

A atual universidade de língua holandesa (3A) não hesita em reivindicar continuidade histórica (ainda que não legal) com as universidades precedentes, a 2 (de 1834) e a 1 (de 1425). Mas ela parece ir além, reivindicando que sua continuidade é exclusiva, isto é, não beneficia a atual universidade de língua francesa — no que está errada.

SEGUNDA:

A atual universidade de língua francesa (3B) questiona a pretendida continuidade exclusiva da atual universidade de língua holandesa e afirma que ambas são “co-irmãs”, considerando o ocorrido em 1968 como um desmembramento da universidade 2 em duas instituições co-irmãs, que, embora não tenham dividido o local em que operavam, nem os prédios que eram sua sede, dividiram seu acervo bibliográfico, conforme a língua dos livros, entre outros critérios.

Eis como ela descreve, com certo tato, mas de forma que não deixa espaço para equívocos, a divisão de 1968:

“With the democratization of university education already stretching existing structures, plans to expand the French-speaking part of the university at a campus in Brussels or Wallonia were quietly discussed from the early 1960s, but it was not anticipated that the French-speaking section would become an entirely independent university and lose all of its buildings and infrastructure in Leuven. The first stone of the new campus at Louvain-la-Neuve was laid in 1971, and the transfer of faculties to the new site was completed in 1979.”

Em outras palavras: parece que os belgas de fala holandesa deram algo parecido com um golpe em seus colegas de fala francesa.

Assim, a atual universidade de língua francesa (3B) também reivindica (embora sem exclusividade) continuidade histórica (ainda que não legal) com as universidades precedentes, a 2 (de 1834) e a 1 (de 1425). É por isso que reivindica ser uma das instituições que mais contribuiu para o desenvolvimento da teologia católica, sendo parte da “mais antiga universidade católica ainda em existência” – isso tudo, junto com sua “co-irmã”, a universidade de língua holandesa.

É por isso que o site da atual universidade de língua francesa (3B) frequentemente se refere à Universidade Católica de Louvain como se ainda fosse uma só, dividida, apenas por questões linguísticas/logísticas, em duas unidades, uma de língua holandesa, outra de língua francesa, como quando afirma:

“The Université Catholique de Louvain educates around 27,261 students from 127 nationalities in all areas of studies at its different campuses. It has educated a large part of Belgium’s elite and is still considered, with its Dutch-speaking sister, as a centre of excellence in many fields. In 2006, it was ranked 76th in the world universities ranking established by the Times Higher Education supplement (24th in Europe). In the 2011 QS World University Rankings the Université Catholique de Louvain was ranked 125th overall in the world, moving up one place from its position of joint 126th in the 2009 THE–QS World University Rankings (in 2010 Times Higher Education World University Rankings and QS World University Rankings parted ways to produce separate rankings).”

O site da universidade de língua holandesa (3A), por sua vez, parece esforçar-se para demonstrar que só ela incorpora a continuidade histórica. Veja-se a afirmação a seguir:

“Since the 15th century, Leuven, as it is still often called, has been a major contributor to the development of Catholic theology. It is considered the oldest Catholic university still in existence.”

Vou considerar como válida a tese da atual universidade de língua francesa relativa à continuidade histórica (deixando de encarar a questão da continuidade legal). Assim, a Universidade de Louvain, a mais antiga da Bélgica, foi fundada, portanto, em 1425, 75 anos antes de o Brasil ser descoberto, e mais de 500 anos antes da criação da primeira universidade brasileira de fato – mas bem depois da Universidade de Paris, de Bolonha, de Cambridge, Oxford, etc. – e até mesmo da Universidade de Coimbra. Continua até hoje, a despeito da interrupção de 1797 a 1834 e do desmembramento de 1968, a ser uma das mais importantes universidades mundiais, especialmente no tocante ao ensino de filosofia e teologia católica.

Se ainda tiver tempo, antes de voltar para o Brasil, vou visitar Louvain-la-Neuve, embora esteja preparado para encontrar uma cidade não charmosa quanto Louvain-la-Vieille.

Em Bruxelas, 13-15 de Janeiro de 2017.

20170111: O Vigésimo Dia na Europa (Amsterdam)

Ontem, dia 11 de Janeiro, passamos literalmente o dia em Amsterdam. Ao final do dia anterior, quando a Paloma e as meninas retornaram de Luxemburgo, eu me sentia melhor e resolvemos ir até a Amsterdam (ou Amsterdã, como se escreve em Português – embora eu tenha encontrado a grafia Amesterdão também). Estávamos todos ansiosos pela visita a essa cidade, por uma variedade de razões, que declinarei a seguir. Eu já havia estado lá, como mencionei em um artigo anterior, em 2003, no mês de Setembro, por três dias, numa reunião da Microsoft, realizada num hotel ao lado do aeroporto de Schiphol (of all places). Isto significa que passamos os três dias  enterrados dentro do hotel, só saindo nas duas primeiras noites para jantar — a primeira noite sem sequer ir ao centro de Amsterdam, jantando num hotel a uns dois quilômetros do aeroporto, ao qual fomos a pé, andando ao lado de um canal numa área quase rural. Só na segunda noite fomos de micro-ônibus até o centro de Amsterdam, mas sem conseguir ver muito (apesar da uma rápida passagem pelo centro por gentileza do motorista). Fomos jantar num tipo de teatro-restaurante que, depois do jantar, fazia uma crítica política e social (inclusive religiosa) extremamente irreverente, embora com elementos divertidos. Em 2003 o presidente americano era o Bush (o filho), uma figura sobre a qual humoristas metidos a críticos políticos sempre adoraram fazer piada, e o anterior fora o Clinton, também objeto de muitas piadas, em especial pela galinhagem dele. Clinton era considerado “de esquerda” (esquerda cor-de-rosa, social democrata),  por isso os humoristas (em geral de esquerda) o respeitavam um pouco mais do que ao Bush, mas mesmo assim, nem tanto… Já tentavam, naquela época, treze anos e pouco atrás, inflar a bola da Hilary. Lembro de uma piada que contaram, que dizia que o casal, uma vez, encontrou um ex-namorado da Hilary, que acabou por não dar certo na vida em nenhum sentido, e que o Bill teria dito à Hilary: “Está vendo, Hilary, se você tivesse se casado com ele, hoje você seria mulher de um pobretão” — ao que ela teria respondido: “Aí é que você se engana: se eu tivesse me casado com ele, ele hoje seria presidente…”. Bom: o importante é que ela não foi.

Voltemos às coisas que despertavam nossa curiosidade em relação a Amsterdam.

Em primeiro lugar, conhecer (dando uma volta pelo local), a famosa zona de prostituição, no centro da cidade, próxima à estação ferroviária, em que as moças são exibidas seminuas em vitrines, para a escolha por parte dos fregueses.

Em segundo lugar, conhecer as lojas e os museus de maconha, que é vendida e usada livremente na cidade.

Em terceiro lugar, visitar a Casa de Anne Frank, que é hoje um museu celebradíssimo.

Em quarto lugar, se desse (não deu), visitar algum museu ou alguma galeria relativa a um dos três maiores pintores holandeses: Rembrandt, Vermeer e Van Gogh.

Em quinto lugar, eu, pessoalmente, na qualidade de professor de História da Igreja e História do Pensamento Cristão, queria conhecer algo sobre o Protestantismo Holandês, não só por causa da chamada “Invasão Holandesa” nas terras então portuguesas do que é hoje o Brasil, mas por causa do Arminianismo, do Concílio de Dort, e do fato de que os “Pilgrim Fathers” ingleses que levaram o Protestantismo para a América do Norte, saíram da Holanda, onde haviam se refugiado, e do fato de que New York foi fundada por holandeses com o nome de New Amsterdam (e depois cedida gentil e gratuitamente para os ingleses).

O tempo foi muito curto para tudo, e, por isso, quase tivemos problemas sérios no retorno, com o horário dos trens. Essa história acabou sendo um outro ponto interessante da viagem, totalmente não planejado (como deveria ter sido): o sexto.

Primeiro, o “Red Light District”. O que mais chama a atenção para Amsterdam é a forma aberta e, digamos, desavergonhada, com a qual lidam com o sexo, em especial em sua vertente comercial.

Todo o mundo sabe que a prostituição existe desde os primórdios da história. A própria Bíblia contém várias histórias que a envolvem, a principal delas sendo a de Rahab, cuja história é contada principalmente no livro de Josué. Ela teria ajudado os descendentes de Jacó (renomeado Israel) a conquistar Canaã, a Terra Prometida, liderados, agora, não mais por Moisés, mas por Josué (vide a história dela no livro de Josué, capítulo 2). Por sua ajuda ela é celebrada na Bíblia como uma mulher de fé que teria sido justificada por suas ações (as teologias de Paulo e Tiago ficam meio que misturadas na história). Tão celebrada foi ela que, nos evangelhos, chega a figurar nas geologias de Jesus (Mateus 1:5; compare-se Hebreus 11:31). Como é que uma prostituta foi acabar na linha genealógica de Jesus é uma história complicada, e, por vezes, mal contada por gente que quer evitar que Rahab figure como antepassada de Jesus. Mas em Ruth 4:13-22 temos a história do casamento de Boaz e Ruth. E ali se diz que o pai de Boaz foi Salmão, e que um dos filhos de Boaz (com Ruth) foi Obede, que, por sua vez, foi pai de Jessé, que foi o pai de David. Acontece, porém, que o tal Salmão foi pai de Boaz com a tal da Rahab. Se Boaz foi bisavô de David, Rahab foi sua trisavó (ou tataravó, dependendo da nomenclatura usada). E Jesus, segundo Mateus, é descendente de David. Logo, está feita a conexão.

Mas deixemos a Bíblia de lado. Como dizia, todo o mundo sabe que a prostituição existe desde o início do mundo, tanto que a profissão de prostituta é geralmente considerada a mais antiga do mundo. [Jacques Barzun, numa frase de que gosto muito, afirma, em seu livro The American University, que “college teaching is perhaps the only profession (with the exception of the proverbially oldest in the world) for which no training is normaly given or required.”]. É apenas a nossa proverbial hipocrisia (e posso pegar emprestada a palavra ‘proverbial’ de Barzun) que faz com que façamos de conta que a prostituição não existe ou que, então, se existe, fica relegada a bairros distantes, pejorativamente chamados de “zona”. É verdade que, mais recentemente, tem se tentado reabilitar, e até mesmo glamorizar, a figura, dando-lhe um upgrade, como em recente novela das 22h, pretendendo que “garotas de programa” sejam algo diferente, mais chique, quiçá até absorvível pelas melhores famílias… Enfim: Amsterdam trata a questão de forma aberta, transparente e, como disse, desavergonhada. A coisa existe, e o serviço é comercializado ali no centro da cidade, à vista de quem quiser enxergar (e só não enxerga quem não quer), o serviço tem uma nobre tradição testemunhada por vários museus, e faz parte de um comércio (ou algo que os americanos chamam de uma indústria) que movimenta bilhões de dólares: o comércio ou a indústria do sexo, que inclui a prostituição, a pornografia, a divulgação e a venda de implementos e acessórios, etc. A televisão e a propaganda giram em torno desse comércio ou dessa indústria, algo que se comprova pelo fato de que quase tudo, na televisão e na propaganda, e até mesmo na vida, é, hoje, erotizado. Até as crianças (em especial as meninas) são, hoje, vítimas de um processo de precoce erotização, passando a usar muito cedo baton, salto alto, sutiã, e outros itens dedicados em transformar a mulher em objeto erótico comercial.

Enfim… Passamos em frente de várias casas de prostituição, todas elas identificadas com a luz vermelha (requerida por lei para que ninguém se confunda), e exibindo nas vitrines mulheres atraentes, de todos os tipos, loiras, morenas, ruivas, mulatas, negras, orientais, em diferentes níveis de “undress”, como se diz em inglês — mas nenhuma delas totalmente pelada. Passamos em frente dos museus e das lojas especializadas (sex shops), mas não é preciso entrar: há nas onipresentes lojas de lembrancinhas seções que parecem sex shops baratas, que vendem apetrechos eróticos de vários tipos. Curiosamente, quase todos os apetrechos das lojas de lembrancinhas são ligados ao órgão sexual masculino (que aparentemente é só um), não ao feminino (que, aparentemente, é encarado de forma mais moderna, ou seja, diversificada, sendo até possível falar em órgãos sexuais femininos, assim, no plural).

Item 2, a maconha, ou a cannabis, que eu achava que queria dizer a mesma coisa, mas a Priscilla me informou que a cannabis é apenas “o princípio ativo” da maconha, ou marijuana. Tem de tudo à venda que, supostamente, é feito de maconha ou contém cannabis: de cerveja a sorvete. Apesar de ter brincado que iria experimentar um cigarrinho (que em Amsterdam é fumado na rua, mas em geral em ambientes coletivos – parece ser inadmissível fumar a coisa sozinho, no solidão de um quarto), não tenho o menor interesse na coisa. Devo ser uma das poucas pessoas que, hoje na casa dos setenta, atravessou toda a década dos sessenta, nos Estados Unidos, e um bom pedaço da década de setenta, ao lado de Berkeley, onde a Câmara Municipal, formada majoritariamente por alunos de Berkeley, legalizou a maconha no início da década, sem nunca ter fumado um baseadinho, mas é verdade. Deixei de fumar em 1983 (no dia de meu quadragésimo aniversário), e nunca mais botei um cigarro na boca.  Não seria agora que o faria, ainda mais com um de maconha. (Fiquei surpreso ao ler, um dia desses, que o Dráuzio Varella afirmou que, se um médico lhe dissesse que estava para morrer, e lhe perguntasse qual seu último desejo, diria que era fumar um cigarrinho – que ele também, sabiamente, abandonou há muito tempo).

O terceiro ítem é Anne Frank (Annelise Frank). Confesso, meio envergonhado, que, embora conhecesse a história, nunca li o diário da mocinha. Em geral sou meio refratário a crianças e adolescentes prodígio, e nunca gostei de desfrutar do que chamo de literatura lacrimosa — aquela escrita para mexer com as emoções, ou aquela que mexa com as emoções, mesmo que não tenha sido escrita com a intenção de fazê-lo (como me parece ser o caso do “Tagebuch” da frankfurtiana residente de Amsterdam). Depois de ver o museu, resolvi que vou ler. E o que me levou a decidir foi uma frase que ouvi num video gravado pelo pai de Anne, que sobreviveu ao Holocausto, dizendo que levou muito tempo lendo o diário, porque não conseguia reconhecer naquilo que estava escrito a figura de sua filha. Ele diz, taxativamente, que foi forçado a admitir que, embora convivesse com a filha o tempo todo, e, durante dois anos, em ambiente pequeno de clausura, não a conhecia de fato — só vindo a fazê-lo quando leu o que ela escreveu. Fiquei tocado com essa admissão. É chocante reconhecer que é possível que convivamos a vida toda com nossos filhos, sem, em realidade, verdadeiramente conhecê-los, e que, se eles não colocarem o que de fato são para fora, com a franqueza que um diário pessoal aparentemente permite, pode ser que nunca venhamos a conhecê-los, como em realidade são. Fico por aqui neste tópico.

Quanto aos pintores, não vimos nada, como já admiti – exceto uns postais da pintura de Johannes Vermeer, The Girl with a Pearl Earring (quadro tornado famoso pelo filme de 2003 estrelado por Scarlett Johansson – vide https://en.wikipedia.org/wiki/Girl_with_a_Pearl_Earring_(film) e http://www.imdb.com/title/tt0335119/). Vou, porém, fazer referência a Rembrandt em relação ao item seguinte.

Em quinto lugar, o Protestantismo holandês. Quando procurávamos o museu de Anne Frank, passamos em frente a uma magnífica igreja, da qual tirei inúmeras fotografias. Qual não foi a minha surpresa, porém, quando a Paloma me disse que a igreja era protestante, aberta a visitação, e que a visitação era gratuita. Entramos e aprendi muita coisa em mais ou menos uma hora que permanecemos lá.

A igreja em questão é a Westerkerk (ver https://en.wikipedia.org/wiki/Westerkerk; https://en.wikipedia.org/wiki/Westerkerk; http://www.westerkerk.nl/english). Terminou de ser construída em 1631, em pleno século 17, pouco mais de uma década depois da realização do famoso Sínodo de Dort (comparem-se, acerca desse evento os seguintes sites, envolvendo em especial a Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Synod_of_Dort; https://pt.wikipedia.org/wiki/Sínodo_de_Dort; http://www.mackenzie.br/7057.html), tão importante na igreja reformada de tradição calvinista e que firmou as posições do calvinismo ortodoxo (ou ultraortodoxo, como preferem alguns) e do arminianismo em uma controvérsia que dura até hoje.

A igreja, que é uma das mais lindas de Amsterdam tem uma cripta, em que famosos estão enterrados, entre os quais, Rembrandt, seu filho e sua companheira (tem gente que se refere a ela como amante, porque os dois não eram formalmente casados). Há um probleminha, porém: a igreja perdeu a referência sobre qual o túmulo do Rembrandt. Assim resolveram escolher um, perto do túmulo do filho dele, cuja referência foi preservada, e fizeram uma lápide em pedra para homenagea-lo.

Tenho certeza de que vou falar mais sobre essa igreja no futuro. Por enquanto, fica essa breve referência. O texto já está muito longo. No Facebook colocarei umas fotos que tirei dela, por fora e por dentro.

Mas falta discutir um último (e sexto) assunto: a viagem de volta.

Tendo vivido em São Paulo, a gente se acostuma com o fato de que a cidade de certo modo vive e respira 24h por dia. São muitos os negócios, na cidade, que funcionam dia e noite, 24h: farmácias, supermercados, bares e restaurantes, etc. Embora o transporte público (ônibus, metrô e trem) fique sem funcionar por umas quatro ou cinco horas por noite, a gente em geral não se preocupa muito com isso — porque, afinal de contas, da classe média pra cima quase ninguém usa transporte público.

Aqui na Europa, com exceção, provavelmente, de algumas megametrópoloes, como Londres, Paris e Berlim (e, talvez, Madrid e Barcelona), as coisas fecham, e fecham cedo. Magazines e supermercados fecham por volta das 18 ou 19 horas em cidades internacionais e charmosas como Genebra — e aqui em Bruxelas. Lembro-me de que no dia 1 de Janeiro de 2013 nós e o casal Sílvia Klis e Edson Saggiorato penamos para encontrar um restaurante aberto (depois de a gente ter esnobado o restaurante do hotel em que estávamos) em Chesky Krumlov, uma cidadezinha butique, linda de morrer, Patrimônio Histórico, Cultural e Natural da UNESCO, no sul da República Tcheca. Assim sendo, esquecemo-nos de que, de Amsterdam até Bruxelas, de trem comum (não de alta velocidade), leva umas quatro horas. Embarcamos, ontem à noitinha, no trem das 19h04 em direção a Rotterdam e Roosendaal, para de uma dessas fazer conexão para Antwerpia (Anvers) e de lá para Bruxelas, quando nossa encarregada pela logística de transporte, a Priscilla, e sua chefe, a Paloma, se deram conta de que não chegaríamos a Bruxelas no mesmo dia… 😦  A coisa ficou preocupante quando nos demos conta de que, chegando a Bruxelas de madrugada, não haveria trem ou metrô para a vizinhança de nosso hotel e teríamos de pegar taxi – algo que normalmente relutamos em fazer.

[A Paloma tem uma explicação plausível para os problemas com horário que, a bem da verdade, devo informar. No período de Dezembro a Janeiro as companhias ferroviárias europeias cancelam alguns trens para fazer manutenções na rede, por ser um período de baixo movimento, por causa do Inverno e dos feriados do fim de ano. Assim, alguns trens que a gente imaginou que estariam funcionando ontem à noite de fato não estavam, passando a haver lacunas na operação de fato dos trens, em relação aos horários oficialmente publicados.]

Aqui preciso explicar, porque este blog pretende ser, além de entretenimento, informação útil para quem pretende viajar, algo que pode parecer pretensioso. Compramos passes do Eurail para cada um de nós. No período do Inverno Europeu, esses passes têm algum desconto significativo, de modo que nos fez sentido adquirir o passe de primeira classe (para não precisar aguentar estudante, turista que vai esquiar carregando seus esquis e suas botas, etc.). Mesmo com os descontos, não é o que se possa chamar barato, quando quatro pessoas estão viajando juntas. Compensamos no hotel (nos hoteis). Ficamos em hoteis confortáveis, mas sem luxo, da rede Accor (que eu uso há mais de dez anos, sempre achando que eles têm produtos e serviços para todos os gostos e, em geral, representam o melhor preço/benefício para qualquer gosto). Por que digo isso? Porque, com a popularização dos passes, mesmo os de primeira classe, as companhias ferroviárias começaram a cobrar taxas adicionais (chamadas de taxas de reserva) para os trens mais sofisticados e de alta velocidade, que podem chegar a 30 euros por pessoa por trecho viajado num mesmo trem. (Antigamente essas taxas custavam de 3 a 6 euros, até mesmo para os TGVs). Assim, temos procurado evitar esses TGVs, porque, numa viagem de ida e volta, de um segmento ou trecho só, para nós quatro, eles nos obrigam a gastar cerca de 240 euros. Se forem dois segmentos ou trechos, o dobro disso — ou seja, quase 500 euros, ou cerca de 2 mil reais.

Vendo a situação de emergência em que nos encontrávamos, correndo o risco de chegar a Bruxelas de madrugada, optei por pegar um desses trens de alta velocidade, talvez o mais chique deles, o Thalys, pagando 120 euros para ir de Rotterdam até Bruxelas — algo feito em cerca de uma hora (contra mais de duas horas do trem comum, que para em quase toda estação. Em compensação, ganhamos um belo jantar, com vinho, queijos, etc., que está incluso no preço da chamada “taxa de reserva” de 30 euros. Como é inverno, pudemos fazer reserva na própria estação de Rotterdam, sem necessidade de antecedência. Mas tivemos de pagar a taxa. Saiu um jantar meio carinho, mas a experiência valeu a pena. Cerca de 22h40 estávamos em casa — excitados por termos vivido um momento de esbanjamento luxuoso (ou seria de luxo esbanjatório?).  🙂

C’est ça. Hoje ficaremos na cidade ou em sua vizinhança, como Louvain (Leuwen). Temos mais doze dias de Europa (incluindo hoje, dia 12, e o dia 23, quando viajaremos à noite de volta para o Brasil, via Zürich).

Em Bruxelas, 12 de Janeiro de 2017.

20170110: O Décimo Nono Dia na Europa (Luxemburgo)

No dia 10 de Janeiro fiquei recolhido no hotel “de molho”, por causa de uma severa gripe. Mas a Paloma, a Bianca e a Priscilla foram passar o dia em Luxemburgo.

Vou deixar que a Paloma descreva o que fizeram, se o desejar. Só coloco esta entrada no blog para manter a regularidade dos dias.

Em Bruxelas, 11 de Janeiro de 2017.

20170109: Qual Seria a Capital Intelectual da Europa?

Na sequência do meu artigo anterior, fiquei pensando no seguinte: se a Europa fosse escolher uma “capital intelectual”, que cidade merecia sê-lo?

Penso em várias: Roterdã, em homenagem ao grande Erasmo; Edinburgo ou Glasgow, em homenagem a David Hume e a Adam Smith; Genebra, em homenagem a Calvino, Rousseau e Voltaire (mais a este do que aos outros dois); Paris, em homenagem a Diderot, D’Alembert, Condorcet, D’Holbach, Helvétius (deixando Voltaire, Rousseau e o próprio Hume de fora, apesar de ter vivido aí um bom tempo); Könisberg, em homenagem a Kant (Deus nos livre); Londres, em homenagem a Popper e a Hayek, dois austríacos que mudaram o mundo em Inglês; Berlin, pelos grandes teólogos que lá militaram no século 19… Qual cidade? Não podemos nos esquecer de Atenas e de Roma, embora estejam lá atrás, antes mesmo de existir o que hoje chamamos de Europa.

Eu votaria em Paris, pela contribuição incomparável de “Los Philosophes” à cultura mundial: são os pais do Iluminismo, muito mais do que Kant. Agora incluo Voltaire, Rousseau e meu grande mentor, Hume, que foi Adido Cultural da Embaixada Britânica em Paris por muitos anos.

Aceito críticas e contribuições (como sempre).

Em Bruxelas, 9 de Janeiro de 2016.

20170109 – O Décimo Oitavo Dia (Europa)

Fiquei pensando, um dia desses, por que a Comunidade Europeia escolheu como principais cidades de sua nova ordem as cidades de Bruxelas, Luxemburgo e Etrasburgo.

Bruxelles é a capital de um país relativamente pouco importante da Europa, a Bélgica. Por que escolher Bruxelles, por que agradar a Bélgica e Bruxelas? Há vários países e cidades mais importantes: Alemanha e Berlim, por exemplo; França e Paris; Itália e Roma; Espanha e Madri; Inglaterra e Londres (apesar da distância imposta por um pequeno canal, que separa a Inglaterra e Londres da Europa Continental). Seria possível honrar, se não o poderio atual, o poderio passado, colocando os três poderes da Comunidade Europeia em Atenas, na Grécia, em Roma, na Itália, e em Istambul, na Turquia (que ocupa hoje o lugar de Constantinopla e Bizâncio). O fato de que esses três países não representam um grande poderia econômico, político e militar poderia ser invocado para ajuda-los a preservar um pouco da glória que um dia tiveram… Seria possível também honrar, não a antiguidade clássica, mas o início da idade moderna, com a navegação e o comércio, contemplando Lisboa, em Portugal, Madrid, na Espanha, Veneza, na Itália… Há muitas possibilidades — mas Bélgica, Luxemburgo (um Grão-Ducado e nem mesmo um país completo) e a Alsácia-Lorena???

Em meu esforço de encontrar uma resposta, acabei encontrando uma resposta que parece ter pouca plausibilidade: foram escolhidas as cidades e os estados que hoje representam a Comunidade Europeia exatamente em função de sua quase nula importância histórica, política e econômica. Se fosse escolhida a Alemanha, a França protestaria; se fosse escolhida a França, a Alemanha protestaria… Na verdade, creio que mais gente protestaria, porque a Alemanha provocou as duas guerras e a França esteve entre os primeiros países a perdê-las… Na realidade, historicamente, são dois perdedores (por mais que estufem o peito hoje). Recompensar grandeza (ou suposta grandeza) atual não parece viável. A Inglaterra, a grande heroína europeia das duas guerras bem que teria merecido a honra, mas sua insularidade geraria protestos e seu passado glorioso poderia despertar nela sonhos de um novo império…

Recompensar potências (ou pseudopotências) dos séculos 15-16 também não parece muito justo. Portugal, Espanha e Itália hoje não representam bem a Europa. Sua economia está em frangalhos. Sobra-lhe como fator de certo orgulho o futebol… Barcelona, Real Madrid e Milan são potências de primeira linha; Benfica e Porto, de segunda… Mas isso, por si só, não justificaria a recompensa que representa ser capital da Europa Comunitária.

Sobram as não-potências do século 20.

Quem sabe não foi uma decisão sábia?

Eu, por mim, teria escolhido Amsterdã (Holanda), Copenhagen (Dinamarca), Oslo (Suécia) e Helsinque (Finlândia). Tem uma cidade a mais aí do que os três poderes do legislativo, judiciário e executivo. Mas acho que a Comunidade Europeia seria bem mais saudável e menos burocrática e metida a besta do que é hoje. Sei não.

Em Bruxelas, 9 de Janeiro de 2016.

20170108: O Décimo Sétimo Dia (Colônia)

Não sou estudioso de guerras em geral, nem da Segunda Guerra Mundial, em particular. Na verdade, não gosto de histórias sobre guerras – nem em forma de livro, nem em forma de filme. Há outros tipos de histórias que me interessam muito mais.

Mas, depois da visita de ontem a Colônia (Köln, em Alemão, Cologne, em Francês e Inglês), eu, hoje de madrugada, resolvi verificar dados sobre destruição urbana causada na Europa durante a Segunda Guerra, especialmente no Fronte Ocidental e, em particular, pelos aliados – e dentre os aliados, em especial pela Royal Air Force inglesa.

Fiquei com a nítida impressão de que em meados de 1942, quando a guerra avançava para o fim do seu terceiro ano completo (ela começou oficialmente com a invasão da Polônia pela Alemanha em 1 de Setembro de 1939), os aliados (aliados da Inglaterra, bem entendido) estavam:

* OU derrotados e ocupados (como, por exemplo, a França, a Bélgica, a Holanda, etc., que, tendo sido derrotadas no campo de batalha, estavam ocupadas no sentido literal ou territorial do termo)

* OU ocupados em não ser derrotados em outras frentes de guerra (como, por exemplo, os Estados Unidos e a Rússia, que, estavam ocupados em outro sentido do termo, o de ter sua atenção, seu tempo e seus recursos humanos, materiais e financeiros envolvidos em um esforço hercúleo para não serem derrotados em outras frentes (os Estados Unidos no Pacífico, a Rússia na frente oriental da guerra europeia).

Assim, em meados de 1942, aparentemente só sobrava mesmo a Inglaterra para resistir a Alemanha no Fronte Ocidental da guerra europeia.

Alguns caveats precisam, porém, ser registrados:

a) A Alemanha havia assinado com a Rússia, em 1939, dias antes do início da guerra, um tratado de não-agressão: o famoso “Pacto de Não-Agressão Nazi-Soviético” firmado entre Hitler e Stalin (que tanto incomoda os comunistas até hoje). Esse pacto teve um “nome oficial” e um “nome de guerra”: o oficial sendo, em Inglês, “Treaty of Non-Aggression Between Germany and the Union of Soviet Socialist Republics”, e o “de guerra”, “The Ribbentrop-Molotov Pact”, por ter sido assinado pelos Ministros das Relações Exteriores dos dois países, respectivamente, Joachim von Ribbentrop e Vyacheslav Molotov): esse pacto foi assinado em 23 de agosto de 1939, nove dias antes, portanto, do início das hostilidades: em 1 de Setembro, a Polônia foi invadida por pelo menos dois lados: pela Alemanha, vindo do Oeste, e pela Rússia, vindo do Leste. (Vide, https://en.wikipedia.org/wiki/Molotov–Ribbentrop_Pact, para uma descrição do pacto. Vide, para uma descrição do início da guerra com a invasão da Polônia, https://en.wikipedia.org/wiki/Invasion_of_Poland.) No dia seguinte ao da assinatura desse pacto (24 de agosto), a Inglaterra tentou negociar com o Ministro da Defesa da Alemanha, mas foi informada que o pacto não estava em discussão, porque, desta vez, diferentemente do que aconteceu na Primeira Guerra, a Alemanhã não iria tentar conduzir duas guerras ao mesmo tempo, uma no Oeste, outra no Leste. Assim, no dia seguinte (25 de agosto) a Inglaterra e a França assinaram um pacto entre as duas nações comprometendo-se a colaborar na defesa da Polônia. Essa ação aparentemente surpreendeu Hitler, que chegou a adiar a invasão da Polônia (originalmente prevista para 26 de agosto) para dali uma semana, quando de fato aconteceu, em 1 de Setembro. (Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Molotov–Ribbentrop_Pact; e http://www.austinbug.com/ larvaluebug/larry/archlarry7-11.html.) Entre os dias 23 e 25 de agosto de 1939 o cenário para a guerra estava pronto, portanto, havendo uma aliança entre a Alemanha e a Rússia (e outros países de menor potencial bélico).

b) Para a França e países vizinhos (como a Bélgica e a Holanda), inicialmente aliados da Inglaterra, a guerra de certo modo terminou, oficialmente, em Junho de 1940, com sua derrota e a ocupação de seu território pela Alemanha. Depois, só resistência “subterrânea” (Vide  a esse respeito http://www.austinbug.com/larvaluebug/larry/archlarry7-11.html. Vide também o livro Breendonk 1940-1945 [Editions Racine, 2004, no original em holandês, e 2005, na tradução para o francês], que menciono também no parágrafo seguinte, onde se diz: “La Belgique a capitulé le 29 mai 1940. La France tient quelques semaines de plus, jusqu’à ce qu’elle demande l’armistice le 17 juin” [p.17]. Eis o fato curioso que o autor registra na p.16: “La nouvelle de revers français produit curieusement un effet stimulant sur les Belges”… Em outras palavras: sua própria derrota deixou os belgas pessimistas; mas a dos franceses melhorou seus ânimos, pois que lhes mostrou que até o grande inimigo havia caído junto diante dos poderosos alemães!)

[Conforme assinalei em artigo de 5 de janeiro neste blog, no final de Agosto de 1940 a Alemanha tomou posse do forte de Breendonk na Bélgica e o transformou em Campo de Concentração (eufemisticamente chamado de “Campo de Acolhimento” e “Campo de Transição”). Vide  o livro de Patrick Nefors, Breendonk 1940-1945, mencionado no parágrafo anterior, p.22. Conforme se informa na página seguinte do livro, a p.23, os primeiros prisioneiros foram trazidos para o campo em 20 de setembro de 1940. Conforme observei no artigo de 5 de janeiro, os prisioneiros foram patriotas belgas que se opunham à ocupação alemã, judeus, maçons, alguns membros do clero católico (afinal de contas, a Bélgica era um país predominantemente católico e a Alemanha, predominantemente protestante), e, depois da revogação do pacto de não-agressão da Alemanha com a Rússia, e mesmo, em alguns casos, antes, comunistas.]

c) O pacto da Alemanha com a Rússia foi, na prática, denunciado na madrugada de 22 de Junho de 1941, menos de dois anos depois de assinado, quando a Alemanha lançou um enorme ataque às posições russas no leste da Polônia, marcando o início da invasão da Rússia conhecida como Operação Barbarossa (vide https://en.wikipedia.org/wiki/Molotov–Ribbentrop_Pact). Isso quer dizer que, em meados de 1942, quando a Inglaterra começou a bombardear sistematicamente cidades alemãs selecionadas, já fazia cerca de um ano que os russos haviam passado de aliados para inimigos da Alemanha – mas eles pouco podiam ajudar a Inglaterra na Frente Ocidental da guerra, envolvidos que estavam em defender o seu próprio território atacado.

[A Operação Barbarossa fez com que começasse haver perseguição generalizada aos comunistas (trotskistas, esquerdistas em geral) não só na Alemanha mas também nos países ocupados, como a França, a Holanda, e a Bélgica. Nesta, em especial, isso acarretou um aumento considerável de comunistas e assemelhados entre os internados no Campo de Concentração de Breendonk. Vide o livro de Patrick Nefors, Breendonk 1940-1945, mencionado no parágrafo anterior, p.28 e sqq, a seção “22 juin 1941: une journée lourde de consequences”.]

d) Os Estados Unidos entraram na guerra depois do ataque Japonês a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, declarando guerra ao Japão, e, aproveitando a ocasião, também à Alemanha e seus aliados, mas em meados de 1942 ainda estavam muito ocupados com a guerra no Pacífico para poder efetivamente ajudar a Inglaterra na Frente Oeste da guerra na Europa. A guerra americana no Pacífico só veio a ser decidida com as bombas atômicas jogadas em cima de Hiroshima e Nagasaki em 6 e 9 de Agosto de 1945, mais de três anos depois, quando a guerra europeia já estava encerrada – seu fim, para efeitos práticos, é marcado, como Dia VE (“Victory in Europe“), pelo suicídio de Hitler em 30 de abril de 1945, embora o fim oficial tenha ocorrido dias depois. (A esse respeito, vide esses dois sites: primeiro, https://en.wikipedia.org/wiki/Atomic_bombings_of_Hiroshima_and_Nagasaki; segundo https://en.wikipedia.org/wiki/Victory_in_Europe_Day).

Assim, levados em conta esses quatro caveats, a Inglaterra, em meados de 1942, lutava virtualmente sozinha contra a Alemanha na Frente Ocidental (o famoso “Western Front”: vide o famoso filme, All Quiet on the Western Front [1979], com Richard Thomas, Ernest Borgnine e Patricia Neal, detalhes em http://www.imdb.com/title/tt0078753/). Assim, ela tinha de fazer alguma coisa. Sem ter alcançado unanimidade entre suas lideranças no sentido de que esta era a melhor solução, começou a usar a prática de sistematicamente bombardear algumas cidades consideradas estratégicas na Alemanha ou sob o controle alemão. (Vide o artigo bastante detalhado, talvez até excessivamente, em https://en.wikipedia.org/wiki/Bombing_of_Cologne_in_World_War_II.)

A cidade de Colônia, razoavelmente perto da divisa com a Bélgica (de cidade importante só há Aachen / Aix-en-Chapelle entre Colônia e a divisa com a Bélgica) foi a principal vítima dessa estratégia. Em 30 e 31 de Maio de 1942 os ingleses começaram a bombardear a cidade de forma intensa, sistemática e, por vezes, durante vários dias seguidos. (As condições climáticas representaram um fatos de azar para Colônia: inicialmente o ataque havia sido planejado para Hamburgo, onde está situado o maior porto da Alemanha, mas péssimas condições climáticas em Hamburgo levaram à mudança dos planos). (Vide, novamente, https://en.wikipedia.org/wiki/Bombing_of_Cologne_in_World_War_II.)

Reporta-se que 13.010 prédios residenciais foram totalmente destruídos, 6.360 seriamente danificados, e 22.270 levemente danificados. No tocante a edifícios não residenciais, 3.330 foram totalmente destruídos, 2.090 seriamente danificados e 7.420 levemente danificados, num total de 12.840 prédios atingidos, dos quais eram 2.560 instalações industriais e comerciais. Entre os edifícios totalmente destruídos nessa categoria (não-residenciais) havia 7 prédios com instalações administrativas governamentais, 14 prédios considerados públicos (museus, etc.), 7 bancos,  9 hospitais, 16 escolas, 17 igrejas e 10 prédios de interesse histórico. Entre 469 e 486 pessoas foram consideradas mortas pelos ataques, das quais cerca de 410 eram, supostamente, civis. 5.027 foram listadas como feridas e cerca de 45 mil foram deslocadadas, por terem ficado sem residência. (Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Bombing_of_Cologne_in_World_War_II.)

Nas categorias igrejas e prédios de interesse histórico, estava, infelizmente, a magnífica Catedral de Colônia. Sua construção iniciada em meados do século 13 (em 1248) e interrompida mais de dois séculos depois (em 1473), somente foi concluída em 1880, em pleno século 19 (mas seguindo o plano original). Sua inauguração, em 14 de Agosto de 1880, 632 anos depois de iniciada, contou com a presença do Imperador Guilherme I (Wilhelm I). (Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Cologne_Cathedral.)

A Catedral de Colônia é a maior catedral gótica, tem a segunda torre mais alta, bem como as mais altas torres duplas (157m), no Norte da Europa. A razão largura-altura de sua frente a torna a catedral com a fachada mais ampla do mundo. Ela é considerada um dos mais importantes monumentos do Catolicismo Medieval e Alemão, e foi declarada pela UNESCO um de seus World Heritage Sites em 1996. A Catedral de Cologne é, hoje, o monumento mais visitado da Alemanha, recebendo, diariamente, uma média de vinte mil visitantes. (Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Cologne_Cathedral.)

Durante os bombardeios aéreos da Segunda Guerra, a Catedral de Colônia foi atingida nada menos do que quatorze vezes. Severamente danificada, ela, entretanto, continuou de pé, ficando chocantemente destacada numa cidade totalmente arrasada e literalmente achatada no nível do chão. As torres gêmeas tornaram a catedral um alvo facilmente identificável para pilotos aliados. Depois da guerra, reparos foram iniciados imediatamente e concluídos em 1956. Um reparo de emergência feito em 1944 na base da torre noroeste, no qual foi usado material de péssima qualidade, caiu depois da conclusão dos trabalhos de reparação e deixou a torre danificada visível, nessa condição, até 2005, como uma lembrança da guerra. Mas nessa data decidiu-se restaura-la à sua aparência original. (Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Cologne_Cathedral.)

Foi essa a catedral que visitamos ontem. Até as meninas ficaram encantadas, especialmente com seu exterior, que, de certo modo, é mais impressionante do que o exterior da Catedral de Aachen (Aix-en-Chappele), embora o exterior desta tenha formas mais variadas. Do ponto de vista do interior, a de Aachen, embora bem menor, é bem mais impressionante. A vastidão do interior da Catedral de Colônia é comparável à da Catedral de Notre Dame de Strasbourg.

Lamento que a catedral tenha sido parcialmente destruída durante a guerra. Mas compreendo o que levou a Royal Air Force a usar a estratégia que escolheu. E admiro a tenacidade humana de reconstruir uma obra dessa magnitude. Como no caso das Twin Towers de New York, a Catedral de Köln mostra que o ser humano, quando quer, não deixa que o mal prevaleça.

Algumas fotos da fachada e da lateral direita, tiradas por mim ontem, podem ser vistas no Facebook em https://www.facebook.com/eduardo.chaves/posts/10154837810737141. Vejam-se também as belíssimas fotos  encontradas no excelente artigo da Wikipedia, em https://en.wikipedia.org/wiki/Cologne_Cathedral. Oportunamente tornarei disponível no Facebook todo um álbum de fotografias sobre Colônia (incluindo a catedral, naturalmente, e, também, o incomparável Christmas Market ou Weihnachtsmarkt).

Almoçamos comida típica em Cologne (linguiças, salsichas, fígado, etc.), como se pode ver em https://www.facebook.com/eduardo.chaves/posts/10154837059567141.

Em Bruxelles, 9 de Janeiro de 2017 (versão revisada no mesmo dia).

20170107: O Décimo Sexto Dia (Shopping in Bruxelles)

Hoje, 7 de Janeiro, Sábado, é o nosso décimo sexto dia Europa. Chegamos à metade. Temos mais dezesseis dias pela frente.

Hoje também é dia do aniversário de meus queridos tios Alice e Anello, já falecidos há bom tempo, mas que permanecem no meu coração e no de meus irmãos, além, natueijralmente, do coração dos meus primos, filhos deles (Anello Filho, Márcia, Mário, Élcio e Anelice).

Hoje resolvemos ficamos em Bruxellas e decidimos visitar um shopping center não muito longe de onde estamos. Ainda não havíamos visitado nenhum. A Priscilla resolveu ficar em casa, e, portanto, fomos a Bianca, a Paloma e eu, desbravando o frio e o gelo nas calçadas. Ao sair, vendo o chão escorregadio, fiz uma profecia de que hoje alguém cairia… Dito e feito. A Paloma “beijou o chão”, como se diz: caiu primeiro sentada e em seguida de costas, esparramou-se toda no chão, chegando a bater levemente a cabeça, e escorregando uns três pés pelo chão (quase um metro)… O chão estava realmente escorregadio. Felizmente não se machucou – só teve um daqueles ataques de riso incontroláveis, parecendo que nunca ia parar de rir… Eu, que já levei vários tombos feios durante minha vida, aprendi a não achar graça em tombos – menos ainda nos meus.

No shopping eu fui a duas lojas, uma chamada Media Market e a outra, a Fnac. A Paloma e a Bianca foram a essas duas lojas também, mas passaram o maior tempo em lojas de roupas em liquidação, como a H&M — a preferida delas.

Na Media Market tive vontade de comprar muita coisa, mas acabei comprando apenas um “Power Bank” de 10 qualquer coisa, por 29,99 Euros, e um disco rígido de 2,5” de 4TB, por 189,99 Euros, para fazer os meus backups, aliviando o SSD (Solid State Disk) e o SD Memory Card, ambos de 256 GB, do meu MacBook Air. Já havia trazido comigo um desses discos rígidos de 2TB, que havia comprado em Ushuaia, dois anos atrás, e um Power Bank de 6 qualquer coisa que comprei na Samsung. Agora tenho 6 TB de espaço para backups à disposição e 16 qualquer coisa de Power Bank, capaz de carregar o meu telefone Samsung Galaxy Notebook 4 nada menos do que oito vezes. (Digo 10 qualquer coisa porque não sei exatamente a que se refere a medida. Se algum entendido em energia me explicar, ficarei grato.

Na Fnac fiquei tentado a comprar um monte de coisa, mas resisti galhardamente. Até agora comprei apenas dois livros e um livrinho. Um livro é uma História Política da Bélgica e outro é a história do Campo de Concentração Breendonk. O livrinho é uma breve história de Aachen (Aix-en-Chapelle). Espero continuar resistindo a tentação de comprar mais, porque minha mala está no limite. Como as femininas andam comprando um monte de coisas, desconfio que uma delas terá de comprar uma mala extra. Se sobrar algum espaço para mim nela, compro mais uns livrinhos.

Ontem, ao entrar no shopping, passei pela primeira revista da minha mochila na Europa. Carrego uma mochila de couro relativamente pequena com documentos, remédios, etc., e ontem fui vistoriado. Já havia passado por algo semelhante na Colômbia, há uns dez anos, também entrando num shopping. Agora aqui, em pleno coração da Europa. Todo mundo carregando mochila ou pasta, ou um saco de compras, ou mesmo uma bolsa (no caso das mulheres), era vistoriado.

O frio aqui está mesmo de rachar. Ontem, em Antuérpia, a temperatura teve foi do mínimo de -6 ao máximo de -1. Não chegou a passar ao positivo. Hoje, imagino, deve ter estado mais ou menos a mesma coisa. Tem nevado e geado à noite, deixando as calçadas e leito carroçável das ruas em situação triste. Nas ruas eles jogam sal grosso e a neve ou o gelo logo derretem, à medida que os carros passam. Nas calçadas menos transitadas, o chão fica como uma plataforma do Holiday on Ice… (Alguém se lembra disso?)

Esqueci-me de dizer que peguei uma gripe bem fortinha, que está me incomodando. Estou cuidando dela com Naldecon, mas está resistente. Especialmente à noite, para dormir, incomoda-me bastante o nariz entupido. Felizmente não cheguei a lacrimejar. Espero que fique por aqui. É muito difícil ficar mudando de temperatura, do zero grau da rua para os 20 graus  (ou mais) de temperaturas internas sem pegar pelo menos um resfriado.

Agora à tardinha lavamos roupas… Hoje foi dia da Paloma e da Priscilla, porque na semana passada fui eu e a Bianca que lavamos. Há uma boa lavanderia no subsolo, com máquinas de lavar e de secar operadas a moeda: 4,50 Euros para lavar e 2,00 Euros para secar. Por carga. As duas vezes que usamos fizemos duas cargas em cada máquina. Total, 13 Euros por lavada.

É isso, por hoje.

Em Bruxelles, 7 de Janeiro de 2017.

20170106: O Décimo Quinto Dia (Novamente Antuérpia)

No dia 6 de Janeiro, Sexta-feira, Dia dos Santos Reis, resolvemos voltar mais uma vez até Antuérpia. No dia anterior  chegamos muito tarde lá por causa da visita a Breendonk. Assim, para lá rumamos.

Ficamos apenas no centro, onde almoçamos, num restaurante argentino chamado El Toro. Comida muito boa. O restaurante tinha uma decoração diferente, de maneira escura, quase preta, cor de madeira de barcos e navios, e as garçonetes eram um pouco desajeitadas (derrubaram louças e talheres mais de uma vez). Mas a comida valeu.

Vou deixar aqui mais umas fotos do centro de Antwerp para que vocês, leitores, desfrutem.

[Lugar futuro para as fotos]

Ei-las (peço desculpas pelo fato de que o software do blog não as arranje melhor na página e por eu não ter conseguido, apesar de ter tentado, arruma-las de forma mais adequada — vale dizer [para mim] simétrica).

[NOTA: Na verdade, resolvi remover as fotos daqui até achar um jeito de dispô-las adequadamente. Peço desculpas. Mas a culpa é do WordPress.]

Em Bruxelles, 6 de Janeiro de 2017.

20170105: O Décimo Quarto Dia (Breendonk e Antuérpia)

Ontem nosso dia se dividiu em duas partes, mas como “pernas” diferentes da mesma viagem, cujo destino final foi a famosa cidade de Antuérpia (Antwerpen em Holandês/Flamengo, Anvers em Francês, Antwerp em Inglês).

A cidade, que é a capital da província do mesmo nome, fica no cantinho mais distante do nordeste da Bélgica, a beira-mar (Mar Nórdico ou Mar do Norte), sendo a principal cidade da região que é conhecida como Flandres (Vlaanderen em Holandês/Flamengo, Flandre em Francês, Flanders em Inglês). A cidade, em si, tem população ao redor de 500 mil habitantes (que a torna a cidade, em si, mais populosa da Bélgica) e a região metropolitana, de um milhão e duzentos mil (a segunda da Bélgica, atrás apenas da região metropolitana de Bruxelas). A população da região de Flandres é de cerca de seis milhões e quinhentos mil habitantes.

A cidade fica às margens do estuário do Rio Scheldt (em Inglês; Schelde em Holandês/Flamengo e l’Escaud em Francês). O estuário tem um nome próprio, Western Scheldt (em Inglês; Westerschelde, em Holandês/Flamengo), no qual fica o Porto de Antuérpia, o segundo maior porto da Europa (atrás apenas do de Roterdã, ficando à frente de portos famosos como o de Hamburgo, Marselha e Amsterdã), e entre os maiores vinte do mundo. Pouca gente o diria, assim de pronto.

No fim do século 15 e durante o século 16 Antuérpia se tornou o mais rico centro comercial e um dos mais importantes centros financeiros da Europa, centralizando principalmente o comércio europeu do açúcar (comprado de fornecedores portugueses e espanhóis) e de metais preciosos, em especial prata e ouro (também importados da América do Sul e da África). Segundo Fernand Braudel, a Antuérpia foi, no século 16, o centro do comércio internacional de toda a Europa.

Na complicada geografia daquela época, a cidade foi parte do Reino Unido dos Países Baixos, que fazia parte do Sacro Império Romano (na época conhecido como o Império Austro-Húngaro, governado pelos Habsburgos austríacos), passando a integrar a Bélgica em 1830, quando a Bélgica se tornou um país autônomo e independente, separando-se dos demais Países Baixos (entenda-se Holanda).

Quando Napoleão dominou a Europa, no início do século 19, aumentou e aperfeiçoou o porto de Antuérpia, procurando torna-lo o maior porto do mundo, para reduzir a importância do porto de Londres.

Tudo isso explica a suntuosidade de alguns prédios do centro velho de Antuérpia. Apesar de, no século 19, quando surgiu o transporte ferroviário, a partir do segundo terço do século (1830, exatamente quando Antuérpia passou a ficar sob o controle da Bélgica), a cidade já estar em relativo declínio, a estação ferroviária da cidade é uma das mais formidáveis e magníficas que já vi. Algumas fotografias o comprovam (serão anexadas a seguir). Esclareça-se que os trens chegam em três níveis (andares) diferentes, em plataformas laterais no segundo e terceiro andares, ficando o maior número de plataformas reservado para o andar térreo.

Para cutucar o orgulho brasileiro, quase cem anos antes do Rio de Janeiro, a cidade de Antuérpia hospedou os Jogos Olímpicos de Verão. Isto foi em 1920, em pleno início dos “roaring twenties”.

Tudo isso explica nossa visita a Antuérpia – mas também é parte da razão da outra parte de nossa viagem de ontem (a parte inicial).

Por ser uma cidade tão importante, do ponto de vista financeiro, comercial e mesmo industrial (a região de Flandres é um centro industrial importante), o governo belga, quando assumiu o controle de Antuérpia, a partir de 1830, decidiu proteger a cidade de ataques de potenciais inimigos: em especial a França, ao sul, e, depois de 1870, quando houve a sua unificação (a poderosa Prússia integrando os reinos mais a oeste e ao sul), a Alemanha. Para tanto começou a construir uma rede de fortificações e trincheiras na região, que protegeria a cidade e a região de Antuérpia de ataques. Em especial quando da guerra entre a Alemanha e a França de 1870-1871, os belgas ficaram receosos de ataques, e aumentaram o número e a segurança de suas linhas de defesa, na esperança de manter a neutralidade entre os dois grandes poderes que os ameaçavam. Isso não impediu, porém, que as forças alemãs tomassem a cidade (como o fizeram também com as cidades francesas da Alsácia-Lorena, mais ao sul, na região de Estrasburgo).

Passada a guerra, a região voltou ao controle belga, mas estes aprenderam a lição (em termos). Passaram a construir mais fortes e trincheiras. Entre os fortes, construiu o de Breendonk, o maior e, supostamente, o mais seguro, na cidade de Willebrök, entre Bruxelas e Antuérpia.

O forte foi usado, durante a Primeira Guerra Mundial, como quartel-general e “reduto final” das forças armadas belgas, ficando o estado maior dessas forças armadas e o próprio rei estacionados nele. As forças alemãs, entretanto, mais interessadas em tomar Paris, em grande parte ignoraram o norte da Bélgica num primeiro momento. Quando resolveram atacar Breendonk, porém, o tomaram com relativa facilidade.

Mas foi durante a Segunda Guerra Mundial que o forte ficou tristemente famoso. Logo em 1940 as forças alemães tomaram o forte, que mantiveram sob seu controle durante quase seis anos, até o final da guerra, em 1945, transformando-o num verdadeiro Campo de Concentração, em que internaram opositores belgas à dominação alemã (a “resistência belga”), judeus, e, depois de rompido pela Alemanha, em Abril de 1941, o pacto nazi-soviético de Agosto de 1939, comunistas.

O Campo de Concentração está aberto a visitas, como museu do genocídio perpetrado pelos alemães, muitas vezes com a colaboração dos belgas flamengos, contra a população belga, especialmente aquela que ativamente resistiu à ocupação alemã, e aquela composta de judeus belgas (fortemente concentrados no centro financeiro que era Antuérpia) e de comunistas belgas, sem mencionar os nacionais de outros países deportados pelos alemães para Breendonk (como o faziam para outros campos de concentração, no Leste Europeu).

Fomos lá ontem cedo, ficando até três da tarde quase… Uma visita completa e detalhada, ouvindo todos os áudios, leva mais de três horas. Comprei um livro sobre Breendonk, de Patrick Nefors, chamado Breendonk 1940-1945 (Editions Racine, 2004 [original em holandês], 2005 [tradução para o francês]).

Em Bruxelles, 6 de Janeiro de 2017.

20170104: O Décimo Terceiro Dia (Retorno a Bruxelles)

Acabamos de sair, às 7h43, de Köln com destino a Bruxelles, depois de tomar chocolate quente com “Berliners”. Um “Berliner” é um sonho – com exatamente a mesma aparência e o mesmo gosto dos sonhos brasileiros de confeitaria. Incrivelmente baratos, para os padrões europeus: pagamos 2,99 EUR por quatro Berliners. Não sei se têm esse nome porque foram inventados em Berlim. Na minha vida, a memória mais antiga de um sonho era a Padaria do Tio Adelino e da Tia Margarida, na Av. Salles de Oliveira, na Vila Industrial, em Campinas. Na verdade, eles não eram tios meus e de meus irmãos: eram tios de nossos primos Anello, Márcia, Mário, Élcio e Anelice. O Tio Adelino era irmão do meu querido Tio Anello, marido de minha querida Tia Alice, irmã de minha mãe. O Tio Anello e a Tia Alice eram pais dessa primaiada toda. A padaria deles na Salles de Oliveira era suficientemente perto da Rua 24 de Maio, onde moravam meus tios e meus avós. Quando a gente ia lá comprar pão, eles em geral nos davam um doce daqueles lindos doces de confeitaria. Depois de crescido, infelizmente nunca mais os vi.

Depois de escrever o parágrafo acima, eu dormi o restante da viagem e só fui acordar quando estávamos chegando a Bruxelles… Parece que todo o meu cansaço e o sono que não dormi se acumularam de repente e eu desapareci, de repente, no mundo de um sono profundo e sem sonhos – mudando agora o sentido do termo…

Chegando no nosso studio aqui no apart-hotel, dormi o dia inteiro. A Paloma também dormiu bastante e as meninas, um pouco (a Priscilla mais do que a Bianca). Depois, à tardinha, tomamos uma sopa e eu dormi de novo. Acordei agora há pouco, por volta das 21h30, e tomei mais um comprimido de Naldecon, porque sinto que estou ficando gripado. Também o frio dos últimos dois dias foi perto do insuportável. Diz-me a Paloma que em Mürren, onde fica o Schilthorn que visitamos ontem, a temperatura mínima amanhã será -19 graus e a temperatura máxima -11 (Graus Centígrados ou Celsius)… Pode?

Apesar disso, continuo preferindo frio extremo a calor extremo. Não tolero calorão que deixa a gente todo suado e desanimado, sem vontade de fazer nada. Numa situação assim, só um ar condicionado bem bom ajuda um pouco.  No frio, a gente, mesmo sem aquecimento, pode se aquecer acrescentando roupa ao corpo. Eu até que tolero bem o frio. Na parte de baixo do corpo, nunca uso mais do que uma calça, do mesmo jeito que sempre. A Paloma e as meninas colocam não sei quantas camadas de meias, meias-calças, calças “leg”, calças bailarina, calças de moleton, etc.  Não consigo entender como conseguem andar. Na parte de cima do corpo, uso uma camiseta, uma camisa, uma malha (ou ou equivalente de nylon) e um casaco. Só. Se não estiver muito frio, dispenso luvas e chapéu. Em temperaturas abaixo de zero (C), uso luvas e um chapéu, ambos de couro, que tenho há muitíssimos anos e se conservam bem porque os uso pouco – e tive a sorte de não perdê-los no põe-e-tira do dia-a-dia.

Uma coisa que não temos feito enquanto no quarto é assistir à televisão. Nada, nada – e temos até uma televisão boa no quarto.

As meninas têm se virado bem com as línguas. A Priscilla é especialmente bem dotada e altamente motivada nessa área. Fala bem Inglês, Alemão e Espanhol (algo em relação a que o Colégio Visconde de Porto Seguro, em que ela estudou durante os últimos anos da Educação Básica, fez uma grande diferença na vida dela, porque incentiva e puxa bastante o desenvolvimento multilingüístico dos alunos. A Bianca também se vira bem, mas estudou menos tempo no Porto Seguro (só os dois últimos anos da Educação Básica) e é menos atirada. A Priscilla e a Bianca também já fizeram bastante progresso com o Francês, durante esta viagem, língua que nunca haviam estudado formalmente. Espero que elas saibam aproveitar e cultivar bem o talento que têm e as oportunidades que lhes têm aparecido de desenvolver, de forma diferenciada, suas competências na área linguística. Um diferencial especial da Priscilla nesta área é sua paixão por músicas e por séries americanas (e até filmes ingleses). Ela ouve ou vê esses “produtos culturais” na língua original o tempo todo, e como tem uma memória privilegiada, acaba decorando as músicas e até mesmo o texto do roteiro.

É isso por hoje. Sinto que logo vou voltar a dormir… São quase 23h. Amanhã vamos a Antuérpia e, se der, também visitaremos um antigo campo de concentração nazista que existe na vizinhança. Para fazer tudo isso, teremos de mais uma vez nos levantar cedo.

As fotos de Freiburg, de Mürren e do Schilthorn (Piz Gloria) serão compartilhadas depois.

Inicialmente no Trem de Köln (Colônia) a Bruxelles, em 04 de Janeiro de 2017; o restante em casa, no mesmo dia.

20170101-03: Os Três Primeiros Dias de 2017 (Dias 10, 11 e 12 de Europa) – Freiburg e Suíça

Terminei o último artigo já na madrugada do primeiro dia do ano. Desde então não escrevi nada.

No dia primeiro, domingo, levantamos tarde e passamos quase o dia inteiro no quarto. Precisávamos resolver detalhes de nossa viagem à Suíça, que termina hoje (escrevo isto já nas primeiras horas do dia 4/1). Estamos no trem que nos levará de Basel, na Suíça até Köln (Colônia), na Alemanha. É uma viagem de quase sete horas. Saímos um pouco depois das 23h (23h13, para ser preciso), e chegaremos em Colônia um pouco depois das 6h (6h05, para ser preciso) já no dia 4/1. A viagem levará 6h52, portanto, não havendo atraso – o que não deverá haver (estamos na Alemanha). Passaremos pelas seguintes cidades, em cuja estação ferroviária vamos parar: Basel (CH), Basel Bad (DE – daqui em diante, todas as cidades na Alemanha), Freiburg (Bresgau), Offenburg, Baden-Baden, Karlsruhe, Bruchsal, Heidelberg (uma de minhas cidades favoritas – pena que não vamos ficar lá pelo menos um dia), Mannheim, Frankfurt (Main Station), Frankfurt (Airport – foi aqui que pegamos esse trem na ida), Mainz, Bingen (Rhein), Koblenz, Bonn (a antiga capital da Alemanha Ocidental, antes da reunificação das duas Alemanhas), e Köln (Colônia – onde vamos descer para nos transferir para o trem que vai para Bruxelas).

Mas voltemos ao domingo, dia primeiro do ano. Acertados os detalhes do planejamento, eu fui até a Estação Central de Bruxelas para reservar assentos nesta perna mais longa (e noturna) da viagem que estamos fazendo agora e que terminará às 6h05 de hoje, dia 4/1. (Hoje é o décimo terceiro dia de nossa estada na Europa). Enquanto fui à Estação Central, no domingo, a Paloma foi com a Bianca até um dos onipresentes Carrefour da cidade. Há Carrefour para todo gosto: Carrefour Market (o grandão — sem ser “hipermercado” que vende até televisão e geladeira), Carrefour City (grande, mas não tanto), Carrefour Express (mais ou menos equivalentes ao Carrefour Bairro, relativamente pequeno), etc.

No dia 2/1, segunda-feira, saímos por volta das 6h manhã (acordamos a partir das 4, a cada quinze minutos cada um, para todo mundo tomar banho e se aprontar), pegamos um trem local da estação Bruxelas-Luxemburgo (perto do nosso apart-hotel) e fomos até a estação Bruxelas-Norte (onde passaria o trem que iríamos pegar). Estava nevando, pela primeira vez.

Na Estação Nord de Bruxelas pegamos um trem que nos levou até Frankfurt, na Alemanha, estação Aeroporto. Lá pegamos um trem que nos levou até Freiburg, também na Alemanha. Havíamos decidido fazer uma parada de umas 5-6 horas lá porque a Bianca queria conhecer a cidade, que aparentemente tem adotado medidas progressistas na área de planejamento ambiental. Passamos pelas seguintes cidades, em que paramos: Frankfurt (Airport), Frankfurt (Main Station), Mannheim, Heidelberg, Mannheim, Bruchsal, Karlsruhe, Baden-Baden, Offenburg e Freiburg (Bresgau).

No caminho, voltou a nevar – e acabamos pegando uma boa nevada ao chegarmos à cidade de Freiburg. Rodamos um pouco o Centro Velho, visitamos algumas lojas (C&A, H&M, etc.). As femininas compraram várias roupas – e a Bianca até comprou uma bota, porque o sapato que ela estava usando não estava mantendo seu pé seco e quente na neve. Visitamos também a Catedral da cidade, bastante antiga e muito linda, que tem a distinção de ser uma das poucas igrejas antigas da Alemanha a não sofrer, pelo que consta, nenhum dano durante as duas guerras mundiais. Depois almoçamos numa dessas enormes lojas de departamento, de vários andares, que tinha um andar inteiro como restaurante do tipo self-service com tudo que é tipo de comida e bebida. Cada um montou sua bandeja como quis, quase todo o mundo tomando algum tipo de sopa (eu tomei ghoulash, que contou como sopa). No fim do dia, com a neve ainda muito forte, fomos para a estação para pegar o trem para Basel (Basiléia, em Português, Bâle, em Francês), onde havíamos planejado dormir (e de fato dormimos). Basel é quase a cidade seguinte a Freiburg: entre elas apenas a cidade de Basel Bad (que é uma extensão de Basel, mas que fica ainda em território alemão). O trem para ali apenas para as autoridades de imigração suíças fazerem sua checagem do trem e dos passageiros que acharem que merecem uma verificação mais detalhada. Nós passamos batidos, felizmente. Chegando ao hotel, que ficava razoavelmente perto da estação, a Paloma e as meninas ainda saíram para comer alguma coisa num McDonald’s perto do hotel. Eu fiquei no quarto, tomei um bom banho e acertei a contabilidade do dia. Em Basel muda o dinheiro, de Euro para Franco Suíço (SFr é o símbolo).

Ontem (3/1) cedinho saímos de Basel (deixando as mochilas no hotel, para que não nos atrapalhassem na programação do dia), e partimos em direção a Mürren (via Interlaken e Lauterbrunnen) onde fica o acesso (por bondinho e trenzinho) ao topo da montanha Schilthorn, onde, bem no topo, fica o restaurante Piz Gloria, mundialmente famoso especialmente por ter tido uma participação importante em alguns filmes de James Bond na série “In Her Majesty’s Secret Service”. Esse restaurante, que eu conheci nos anos 80, é rotativo e fica girando em círculo enquanto você come e desfruta uma das mais impressionantes vistas dos Alpes, que lhe permite ver o Jura (a montanha mais alta da Europa, por isso chamada de “The Top of Europe”), o Mont Blanc (talvez a montanha mais bonita dos Alpes, pertinho de Genebra, mas em território francês) e várias outras montanhas famosas dos Alpes Suíços.

Havíamos feito reserva no Piz Gloria para 14h, mas acabamos chegando lá às 12h… (ser filho de mineiro de vez em quando é uma m…). Resolvi verificar se eles estariam dispostos a nos dar uma mesa mais cedo. O dia estava lindo, sem núvens, com um belo sol, e não queríamos perder a oportunidade de almoçar e ficar cerca de duas horas vendo o belíssimo cenário em um tempo totalmente limpo, sem neblina, sem neve, sem chuva… Falei com o maître, e ele respondeu (como era de esperar): “Mas o senhor está duas horas adiantado!!!” — mas pediu o meu nome para conferir a reserva. Quando disse a ele o meu nome ele perguntou se éramos brasileiros. Mudou o tratamentode água para vinho: o dito cujo, chamado Thiago Pereira, era português, de Abrantes. Arrumou-nos uma bela mesa na hora, encostada na janela, e me chamou para que eu visse algo com ele. O algo era um bufê, servido diariamente até às 14h, que continha saladas, frutas, sopas, pães diversos, frios de todos os tipos, comida quente variada, sucos, prosecco (com e sem álcool à vontade), e mais algumas coisas, por 33 Euros por pessoa. Unanimemente optamos pelo bufê — em parte por causa das bebidas… Só duas cervejas long neck que eu tomasse, ou uma meia garrafa de vinho, custariam no mínimo 12 Euros. Algo equivalente se daria com sucos, refrigerantes e água para as mulheres (das quais só a Priscilla não é totalmente abstinente no tocante a álcool). Valeu a pena. A comida estava excelente, o Prosecco e os sucos também, e ficamos “leisurely” comendo durante basicamente duas horas. Saímos de lá (para usar uma expressão meio vulgar) “estufados e empanturrados”.

Depois do almoço ficamos girando lá por cima, vendo uma exposição sobre James Bond, tirando fotografias ao ar livre, etc. Depois, por volta das 15h30, começamos a descida. Em Interlaken pegamos o trem das 17h para Basel, onde chegamos por volta das 19h. Fomos para o hotel onde nossas malas estavam guardadas, e que era perto da estação, e ficamos por lá até  às 22h, aproveitando a boa Internet e o acesso a tomadas para carregar computadores, telefones, etc.

Está aí a crônica dos últimos dois dias. Como já disse, chegaremos a Colônia um pouco depois das 6h da manhã e, depois de uma pequena espera, tomaremos outro trem internacional para Bruxelas, onde chegaremos por volta das 9h da manhã. Ainda pretendemos voltar a Colônia, especialmente para ver a Catedral, e, portanto, passou em nossa cabeça a ideia de fazer isso hoje, ao chegar à cidade. Mas optamos por não fazê-lo, porque estamos carregados de mochilas bem cheias (dadas as compras das meninas e da Paloma) e um bocado cansados. Voltaremos outro dia, se der.

Estou procurando convencer a Paloma a escrever um artigo sobre a experiência da visita a Mürren, ao Schilthorn e ao Piz Glória. Em 2012-2013, quando ficamos cerca de doze dias na Suíça, com base em Genebra, fomos visitar o “Topo da Europa”, o Jungfraujoch, tomando o trenzinho que vai até quase o cume da montanha por dentro dela, num enorme túnel. A Paloma ficou encantada. Naquela ocasião não deu para irmos até Mürren / Schilthorn / Piz Gloria, razão pela qual ela ficou sonhando com um retorno à Suíça para poder ir lá. (A Suíça é a terra dos antepassados da Paloma por lado de mãe, que saíram de Winterthur para ir para o Brasil: é daí que vem o “Epprecht”). Espero que ela se motive a escrever e de fato o faça.

É isso. Meu artigo de hoje foi, até aqui, estritamente do tipo crônica de viagem. Vou tentar termina-lo com algumas considerações sobre a economia na Suíça que transcendem os limites de uma crônica, propriamente dita.

Para quem vem de fora, parece haver dois princípios básicos na economia suíça:

  • Tudo aqui é pago;
  • Tudo aqui custa caro.

(Um terceiro princípio poderia ser: há muito pouca fiscalização ostensiva das ações dos indivíduos [bancas de jornal às vezes ficam desassistidas: você paga o que pega, acerta o troco, e vai embora, sem lidar com algum humano], mas você é severamente punido se tenta “passar a perna” no sistema).

Ilustro os dois primeiros princípios.

Hoje, enquanto estávamos na estação ferroviária de Basel, duas de minhas acompanhantes precisaram ir ao banheiro. Rodamos e não encontramos nenhum. Perguntamos onde ficava o banheiro e ficava no sub-solo. Lá chegando, fiquei admirado com a qualidade das instalações. Tudo novo, bonito e limpo. Mas tudo pago — e funcionando automaticamente, sem atendente, através de catracas e máquinas de pagar com moedas (algo que indica o terceiro princípio também: ninguém está ali para fiscalizar se você não passa por baixo da catraca, como a muitos brasileiros ocorre fazer). Eis os preços (comprovados por uma foto), esclarecendo que, ao câmbio de hoje 1 Franco Suíço (SFr) equivale a 1 Dólar Americano (USD), ou seja, vale, digamos, de 3,20 a 325 Reais (BRL):

  • Uso das privadas fechadas, por  parte de qualquer sexo, num mesmo ambiente (sem que haja ala masculina e ala feminina): 2 SFr.
  • Uso dos mictórios, exclusivamente por parte de homens, num ambiente, portanto, segregado: 1,50 SFr.
  • Uso da área de pias, com espelhos, etc., para se pentear, arrumar, etc., por qualquer sexo: 2 SFr.
  • Uso da área de chuveiros, para uma ducha, por qualquer sexo: 12,00 SFr.
  • Troca de fraldas de crianças, por qualquer sexo: 2,00 SFr.

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Tudo é pago – e tudo é caro: para fazer xixi ali na estação ferroviária, um homem gasta quase 5 BRL – e uma mulher cerca de  6,50 BRL. É verdade que as instalações são modernas, bonitas, e, mais importante, limpas, bem-cheirosas, etc. Mas não há sequer uma alternativa mais velha, mais suja, mais fedida, mas gratuita…

Dou outro exemplo. No trem que veio de Interlaken para Basel, uma viagem que dura cerca de duas horas, resolvi comprar chocolate quente para todo mundo – posto que a temperatura estava abaixo de zero. Saiu a 4,50 SFr – ou seja, a quase 15,00 BRL, cada copo de chocolate. Os quatro chocolates ficaram a bagatela de 60,00 BRL. Não é brincadeira.

Um terceiro exemplo: uma garrafa de rum Bacardi, que no Brasil custa cerca de 30,00 BRL, na Suíça está custando mais de 40,00 SFr, ou seja, acima de 125,00 BRL, ou seja, quatro vezes mais do que no Brasil.

É verdade que algumas coisas custam bem mais barato aqui do que no Brasil. Uma garrafa de vinho da marca Gato Negro, que no Brasil está a custar cerca de 32 a 35,00 BRL, na Suíça (e no resto da Europa) custa cerca de 5,00 SFr ou 4,50 EUR – ou seja, menos da metade do preço praticado no Brasil.

É isso, por enquanto.

No Trem de Basel (Basiléia) a Köln (Colônia), em 04 de Janeiro de 2017

Em Tempo:

Escrevi o essencial nas primeiras horas do dia e fiz uma primeira revisão por volta das 5h da manhã, depois de ter tentado dormir um pouco, sem muito sucesso. As meninas e a Paloma deitaram como puderam nos bancos da cabine de seis lugares dos quais reservamos quatro. Felizmente, em relação aos outros dois lugares, um foi reservado por alguém que só pegaria o trem depois que o deixássemos, e o outro foi reservado por alguém que só subiria no trem na última estação antes de Köln, onde desceríamos — mas mesmo assim não apareceu. Assim, tivemos os seis assentos por nossa conta o tempo todo. A Paloma conseguiu dormir nos dois assentos do meu lado – e as meninas negociaram três assentos e conseguiram dormir neles se revezando.

Mais tarde relato o restante da viagem referente ao dia de hoje, 4/1, o quarto de 2017 e o décimo terceiro de nossa estada Europa. Amanhã, 5/1, serão completadas duas semanas de nossa chegada à Europa e depois de amanhã, 6/1, teremos cumprido metade de nosso tempo aqui… Time sure flies when you are having fun… 

20161231: O Nono Dia (Aachen / Aix-la-Capelle e o Fim de Ano)

Aachen, hoje localizada na Alemanha, muito próximo da divisa com a Bélgica, e perto da divisa com a Holanda, é uma cidade que já mudou de mãos várias vezes e acabou ficando na Alemanha. Seu nome é conhecido em várias variantes. Quem fala Francês ou Inglês a conhece como Aix-la-Chapelle. Quem fala Espanhol ou Português a conhece como Aquisgrana.

Como Chaves, em Portugal, cidade com a qual tenho uma identificação especial, Aachen foi fundada pelos romanos nos primórdios da era cristã. Tanto no caso de Chaves como de Aachen, por uma boa razão: os romanos encontraram nos locais em que as cidades foram fundadas fontes de águas minerais / termais / medicinais. Chaves foi chamada pelos romanos de Aquae Flaviae (ou Aquis Flavium). Talvez por ter sido supostamente fundada por alguém chamado Flavius (como é o nome de meu irmão), por volta de 79 dC. Até hoje, quem nasce em Chaves é chamado de flaviense. Aachen foi chamada pelos romanos de Aquae Granae (ou Aquis Granum), por ter sido supostamente fundada por alguém chamado de Granus Serenus, por volta de 124 dC. Por esta razão a cidade é chamada de Aquisgrana em Português. Aqui findam os paralelos entre as duas cidades.

Aachen é, hoje, mundialmente conhecida por razões históricas, que serão declinadas a seguir, e por ter um monumento reconhecido como World Heritage Center pela UNESCO. Chaves só é conhecida de portugueses e de galegos (a Galizia fica do outro lado da divisa, a 10km, com a Espanha), embora tenha um forte bastante bem preservado (que é hoje um fino hotel) e ruínas de um castelo (que se limitam a uma torre).

Aachen era o local preferido de residência de Charlemagne / Carlos Magno / Karl der Grosse, o fundador do Sacro Império Romano no Ocidente no ano 800. Quando se tornou Imperador desse Império, transformou Aachen em sua capital. Ali já exercia a função de Rei dos Francos, antes de se tornar Imperadoro Romano, no dia de Natal do ano 800. Como Rei dos Francos começou a construir ali uma igreja — que só veio a ser concluída, numa primeira versão, depois de estar ele morto já há algum tempo. Concluída, a igreja veio a ser chamada de la Cathédrale de Aix-la-Chapelle, ou, em Alemão, Der Aachener Dom. Em Inglês é conhecida como Cathedral of Aix-la-Chapelle ou Aachen Cathedral. A catedral hoje contém, num sarcófago aparentemente de ouro, os restos mortais de Karl der Grosse / Charlemagne / Carlos Magno.

De 936 (quando o Sacro Império Romano passou a ser controlado por Imperadores Germânicos e não Francos) até  1531 a cidade, agora pertencente aos alemães, continuou a ser sede do Império, e 31 Imperadores Romanos foram  coroados “Reis dos Alemães” nessa magnífica catedral, uma das mais lindas, se não a mais linda, que já vi.

Hoje fomos visitar a “Catedral de Aquigrana”, como se diria em Português fresco. Eu a chamo simplesmente de Catedral de Aachen. Ela fica a cerca de 90 minutos de trem aqui de Bruxelles. Pegamos um trem cujo destino final é Frankfurt, mas que para em Aachen antes de parar em Köln (Colônia) para depois seguir até Frankfurt. Uma coisa que me surpreendeu foi o tamanho da nave da catedral. Ela não é grande, não passando de uma fração do tamanho da nava de Cathédrale de Notre Dame de Strasbourg, que vimos antes. Mas é magnífica. Só vendo as fotos, mesmo. Por fora, ela é incomparável. É difícil descrevê-la, sem ser especialista em arquitetura. O edifício que está ali hoje já sofreu inúmeras reformas e modificações ao longo dos mais de mil anos de sua existência. Mas continua cada vez mais magnífico no seu conjunto

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Voltando para Bruxelles, descansamos um pouco e passamos a preparar nossa “Ceia de Ano Novo”.

Ela foi realizada por volta das 19h, hora local (16h no Brasil), do dia 31/12/2016, em nosso studio, em Bruxelles, BE. No Facebook há fotos da nossa singela mesa e de nós quatro juntos. A comida estava deliciosa, embora tudo tenha sido comprado ontem, no Carrefour – onde também compramos um Prosecco que abrimos depois da meia-noite, quando voltarmos de um breve passeio à cidade, onde deveriam ter sido queimados fogos (não houve nada que possa ser considerado queima de fogos dentro de nosso campo de visão). Voltando à ceia, ela não foi nada sofisticada, longe disso… Na verdade, foi até mesmo franciscana, como também foi nossa Ceia de Natal aqui, um dia depois de chegarmos. O importante foi estarmos os quatro juntos num ambiente nosso, em nossa “home away from home”, aqui em Bruxelles. O importante é a viagem, que, até o final, nos manterá juntos por cerca de 34 dias, vendo um monte de coisas bonitas, e aproveitando o tempo que temos de ficar juntos nessa oportunidade única.

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A propósito, a Paloma e eu estávamos nos lembrando de que, desde 2008, quando passamos a viver juntos, no final de anos pares nós passamos o Révéillon fora do Brasil:

  • Em 2008, em Paris, só a Paloma e eu, ao pé da Torre Eiffel, depois de termos tentado achar um lugar adequado na Champs-Elysée;
  • Em 2010; em Lisboa, com nossos amigos Luiza de Marilac Amorim e Fernando Santos Costa, num restaurante/discoteca, que, na verdade, ficava na Praia da Caparica, perto de Lisboa, não realmente na cidade;
  • Em 2012, em Praga, com nossos amigos Silvia Klis e Edson Saggiorato, amontoados na Charles Bridge, antes de partimos para um pouco de sossego em Cesky Krumlov;
  • Em 2014, na pacata Ushuaia, na Tierra del Fuego, na Argentina, com minha irmã Eliane e seu marido (nosso cunhado) João, na casa deles;
  • Agora, em 2016, aqui em Bruxellas, a Paloma, a Bianca, a Priscilla e eu, naquela que tem sido nossa casa desde 23/12/2016 e o será até 23/01/2017

No final de anos ímpares passamos o final do ano em Ubatuba (2009, 2011), na casa dos meus sogros, e em Salto (2013 e 2015), no nosso sítio “O Canto da Coruja”. Em 2013, ficamos em casa com a Bianca, a Priscilla, minha filha Andrea, o então seu marido, e minhas netas Olivia e Madeline. Em 2015 (ano passado), apenas com a Priscilla e sua (e nossa) amiga Laryssa Gomes.

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Quanto aos supostos fogos de artifício aqui de Bruxelles… Alguém havia dado às meninas (num Centro de Apoio a Jovens ou a Estudantes, não sei bem) a informação de que haveria uma queima de fogos de artifício na praça que fica ao lado / em frente das instalações reais. Fomos para lá um pouco antes da meia-noite. Não havia viva alma no local além de um carro de polícia com dois policiais. Perguntei ao que estava no volante se haveria queima de fogos de artifício ali, e ele respondeu negativamente. Perguntei se haveria essa queima em algum outro lugar ali no centro. Ele disse que talvez sim, alguma, mais adiante — mas que ele achava que já tinha acontecido…

Andamos mais um pouco e vimos que, na avenida que passa na parte do outro lado do parque (o de baixo), havia certa movimentação, com vários carros chegando, estacionando, e pessoas andando apressadamente pela avenida – algumas até mesmo correndo. Fomos até lá e seguimos o grupo até uma outra praça. Mas nada de queima de fogos de artifício como estamos acostumados a ver em Copacabana e nós mesmos vimos em Paris e em Praga em 2008 e 2012. Apenas uns foguetinhos mixurucos aqui, outros ali, uma tentativa de buzinaço, e no más.

Acabamos voltando para casa, depois de alguma confabulação sobre se deveríamos ir mais adiante e verificar se havia algum agito mais significativo. Decidimos não ir. O ambiente não prometia muito. Nas ruas, a maioria era de homens em grupos, infalivelmente bebendo, já se vendo algumas garrafas vazias deixadas por eles no chão… Ou seja, o pior tipo de homem que se pode ter: uma manada de bêbados. Tenho certeza de que fizemos bem em voltar para casa, embora, evidentemente, tivesse havido alguma relutância por parte das meninas.

Chegando em casa, tomamos nosso Prosecco e nos desejamos um Feliz 2017. Mas a experiência da não-queima de fogos de artifício nos deixou meio frustrados, pela expectativa que construímos de ver algo bonito e que marcasse a passagem de ano dessa forma tradicional.

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Vamos ver o que nos reserva 2017…

O ano que acabou, 2016, a despeito de todos os problemas, foi bom para nós, até mesmo muito bom, em muitos aspectos. A Bianca concluiu a Faculdade em São Paulo, na área de Gestão Ambiental, e a Priscilla a começou, em Botucatu, na área de Biomedicina. A Paloma começou um novo trabalho no IFSP-Capivari, iniciando uma nova carreira aqui no magistério de nível superior. Em função desse novo trabalho, nós dois nos mudamos de São Paulo para o sítio em Salto.

Eu escrevi dois livrinhos, um sobre Aprendizagem Colaborativa Através de Projetos Transdisciplinares, que fará parte de uma coleção da FTD Educação, e outro sobre O Cristianismo Primitivo (até 476 dC), que fará parte de um conjunto de Guias de Estudo do Curso Livre a Distância de Teologia da Fundação Eduardo Carlos Pereira.

O primeiro livrinho (que chamo de “livrinho” porque é despretensioso, embora tenha cerca de 200 páginas em Microsoft Word) discute basicamente três conjuntos de questão:

  • Quem somos? (A Questão da Identidade Pessoal)
  • O que queremos ser, ou para onde queremos ir? (A Questão dos Projetos de Vida, ou dos Fins)
  • O que é preciso saber / saber fazer / fazer para nos tornar o que queremos ser ou  para chegar aonde queremos chegar (A Questão das Competências, ou dos Meios)

Inspirei-me, nesse livrinho, em ideias de muita gente que venho lendo há décadas, mas a presença mais marcante foi a de Steven R (Richards) Covey, autor de Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes e os inúmeros outros livros que a ideia desse livro acabou por gerar.

O segundo livrinho, que espero rever e expandir para publicação autônoma ao longo de 2017, é sobre a História do Cristianismo Primitivo, de suas origens, como uma seita judaica, até sua consolidação como única religião oficial do Império Romano (em 380) e, com o fim do Império Romano no Ocidente (em 476), como verdadeira “Religião Imperial Sem Império”. Discuto, no texto, em especial a questão da criação, artificial, de uma unidade doutrinária (a ortodoxia) a partir de uma rica diversidade original que, com a definição da ortodoxia (nos Concílios Ecumênicos de 325, 381, 431 e 451), acabou sendo declarada herética e perseguida. Ou seja, durante esses quase cinco séculos de história, o Cristianismo passou de uma igreja perseguida para uma igreja perseguidora. A Inquisição, que surgiu muitos séculos mais tarde, é fruto dessa evolução (ou, como preferem alguns, dessa involução).

É isso. São quase 3h da manhã aqui nesta parte do mundo. Não sei bem o que faremos amanhã. Talvez demos um pulo até Antuérpia. Mas não está totalmente definido ainda.

Termino desejando um Feliz 2017 a todos os leitores deste blog.

Em Bruxelas, 31 de Dezembro de 2016 (na verdade, em parte, já em 01 de Janeiro de 2017).